Quando a palavra deixa de procurar a verdade – Manuel Homem
Quando a palavra deixa de procurar a verdade - Manuel Homem
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Há crises que começam fora de nós e outras, talvez mais profundas, que começam dentro do ser humano e, silenciosamente, contaminam a forma como convivemos. A calúnia, a difamação, a inveja e a ambição sem limites pertencem a esse território.

O ser humano compara-se, procura reconhecimento, pertença e importância. Isso faz parte da nossa natureza social. O problema começa quando deixamos de olhar para o outro como semelhante e passamos a vê-lo como medida das nossas próprias insuficiências.

É nesse momento que a admiração pode transformar-se em inveja. E a inveja raramente confessa o seu verdadeiro nome. Muitas vezes, disfarça-se de indignação, julgamento ou de um simples comentário.

A ambição também não é um defeito. Ela pode fazer-nos crescer, criar e superar os nossos limites. Torna-se perigosa quando deixamos de perguntar: “O que posso fazer para crescer?” e começamos a pensar: “Quem preciso de diminuir para ocupar o seu lugar?”

Talvez por isso seja tão importante compreender uma das grandes assimetrias da condição humana: construímos lentamente e destruímos rapidamente.

Uma reputação pode levar anos a construir, e uma mentira, poucos minutos a percorrer o mundo.

Mas a calúnia não fere apenas aquele contra quem é dirigida. A palavra entra nas famílias, atravessa amizades, instala dúvidas e altera relações. E, quando a mentira se banaliza, uma sociedade começa a perder algo essencial à convivência humana: a confiança.

Por isso, existe uma forma silenciosa de grandeza que consiste em recusar participar na destruição de alguém.

Nem tudo o que ouvimos merece ser acreditado. Nem tudo o que sabemos precisa de ser dito. E nem tudo o que nos contam merece ser partilhado.

Às vezes, o carácter é simplesmente isso: receber uma história sobre outra pessoa e decidir que ela termina connosco.

Precisamos reaprender a discordar sem odiar, competir sem destruir, ambicionar sem atropelar e vencer sem precisar de humilhar.

Porque o verdadeiro crescimento não acontece quando conseguimos ficar acima dos outros. Acontece quando já não precisamos de diminuir ninguém para reconhecer o nosso próprio valor.

No final, nenhuma conquista merece o preço da nossa humanidade.

Do outro lado de cada palavra existe sempre uma pessoa. E preservar a dignidade do outro é também uma forma de preservar a nossa.

Estamos juntos e mais próximos!

*Ministro do Interior

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