
Num momento em que Benguela chora os seus mortos, procura os seus desaparecidos e tenta sobreviver aos destroços deixados pelas inundações no último domingo, devido as chuvas de sábado último, a imagem que hoje marcou a visita do Presidente João Lourenço à província foi a de risos, abraços e tapete vermelho.
Uma recepção de gala. Uma encenação de festa. Um espectáculo político num cenário de tragédia. Perdeu-se definitivamente o humanismo. Perdeu-se a verdadeira alma angolana. Perdeu-se o juízo e dignidade humana.
Pois, é estranho que, enquanto famílias inteiras enterram os seus entes queridos, enquanto mães e pais procuram desesperadamente pelos desaparecidos, enquanto milhares de cidadãos olham para os restos das suas casas destruídas e dos poucos bens que possuíam arrastados pela água, a máquina do Estado decidiu receber o Chefe de Estado como se estivesse a chegar para inaugurar uma obra, celebrar uma vitória ou participar numa cerimónia festiva.
Mas que há para celebrar em Benguela?
As cheias já provocaram pelo menos, segundo dados oficiais, 19 mortos e 11 desaparecidos, além de milhares de famílias afectadas e centenas de casas destruídas.
Para muitos cidadãos, tudo o que possuíam desapareceu em poucas horas: roupa, móveis, documentos, memórias, sonhos e dignidade. Há relatos de cerca de 12 mil famílias desalojadas.
E perante essa realidade, o país assistiu a uma demonstração revoltante de desconexão entre quem governa e quem sofre.
Numa democracia séria, um líder que visita uma zona devastada pela dor não deve ser recebido com tapetes vermelhos, sorrisos protocolares e aplausos coreografados. Deve encontrar silêncio, respeito e trabalho.
Deve ver botas no chão, mangas arregaçadas, equipas de emergência mobilizadas e governantes focados em soluções e não em fotografia e cerimónia.
As imagens transmitidas hoje foram mais do que inadequada: foi ofensiva. Ofensiva para as mães que perderam filhos. Ofensiva para os pais que dormem ao relento. Ofensiva para os cidadãos que tudo perderam. E mais. Ofensiva para um povo que continua a sofrer enquanto a elite política vive numa realidade paralela.
O mais perturbador não é apenas a recepção calorosa, mas aquilo que ela simboliza: um poder político mais preocupado com aparência do que com empatia, mais interessado em protocolo do que em humanidade.
Quando um governante é recebido com festa em meio ao luto, transmite-se a mensagem de que a dor do povo pode esperar desde que o espectáculo do poder seja mantido.
Neste momento, Benguela não precisa de tapete vermelho. O que se precisa é de ambulâncias, alimentos, abrigo, apoio psicológico, esperança e respostas. Precisa-se de solidariedade verdadeira, não de teatro institucional como fez, vergonhosamente, hoje o João Lourenço e os seus auxiliares.
A tragédia de Benguela expôs não apenas a vulnerabilidade das infra-estruturas e a falta de prevenção, mas também a assustadora frieza de uma classe dirigente cada vez mais distante do sofrimento real da população.
Hoje, sobre a lama deixada pelas águas, estendeu-se um tapete vermelho. E essa imagem ficará gravada como símbolo de um país onde muitos governam de costas para a dor do povo.