Fraldas e toalhitas húmidas da Suave levantam dúvidas sobre uso de conservantes MI e MCI/MI associados a alergias
Fraldas e toalhitas húmidas da Suave levantam dúvidas sobre uso de conservantes MI e MCI/MI associados a alergias
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A presença de methylisothiazolinone (MI/MIT) e methylchloroisothiazolinone (MCI/CMIT) nas toalhitas húmidas e fraldas descartáveis da marca Suave e Mimo, fabricados pela empresa SICIE, Lda., está a levantar preocupações sobre os possíveis efeitos na pele de crianças que utilizam as fraldas.

As dúvidas reacendem um problema que já havia sido levantado há sete anos pela Associação Angolana dos Direitos do Consumidor (AADIC).

O Imparcial Press adquiriu produtos e constatou depois de receber alertas de especialistas e identificou, nas respectivas informações de composição, os dois conservantes antimicrobianos, conhecidos por poderem provocar sensibilização cutânea e dermatite alérgica de contacto.

As duas substâncias são conservantes utilizados para impedir a proliferação de microrganismos, mas estão também associadas a reacções alérgicas da pele.

Em crianças, podem provocar vermelhidão, comichão, irritação, descamação e dermatite de contacto, sobretudo quando existe contacto prolongado com a pele.

As isothiazolinonas são utilizadas como conservantes para impedir o crescimento de bactérias e fungos. A literatura médica, contudo, identifica a MI e a MCI/MI como alergénios capazes de desencadear reacções cutâneas, sobretudo em pessoas previamente sensibilizadas.

Um estudo publicado na revista Pediatrics documentou seis casos de crianças com dermatite alérgica associada à utilização de toalhitas contendo methylisothiazolinone. As crianças apresentavam lesões persistentes, sobretudo na região perianal e nas nádegas, tendo os sintomas desaparecido depois da suspensão dos produtos.

Outro estudo dedicado à população pediátrica considera as isothiazolinonas alergénios que não devem ser ignorados em crianças, devido à sua capacidade de provocar dermatite de contacto.

As actuais dúvidas surgem, porém, num contexto que não é novo. Em Abril de 2019, a AADIC aconselhou os consumidores angolanos a não comprarem nem utilizarem fraldas das marcas Suave, Sunny Baby, Pufies e Nunex, que considerava produtos contrafeitos e sem a segurança necessária.

Na altura, a associação afirmou ter realizado uma investigação após receber várias denúncias e disse ter constatado problemas relacionados com a origem, acondicionamento e rotulagem das fraldas.

Segundo a AADIC, alguns dos produtos eram adquiridos a granel no estrangeiro e posteriormente embalados em Angola, alegadamente em condições inadequadas de higiene. A associação denunciou ainda a ausência, em alguns casos, de informações em língua portuguesa, datas de produção e prazos de validade.

No caso da Suave, a AADIC acusou fornecedores de comercializarem produtos que considerava contrafeitos no mercado informal. A associação chegou a recomendar expressamente que os consumidores se abstivessem de comprar as fraldas denunciadas.

Curiosamente, seis anos depois, a empresa voltou a ser associada a preocupações relacionadas com a segurança dos seus produtos.

Em Dezembro de 2025, efectivos da Direcção de Investigação de Ilícitos Penais (DIIP) de Icolo e Bengo realizaram uma operação nas instalações da empresa, onde, segundo informações divulgadas na altura, foram encontradas mais de 219 toneladas de matéria-prima fora de validade destinada à produção de sabão.

Durante a operação terá sido igualmente encontrada uma quantidade não especificada de insumos expirados destinados ao fabrico de fraldas descartáveis.

Segundo o porta-voz da Polícia em Icolo e Bengo, intendente Euler Matari, a intervenção começou depois de a segurança da empresa ter comunicado às autoridades o alegado furto de granulados por um funcionário.

Durante a verificação, os agentes terão constatado que parte do material armazenado estava fora do prazo de validade, levando à inspecção do restante stock.

A descoberta levantou uma nova questão: terão matérias-primas fora de validade chegado a ser utilizadas na produção de fraldas colocadas no mercado?

Restrições na Europa

A preocupação com a methylisothiazolinone levou a União Europeia a restringir fortemente a sua utilização em produtos cosméticos.

Em 2016, a Comissão Europeia determinou a proibição da MI em produtos cosméticos destinados a permanecer sobre a pele, incluindo toalhitas húmidas, depois de o Comité Científico para a Segurança dos Consumidores concluir que não havia sido demonstrada uma concentração segura para evitar a sensibilização por contacto.

Para produtos cosméticos que são enxaguados, a legislação europeia estabeleceu posteriormente uma concentração máxima de 15 partes por milhão (ppm) para a methylisothiazolinone.

As regras europeias aplicam-se a cosméticos e não significam automaticamente que uma fralda contendo estas substâncias seja ilegal. A classificação e regulamentação das fraldas dependem do produto, da sua composição e da legislação aplicável em cada país.

Especialistas alertam, contudo, para a necessidade de não confundir os riscos associados às toalhitas com os das fraldas.

Grande parte dos casos clínicos publicados envolve toalhitas húmidas e outros produtos que permanecem directamente sobre a pele. A existência de MI ou MCI/MI numa fralda não permite, por si só, determinar a quantidade que chega à pele ou concluir que o produto provocará uma reacção.

No caso das fraldas, a preocupação é particularmente relevante porque a zona de contacto permanece quente e húmida durante várias horas, condições que podem agravar uma irritação ou uma dermatite já existente.

Por isso, a simples identificação dos conservantes na composição deve ser acompanhada por uma análise laboratorial independente, capaz de determinar a concentração das substâncias e avaliar a exposição efectiva.

A SICIE, Lda., enquanto fabricante das marcas em causa, deverá esclarecer a composição dos produtos, os mecanismos de controlo de qualidade e a eventual utilização de matérias-primas fora do prazo de validade.

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