
O filósofo queniano Henry Odera Oruka, na sua obra «Filosofia da Sagacidade: Pensadores Indígenas e o Debate Moderno sobre a Filosofia Africana» (1990), distinguiu inicialmente quatro tendências na filosofia africana contemporânea: a etnofilosofia, a sagacidade filosófica, a filosofia ideológico-nacionalista e a filosofia profissional.
Mais tarde, Oruka expandiu esta classificação ao adicionar mais duas categorias: a filosofia literária (ou artística), representada por figuras como Ngugi wa Thiong’o, Wole Soyinka e Chinua Achebe; e a filosofia hermenêutica.
Primeira tendência, «etnofilosofia»: defende que a filosofia de um povo está intrínseca nos seus costumes, provérbios e rituais. O foco recai sobre o pensamento colectivo em vez do individual. Porém, muitos críticos argumentam que esta vertente se aproxima mais da ‹antropologia› do que da filosofia propriamente dita, devido à ausência de um debate crítico rigoroso.
Segunda tendência, «sagacidade filosófica»: Oruka identificou indivíduos nas comunidades (os sábios) que, mesmo sem formação académica, pensavam de forma crítica e racional. Diferente da etnofilosofia, aqui o «indivíduo sábio» questiona as tradições da sua própria cultura, demonstrando a existência de um pensamento rigoroso fora do ambiente universitário.
Terceira tendência, «filosofia ideológico-nacionalista»: surgiu com os líderes que lutaram pela independência de África (como Kwame Nkrumah e Julius Nyerere). O objectivo principal é a criação de uma ‹nova ideologia política e social› que fundamente a libertação do continente contra o colonialismo.
Quarta tendência, «filosofia profissional»: é a filosofia produzida por africanos com formação académica, geralmente adoptando métodos universais (lógica, análise, etc.). Esta vertente defende que a filosofia deve ser ‹universal e baseada na razão›, independentemente das particularidades culturais.
Quinta tendência, «filosofia literária ou artística»: adicionada mais tarde, reconhece que grandes escritores (como Chinua Achebe ou Wole Soyinka) transmitem visões de mundo profundas através de seus livros. O foco é a literatura como veículo para questionar a realidade, a moralidade e a política.
E sexta tendência, «filosofia hermenêutica»: foca-se na interpretação filosófica para compreender textos e realidades. Analisa a linguagem e os símbolos africanos para extrair o seu sentido profundo, procurando ‹conciliar a tradição com os desafios da modernidade›.
Oruka queria mostrar que a filosofia africana não é uma coisa só. Ela vai desde a sabedoria dos mais velhos na aldeia até os debates académicos mais complexos e a luta política por liberdade.
A questão é: como aplicar em Angola, especialmente na filosofia angolana?
Para aplicar as tendências de Oruka na prática em Angola hoje, precisamos tirar a filosofia dos livros e levá-la para as ruas, redes sociais e instituições. Em vez de apenas ouvir os «mais velhos» como autoridades inquestionáveis, o objectivo seria identificar e dialogar com os sábios críticos das nossas comunidades.
Dever-se-ia criar fóruns ou podcasts onde detentores de conhecimento tradicional (sobas, parteiras, mestres de ofícios) sejam desafiados a explicar a lógica por trás dos costumes, separando o que é apenas «hábito» do que é sabedoria racional que ainda serve para 2026.
Dever-se-ia desenvolver e aplicar modelos de gestão e ética no trabalho que não sejam apenas «cópias» do Ocidente ou da China, mas que integrem valores locais (como a solidariedade comunitária) para resolver problemas de corrupção e desorganização social.
A filosofia académica nas universidades angolanas não deve apenas repetir Kant ou Hegel. Os filósofos profissionais deveriam actuar como consultores de ética e lógica em hospitais, tribunais e empresas.
Se um hospital tem de decidir quem recebe tratamento em escassez, o filósofo profissional ajudaria a criar critérios justos baseados na realidade local.
Dever-se-ia incentivar que o teatro de rua e o Spoken Word (poesia falada) nas periferias de Luanda e noutras províncias sirvam para criticar a moral actual e projectar o futuro do país. É usar a arte para fazer o povo pensar sobre «quem somos nós agora?».
Angola vive uma mistura de leis modernas e costumes tradicionais, além de uma explosão de novas igrejas. Dever-se-ia interpretar de forma crítica os discursos religiosos e as leis, ou melhor, adaptar o sentido dos símbolos antigos para que eles façam sentido na era digital. Exemplo: «O que esta tradição ou este sermão significa realmente para um jovem angolano desempregado hoje?».
A etnofilosofia muitas vezes diz: «nós, angolanos, somos assim e pronto». Devemos deixar de usar a «cultura» como desculpa para comportamentos negativos (como o nepotismo ou o machismo).
Por conseguinte, aplicar a visão de Oruka aqui significaria analisar a nossa identidade não como algo estático, mas como algo que nós temos o poder de mudar e reconstruir através do debate.
*Filósofo