
A noite que cobre Angola tornou‑se mais do que ausência de luz: tornou‑se uma metáfora. Uma metáfora de um país que parece caminhar às cegas, guiado por instituições que perderam a capacidade de iluminar o caminho.
A insegurança deixou de ser apenas um fenómeno social; tornou‑se uma presença quase ontológica, uma sombra que se entranha no quotidiano e na alma coletiva.
O Estado, ao concentrar o poder no topo, criou um paradoxo: quanto mais tenta controlar, mais revela a sua fragilidade. Foucault advertia que “o poder que se fecha sobre si mesmo cria o espaço onde o descontrolo floresce”.
E é nesse espaço que a criminalidade se expande, alimentada por uma justiça que muitos percebem como lenta, permeável ou até indiferente. A justiça que falha não é apenas um erro técnico — é uma ferida moral.
A sociedade divide‑se entre os que acreditam na reforma profunda das instituições e os que defendem respostas mais duras, mais exemplares, como a prisão perpetua e pena de morte.
Ambas as correntes nascem do mesmo lugar: o medo. Mas seguem caminhos radicalmente diferentes. Uma procura reconstruir; a outra procura conter.
É neste cenário que eu, Lando Miguel, me encontro. Não como mero observador, mas como alguém que sente o peso desta realidade a cada dia. Não falo para agradar, nem para suavizar. Falo porque a verdade, por mais dura que seja, precisa de ser dita.
A prisão perpétua e a pena de morte surgem como as últimas fronteiras capazes de moldar comportamentos e travar impulsos que escapam ao alcance da razão.
Essas medidas não são apenas instrumentos jurídicos, mas mecanismos de choque moral, concebidos para deter aquilo que a educação, a ética e a própria consciência já não conseguem conter.
Vejo Angola como um corpo ferido, onde a insegurança não é apenas um problema social, mas um sintoma espiritual — um sinal de que perdemos o sentido de responsabilidade colectiva.
A criminalidade, para mim, é um espelho. Um espelho onde se reflecte a erosão da autoridade moral do Estado. Quando o Estado falha em proteger, a sociedade desliza para um estado de natureza hobbesiano, onde a vida se torna “solitária, pobre, sórdida, brutal e curta”. E eu vejo esse deslizamento todos os dias.
Eu acredito numa verdade que muitos evitam encarar: o medo da morte é universal. Ninguém deseja enfrentar o abismo final. Ninguém deseja sentir o sopro gelado do desconhecido. É esse pavor primordial que molda comportamentos, que trava impulsos, que impõe limites onde a razão já não chega.
Quando digo que o Estado, ao ordenar, não implora, não o faço por crueldade. Faço‑o porque vejo um país a sangrar. Vejo crimes que dilaceram a nação, que corroem a confiança, que transformam o quotidiano num campo de incerteza.
E acredito — profundamente — que certas feridas exigem respostas proporcionais à sua gravidade. Não falo por ódio. Falo porque sinto que chegámos a um ponto onde a razão, sozinha, já não contém o caos.
Sei o peso das minhas palavras. Sei que Camus advertia que “a punição extrema revela mais sobre o Estado que a aplica do que sobre o criminoso que a sofre”.
Sei que Arendt lembrava que “a violência nunca cria poder, apenas o destrói”. E, ainda assim, não consigo ignorar o que vejo: um país onde a insegurança se tornou rotina, onde a justiça perdeu autoridade, onde a esperança se esvai como água entre os dedos.
O meu pensamento nasce deste conflito: entre o que a filosofia ensina e o que a realidade impõe. Entre o ideal e o possível. Entre o que desejamos e o que enfrentamos.
Não apresento soluções imediatas nem proponho respostas milagrosas. O meu contributo consiste em evidenciar o dilema moral que atravessa a sociedade angolana.
A minha função, enquanto investigador, é tornar explícito aquilo que permanece implícito no discurso público: verbalizo, de forma sistematizada, aquilo que muitos cidadãos expressam apenas em silêncio
E a pergunta que deixo — sombria, inevitável — é esta: até onde pode ir uma sociedade para recuperar a ordem sem perder a sua própria humanidade?
É essa pergunta que me acompanha.
É essa pergunta que acompanha Angola.
É essa pergunta que permanece, mesmo quando tudo o resto se cala.
*Investigador em Segurança e Defesa