Benguela: Famílias desalojadas clamam por tendas enquanto sobe para oito o número de mortos
Benguela: Famílias desalojadas clamam por tendas enquanto sobe para oito o número de mortos
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Milhares de famílias desalojadas na sequência das devastadoras inundações provocadas pelo transbordo do rio Cavaco continuam a clamar por abrigo no parque de Campismo, em Benguela, onde foram reassentadas provisoriamente, numa altura em que o número de vítimas mortais subiu para oito e as autoridades contabilizam já cerca de nove mil famílias afectadas.

No local, centenas de famílias permanecem ainda ao relento devido à insuficiência de tendas para albergar o crescente número de sinistrados retirados dos bairros inundados, entre os quais Seta Antiga, Ilha, Calomanga, Condule, Cotel, Compão, Massangarala, Quioxe e Tchipiandalo.

O agravamento do quadro humanitário foi confirmado esta segunda-feira durante a segunda reunião de balanço técnico sobre o estado de calamidade, presidida pelo governador provincial de Benguela, Manuel Nunes Júnior, onde foi anunciado o aumento do número de mortos de cinco para oito nas últimas 24 horas.

Segundo o Governo Provincial, apesar do agravamento do balanço humano, os relatórios técnicos apontam para uma tendência gradual de normalização em vários bairros afectados, beneficiando da diminuição da intensidade das chuvas e dos trabalhos de drenagem em curso.

Desorganização na distribuição de tendas

Entre os desalojados cresce o desespero e a revolta face à escassez de tendas e alegadas irregularidades na distribuição da ajuda humanitária.

Martinho Pacheco, morador da Seta Antiga, relatou ter perdido todos os seus bens depois do desabamento parcial da sua residência e denunciou que indivíduos alheios às zonas afectadas estão a aproveitar-se da desorganização para receber tendas destinadas aos verdadeiros sinistrados.

“Há pessoas que nem foram afectadas e estão aqui a receber tendas. Enquanto isso, quem perdeu tudo continua ao relento”, lamentou.

Também Daniel Cacolo, idoso proveniente do bairro da Ilha, disse estar doente e ainda sem abrigo, apesar de já ter sido registado duas vezes pelas equipas no terreno.

“Os outros que têm tendas estão tranquilos e eu continuo a andar às voltas. O calor está intenso e não tenho onde ficar”, afirmou.

Andreia Massinga, moradora do bairro Condule, descreveu como “lastimável” a situação vivida no centro de acolhimento.

“Neste momento estamos aqui ao relento. Há muitas crianças, idosos e mulheres grávidas sem qualquer protecção. Se voltar a chover durante a noite será uma tragédia”, alertou.

Autoridades admitem oportunismo

A directora provincial da Acção Social, Família e Igualdade do Género, Carla Filipe, confirmou a existência de situações de oportunismo na distribuição dos meios de apoio.

Segundo a responsável, algumas pessoas foram flagradas com tendas e fugiram quando abordadas pelas equipas de fiscalização.

“É sinal de que vieram aqui por uma questão de oportunismo”, afirmou, garantindo que está em curso um processo de cadastramento rigoroso e que apenas cidadãos devidamente registados terão direito ao material de assistência.

Carla Filipe assegurou ainda que mais tendas estão a caminho e que o Executivo pretende garantir abrigo a todos os afectados.

Até ao momento, das primeiras 900 famílias acolhidas, 560 já receberam tendas, número considerado insuficiente face à crescente chegada de novos desalojados.

Protecção Civil reforça apelo ao abandono de casas em risco

Entretanto, o Serviço de Protecção Civil e Bombeiros voltou a apelar ao abandono imediato de habitações localizadas em zonas ribeirinhas ou estruturalmente fragilizadas.

O comandante-adjunto provincial, superintendente bombeiro Nilson César, advertiu que várias casas permanecem em risco iminente de colapso, sobretudo nos bairros situados junto às margens do rio Cavaco.

“Apelamos às pessoas que ainda permanecem em áreas severamente afectadas para abandonarem temporariamente as suas residências. A prioridade é salvar vidas humanas”, reforçou.

De acordo com o oficial, mais de 1.600 pessoas já foram resgatadas pelas equipas conjuntas de socorro, que continuam no terreno em operações de busca e salvamento.

Governo mantém acompanhamento permanente da crise

Durante a reunião técnica desta segunda-feira, o governador Manuel Nunes Júnior reuniu-se com vice-governadores, forças de defesa e segurança, representantes do Ministério das Obras Públicas e equipas técnicas de várias empresas mobilizadas para responder à emergência, entre elas OMATAPALO, CONDURIL, CCJ e CASAIS.

No encontro foi igualmente anunciada a conclusão das obras de reforço no rio Hôndio, no município do Caimbambo, cuja infraestrutura deverá entrar em funcionamento esta terça-feira e ajudar a melhorar a drenagem e reduzir riscos de novas cheias naquela circunscrição.

O Governo Provincial reiterou o apelo à calma e à colaboração da população com as autoridades, sublinhando que mantém acompanhamento permanente da situação.

com/Angop

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