
Se há coisa que o angolano sabe fazer bem, é sobreviver. E se há instituição que testou a nossa resiliência, a nossa fé e a nossa capacidade de acampar em aeroportos, essa instituição chama-se TAAG – Linhas Aéreas de Angola.
Durante décadas, o slogan não oficial da companhia estava gravado no coração de cada passageiro: “Pague agora e viaje quando der”. Era um pacto de sangue. Tu compravas o bilhete em janeiro para viajar em agosto, mas algures em junho já estavas a fazer promessas à Mami Wata só para o voo não ser cancelado “por motivos operacionais”.
Ir para Lisboa ou para Cabinda tinha o mesmo nível de suspense que um filme do James Bond. Ninguém sabia se o avião saía, se ficava, ou se o lanche seria apenas uma sandes de queijo com a consistência de um pneu suplente.
Mas o mundo dá voltas. E pelos vistos, a TAAG deu uma volta tão grande que entrou em órbita.
A notícia caiu como uma bomba no WhatsApp de Cabinda ao Cunene: a TAAG ganhou o prémio de Melhor Companhia Aérea de Passageiros.
Repito, para o caso de estarem a achar que apanharam malária cerebral: a nossa TAAG. Aquela do “antigamente”.
Imagino a comissão de juízes internacionais a avaliar os critérios. No item “Gestão de Expectativas do Cliente”, a TAAG deve ter rebentado a escala. Afinal, que outra companhia no mundo te ensina a virtude da paciência cristã? Onde é que geras tanta adrenalina como ao ver o painel de embarque do Aeroporto 4 de Fevereiro?
Aquilo não é um voo, é uma experiência espiritual. Tu não viajas, tu és “concedido” o milagre de levantar voo.
Dizem as más línguas (porque o angolano não pode ver um sucesso sem teorizar) que o júri internacional ficou fascinado com o sistema de Overbooking Quântico da companhia: o bilhete existe e não existe ao mesmo tempo, até ao momento em que chegas ao balcão e a senhora te olha com aquele olhar de “hoje não vai dar, meu mano”. Isso é alta ciência!
E o serviço de bordo? Aquele atendimento com “cara de poucos amigos” que as nossas hospedeiras exibiam nos anos 90 não era antipatia. Era coaching de resiliência! Elas preparavam-nos para a dureza da vida na Europa ou na Diáspora.
Se conseguias pedir um copo de água a uma hospedeira da TAAG antiga e sobreviver ao olhar dela, estavas pronto para enfrentar qualquer embaixada no mundo.
Com este prémio, as coisas mudaram. Agora o Palanca Negra voa alto. O “pague agora e viaje quando der” foi formalmente substituído por “pague agora e curve-se perante a melhor da África”.
Parabéns à TAAG! Mas, por favor, não melhorem demasiado.
Se os voos começarem a sair todos cinco minutos antes da hora, o angolano entra em choque térmico e vai achar que está na Suíça. Queremos o prémio, mas também queremos aquela emoção de correr na pista a segurar a fuba e as gasosas.
*Jornalista