O general Sachipengo Nunda – Sousa Jamba
O general Sachipengo Nunda - Sousa Jamba
Nunda

Fala-se muito, por estes dias, do General Sachipengo Nunda. Fala-se dele, porém, quase sempre a partir do episódio da sua vida que mais depressa atiça a curiosidade pública: o facto de ter estado ali, de ter pertencido ao grupo que se opôs ao Dr. Jonas Malheiro Savimbi e de ter testemunhado, por dentro, o choque final entre vontades antigas, fidelidades desfeitas e destinos em colisão. É compreensível.

A morte do que Dr. Jonas Malheiro Savimbi continua a ocupar, no imaginário angolano, um lugar em que a história, a lenda, o ressentimento e a memória disputada se confundem. Há nomes que ficam para sempre presos ao instante em que o país parece mudar de respiração. Nunda é um deles.

Mas um homem não se esgota no clarão do momento em que a história o apanha. Há qualquer coisa de empobrecedor, talvez mesmo de intelectualmente preguiçoso, em reduzir Sachipengo Nunda ao episódio terminal da guerra, como se a sua relevância começasse e acabasse no dia em que Dr Savimbi tombou.

Fazê-lo é perder de vista uma figura que, pelo testemunho dos seus contemporâneos, foi uma das mais agudas inteligências militares da UNITA, talvez uma das mais completas da sua geração.

O confronto entre Nunda e Savimbi merece melhor sorte do que a agitação leve da propaganda de salão. Estamos diante de um duelo entre duas personalidades que se conheciam muito bem, homens vindos do mesmo grande laboratório de disciplina, ambição, sacrifício e dureza que foi a guerra angolana.

Esse capítulo será, ao que tudo indica, tratado com seriedade em “Os Últimos Dias de Savimbi” de José Gama, obra a publicar em Portugal em Julho, fruto de quinze anos de trabalho, de centenas de entrevistas e do acesso a comunicações altamente sensíveis trocadas no interior da elite dirigente da UNITA. Será uma obra para contemplação, não para consumo apressado.

O problema é que, enquanto a atenção pública se concentra quase exclusivamente na cena final, perde-se o homem anterior a essa cena. E esse homem não era um militar vulgar. Há homens que a guerra molda como simples instrumentos. Há outros que ela revela, quase contra a sua própria brutalidade, como inteligências raras. Sachipengo Nunda pertence a esta segunda espécie.

O retrato que dele emerge é o de uma figura de espessura pouco comum. Não apenas comandante. Não apenas estratega. Não apenas quadro político. Mas tudo isso ao mesmo tempo, somado a uma formação técnica, a uma disciplina interior de matriz protestante e a um percurso que atravessa a escola colonial, a ruptura da independência e a pedagogia severa da mata.

Por volta de 1979, Nunda terá sido comissário político das FALA, numa época em que a guerra exigia firmeza ideológica, autoridade moral e um entendimento fino da matéria humana.

Mais tarde, surge como comandante da Frente Nordeste, nas Lundas Norte e Sul, tendo empurrado essa frente até às áreas diamantíferas e realizando ali, segundo o testemunho de antigos companheiros, “um grande trabalho”.

A expressão é seca, quase económica. Mas quem conhece a linguagem dos antigos combatentes sabe que, muitas vezes, a guerra é dita assim. Por detrás dessa brevidade adivinham-se o avanço sob pressão, a leitura rigorosa do terreno, a organização das forças e a persistência em condições de enorme desgaste.

Foi também membro do COPE, o Comando Operacional Estratégico, órgão central de formulação militar no interior da UNITA. Não era apenas receptor de ordens. Participava na arquitectura das próprias linhas de acção.

E possuía uma qualidade ainda mais rara: conseguia descer da estratégia à táctica sem perder clareza. Via o quadro geral, mas não perdia o detalhe. Pensava em grande, mas sabia agir no chão. Esse duplo dom é raro, e é ele que lhe confere densidade.

A sua formação ajuda a perceber essa compleição. Em 1974, ainda sob o regime colonial, frequentou a Escola de Aplicação Militar, onde recebeu treino no curso de oficiais milicianos. A sua trajectória não nasceu apenas do improviso da guerrilha: houve contacto com método, técnica e disciplina formal.

A sua origem familiar ilumina igualmente o retrato. Filho da IECA, oriundo de uma família protestante do Planalto, com o pai pastor de segunda geração, cresceu num universo que produziu quadros de disciplina severa, apreço pela instrução e contenção moral.

O testemunho refere ainda uma família conhecida, próxima da família Malheiro Savimbi, situada num meio em que a respeitabilidade comunitária e a proximidade aos círculos centrais do movimento se entrelaçavam.

É por isso que o seu percurso posterior adquire um contorno quase trágico. Porque, já do outro lado da linha de fogo, se tornou um dos oficiais mais destacados no combate ao então presidente da UNITA.

A história ganha então uma espessura quase shakespeariana: o confronto final deixa de ser apenas militar e passa a ser o choque entre homens formados nas mesmas paisagens morais, nas mesmas disciplinas e nas mesmas memórias, mas empurrados pela história para campos opostos. Poucas imagens condensam tão bem a tragédia angolana.

*Jornalista e escritor

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