
A visita de trabalho do vice-Presidente e ministro dos Negócios Estrangeiros da Confederação Suíça, Ignazio Cassis, a Angola levanta uma questão incontornável e incómoda: como pode Luanda aprofundar relações económicas com Berna enquanto continuam bloqueados, naquele país europeu, centenas de milhões de dólares pertencentes ao Estado angolano?
O encontro com o Presidente João Lourenço foi descrito como mais um passo no reforço da cooperação bilateral, com destaque para o investimento privado e interesses comuns.
No plano diplomático, o discurso é previsível: elogios mútuos, promessas de parcerias e referências ao papel de Angola na estabilidade regional.
No entanto, por detrás da retórica cordial, persiste um dossiê sensível que não pode ser ignorado, o caso dos cerca de 900 milhões de dólares ligados ao empresário Carlos Manuel de São Vicente, congelados na Suíça desde 2020.
O antigo presidente da AAA Seguros e marido de Irene Neto, filha do primeiro Presidente, foi condenado em Março de 2022 a nove anos de prisão pelos crimes de peculato, fraude fiscal e branqueamento de capitais.
O paradoxo é evidente. Por um lado, Angola tem intensificado o combate à corrupção e conseguido recuperar milhares de milhões de dólares desviados do erário durante o longo reinado do malogrado ex-Presidente, José Eduardo dos Santos.
Por outro, enfrenta resistência de jurisdições estrangeiras – como a Suíça – que, apesar de se apresentarem como defensoras da transparência financeira, tardam em colaborar na devolução de activos cuja titularidade já foi reconhecida pelos tribunais angolanos.
O próprio Presidente João Lourenço foi claro ao afirmar, em Outubro do ano transacto, que a falta de cooperação internacional continua a travar o repatriamento desses recursos, essenciais para o desenvolvimento do país.
E é precisamente aqui que a visita de Ignazio Cassis ganha contornos políticos mais profundos: não se trata apenas de diplomacia económica, mas de credibilidade no sistema internacional de justiça financeira.
A posição suíça levanta dúvidas legítimas. Se existe uma decisão judicial transitada em julgado em Angola, confirmada pelo Tribunal Constitucional, por que razão os fundos permanecem retidos?
Estará a Suíça a questionar a validade das instituições angolanas ou simplesmente a proteger interesses instalados no seu sistema bancário?
Mais do que um impasse jurídico, o caso revela um desequilíbrio estrutural nas relações internacionais. Países africanos são frequentemente pressionados a cumprir padrões rigorosos de governação e transparência, mas, quando exigem reciprocidade, encontram barreiras legais e políticas difíceis de ultrapassar.
Neste contexto, a visita de alto nível suíça deveria ter sido uma oportunidade para avanços concretos neste dossier — ou, pelo menos, para sinais claros de compromisso. No entanto, o silêncio em torno desta questão sugere que o tema continua a ser tratado com cautela diplomática, em detrimento de uma solução efectiva.
Angola precisa de investimento estrangeiro e de parcerias estratégicas, mas não pode dissociar essa necessidade da defesa dos seus próprios interesses. A cooperação internacional só é sustentável quando assente em confiança mútua e respeito pelas decisões soberanas.
Por isso, a pergunta permanece actual e legítima: Ignazio Cassis, onde está o nosso dinheiro?