
Apraz-me tecer algumas algumas considerações em torno da emergência de movimentos cívicos nos últimos dias , tendo em conta as multi opiniões que se têm vindo a formar sobre a ideia de união ou dispersão de forças.
Por definição, não exacta claro, movimentos sociais são esforços colectivos, não sancionados legalmente, que visam promover ou obstruir mudanças. Pela sua natureza e seus objectivos, podem ser reformistas ou conservadores.
Os movimentos sociais reformistas surgem para promover mudanças de natureza económica, social, política, mas também ser consevadores para impedir que estas mudanças ocorram a fim de não se perderem direitos e garantias arduamente conquistados. Engana-se quem pensa que os movimentos surgem sempre para mudar a realidade vigente.
Dito isto, cabe agora olhar para a nossa realidade social e cívica. É legítima ou não a criação de movimentos? A sociedade não é monolítica nem unidimensional.
Os problemas são variados daí que estes suscitem o nascimento de movimentos sociais. Se existirem 1000 problemas, é normal que existam 1000 movimentos.
Porém, a minha maior inquietação é quando os movimentos não definem uma pauta única de actuação. A falta de delimitação torna-se perigosa e coloca em risco a continuidade e a consistência da luta.
Dos vários movimentos de que fiz parte, o erro crasso foi justamente este: a tudologia. Um movimento deve ter uma bandeira única de luta. E quando esta bandeira é hasteada é livre de se auto reformar.
São exemplos disto os movimentos negros, o movimento feminista, o movimento do sem tecto no Brasil, o movimento LGBTQI+, o movimento trabalhista do século XIX, movimento dos sem terra e os movimentos estudantis.
Deveríamos inovar no modo como definimos a puta de actuação dos movimentos cívicos, porque depois a luta torna-se desgastante e o que mais fica é o protagonismo social e não as conquistas sociais nem a humanização da sociedade.
Ademais, parece-me também ingênuo que pessoas com certa visibilidade social criem diferentes movimentos com uma agenda principal: tirar o MPLA do poder por exemplo ou mobilizar o povo para a alternância. A isto sim, têm razão os críticos quando dizem que é dispersão de forças ou luta de egos.
Seria profícuo que pessoas como Gangsta, Texeira, Tanaice, Luaty, Mbanza, Kaholo, Jeiel de Freitas, Ngola Kiluanje, Adolfo Campos, Laurinda Gouveia, Laura Macedo, General Nila, Rosa Conde, Jaime MC, Cesaltina Abreu, só para citar alguns, pudessem formar uma única linha de resistência no que concerne ao objectivo da alternância.
A alternância jamais poderia ser tão banalizada como hoje, que agora tudo e mais alguma coisa é: “em 2027 vamos tirar MPLA do poder”. É um assunto tão sério e tão sensível que exige de nós maturidade, responsividade e planejamento estratégico.
Uma frente Ampla da Sociedade Civil criada ad hoc me parece mais sensata, do que a forma pueril como temos falado dela de pompa e circustância que virou terno e gravata de todo o que se diz activista. Quando a luta se fragmenta, torna-se vulnerável.
Como tenho dito inúmeras vezes, não há um único partido, não há um movimento, não há um único homem que vai mudar o país. A mudança só depende do povo. Por mais que digam que isto requer liderança. Mas a liderança, também assenta numa frente ampla da sociedade civil.
Em Angola a oposição é do MPLA, porque é ele quem dita com que número de representatividade e força a oposição será exercida. E deste modo, escolhe a seu bel prazer quem deve ser o líder, o segundo ou o terceiro da oposição.
Até as nossas mulheres só não são do MPLA porque eles não querem. Ainda têm as deles. Quando as deles não mais servirem, ali sim tomá-las-ão.
A mim espanta a criação de inúmeros movimentos com a mesma ideia de enfraquecer o MPLA. E logo à partida já se começa a falar em alianças com partidos políticos. É duro dizer isto: mas a derrota na luta já começa a se traçar.
Não precisamos esperar em 2027. O regime precisa ser enfraquecido a partir de agora. E uma destas vias, é a insurreição popular contra o Centro do poder, CNE e o fantoche Tribunal Constitucional, bater-se exigindo a Revisão Constitucional que permita cidadãos concorrerem individualmente.
Tomem ao menos um exemplo da história recente em Angola: o Movimento Revolucionário ergueu-se em torno do lema 32 é muito. E quase toda a espinha dorsal da sua luta durante a era JES, com devida excepções, foi em torno da longevidade de dos Santos. E abalou os alicerces do ditador até ele cair.
Não atiremos areia aos olhos do povo. Lutemos para que ele acorde e veja a verdade sem lentes, mas a olho nu. Sem mudanças das variáveis eleitorais tudo o que está a ser feito hoje, não passará de palavreado. E alguns sairão com mais alguns kuanzas no kafocolo.
Só precisamos ser verdadeiros para que Angola mude.
Mais racionalidade e menos emoção.
*Professor