
As imagens que chegam de Benguela não mostram apenas ruas transformadas em rios, casas submersas ou famílias empoleiradas em telhados à espera de socorro.
Mostram, acima de tudo, a nudez de um país que continua vulnerável sempre que a natureza decide testar a resistência das suas infra-estruturas e a capacidade das suas instituições.
As cheias que devastam hoje a linda cidade de Benguela são uma tragédia visível. Mas, como quase sempre acontece em Angola, o que se vê é apenas a primeira camada do desastre.
O verdadeiro perigo começa quando as câmaras se desligam, quando a água baixa e quando o lodo, os escombros e o abandono ficam.
Porque a inundação não leva apenas bens materiais. Traz consigo aquilo que Angola conhece demasiado bem: doença, contaminação, fome e morte lenta.
É impossível olhar para esta tragédia sem recordar que o país ainda enfrenta surtos recorrentes de cólera, malária, febres tifoides e outras doenças infecciosas directamente ligadas à degradação sanitária.
E poucas situações são tão propícias à proliferação de epidemias como uma cidade inundada, com águas paradas, lixo a céu aberto, esgotos misturados com águas pluviais e milhares de pessoas desalojadas sem acesso a condições mínimas de higiene.
A cólera, que ainda se regista alguns casos em Benguela e em todo país, não vai ficar parada. Ela vai prosperar exactamente onde o Estado falha: na ausência de saneamento, no colapso do abastecimento de água potável, na promiscuidade dos abrigos improvisados, na pobreza extrema.
Cada bairro inundado hoje em Benguela pode ser um foco de infecção amanhã. Cada família deslocada pode tornar-se uma estatística sanitária dentro de dias.
Mas o drama não termina aí. Água contaminada significa diarreias agudas em crianças. Mosquitos multiplicados significam explosão de casos de malária.
Infra-estruturas destruídas significam isolamento de comunidades inteiras sem acesso a hospitais. E pontes arrastadas ou estradas cortadas significam dificuldade em fazer chegar medicamentos, alimentos e assistência onde ela é mais necessária.
O mais revoltante é que nada disto é surpresa. Nada disto é imprevisível. Nada disto é novo.
Todos os anos chove em Angola. Todos os anos há alertas. Todos os anos há promessas de prevenção, reforço de drenagem, limpeza de linhas de água, construção de infra-estruturas resilientes, fiscalização urbanística.
E todos os anos, ao primeiro teste sério, o país parece ser apanhado desprevenido como se a chuva fosse uma invenção recente.
Benguela não está apenas a sofrer com a força da natureza. Está a sofrer também com anos de desorganização, de crescimento urbano desordenado, de falta de planeamento territorial e de desinvestimento estrutural em prevenção.
Porque quando um dique rebenta, uma ponte colapsa e uma linha férrea desaparece debaixo de água, não estamos apenas perante um fenómeno natural, estamos perante a exposição brutal das fragilidades humanas e institucionais.
A verdade é dura: em Angola, muitas tragédias naturais tornam-se catástrofes humanas porque encontram terreno fértil na negligência acumulada.
E o mais perigoso nesta fase é pensar que o pior já passou. Não passou. O pico emocional da tragédia são as cheias. O pico letal pode vir depois.
Pode vir nos surtos silenciosos que começam em bairros de reassentamento improvisado. Pode vir nas enfermarias sobrelotadas. Pode vir nas crianças desidratadas por infecções evitáveis.
Pode vir nas semanas seguintes, quando a tragédia deixar de ser manchete, mas continuar a matar em silêncio.
Benguela precisa de ajuda urgente, sim. Mas precisa sobretudo de visão governativa. Porque distribuir mantimentos e colchões é resposta emergencial, mas prevenir epidemias, reconstruir infra-estruturas e planear cidades é resposta de Estado.
Se nada for feito com profundidade e rapidez, as águas que hoje inundam Benguela poderão ser recordadas amanhã não apenas pelos estragos materiais, mas como o princípio de uma nova crise sanitária.
E então perceberemos, tarde demais, que a chuva não foi o único problema. Foi apenas o início dele.
Continuemos atentos. Porque um país que apenas reage à tragédia, mas nunca previne a próxima, está condenado a viver permanentemente debaixo de emergência.