
Acabo de ler um artigo sobre a intenção da Sonangol de reforçar a sua presença no sector mineiro, particularmente nos chamados minerais críticos.
A notícia é relevante e merece ser recebida com interesse, sobretudo porque Angola possui recursos minerais cujo potencial económico poderá assumir crescente importância na transição energética mundial.
Mas precisamente por ter feito parte do capital humano da Sonangol reconhecer a importância estratégica da Sonangol para a economia nacional, penso que esta questão merece uma reflexão mais profunda, prudente e desprovida de qualquer espírito de oposição.
A questão não deveria ser se Angola deve investir na mineração. Angola deve, claramente, desenvolver a sua mineração. A questão é saber quem deve fazê-lo, com que capital, sob que modelo institucional e qual deve ser o papel da Sonangol nesse processo.
Diversificar Angola não significa diversificar excessivamente a Sonangol
A Sonangol é uma das empresas estratégicas mais importantes do Estado angolano. O seu objecto social principal está historicamente e juridicamente associado à prospecção, pesquisa, desenvolvimento, produção, transporte, comercialização, refinação e transformação de hidrocarbonetos líquidos e gasosos e seus derivados, incluindo a petroquímica.
É verdade que o enquadramento da empresa permite actividades complementares e outras actividades industriais ou comerciais, mediante decisão dos seus órgãos competentes. Portanto, juridicamente, a questão não deve ser apresentada de forma simplista como se a Sonangol estivesse absolutamente impedida de participar na mineração.
A questão é outra e talvez mais importante: Será estrategicamente conveniente que a Sonangol transforme a diversificação do país numa diversificação do seu próprio balanço?
Esta distinção é fundamental.
Angola precisa de diversificar a sua economia. Mas isso não significa necessariamente que a Sonangol tenha de ser simultaneamente petrolífera, mineira, industrial, logística, energética e investidora em múltiplas cadeias de valor.
Uma empresa pode contribuir para a diversificação nacional sem assumir directamente todos os riscos associados a essa diversificação.
O papel que a Sonangol poderia desempenhar
Existe uma alternativa que me parece particularmente interessante: a Sonangol pode ser muito mais importante para a mineração angolana como catalisadora de capital do que como operadora mineira.
Em vez de concentrar recursos financeiros, humanos e de gestão na exploração directa de minerais, a Sonangol poderia utilizar a sua capacidade institucional, financeira, técnica e internacional para:
Desta forma, a Sonangol não deixaria de participar na estratégia nacional de diversificação. Pelo contrário, poderia tornar-se uma das principais plataformas de promoção de investimento na mineração, sem necessariamente assumir a posição de principal operador mineiro.
Capital público deve ser utilizado onde produz maior valor estratégico
Esta questão torna-se ainda mais relevante quando falamos de uma empresa pública. Todo capital tem um custo de oportunidade. Cada dólar investido num novo sector representa, necessariamente, um dólar que não poderá ser utilizado simultaneamente para aumentar a produção petrolífera, desenvolver gás natural, expandir a refinação, melhorar a logística, fortalecer infra-estruturas ou financiar projectos directamente relacionados com a cadeia energética.
O Relatório e Contas de 2025 mostra que a Sonangol executou cerca de USD 3,438 mil milhões de CAPEX, concentrados essencialmente na exploração e produção, refinação, logística e gás natural. Isto demonstra que a empresa já possui uma agenda de investimentos de enorme dimensão.
Por isso, a pergunta prudente não deveria ser: a Sonangol pode investir na mineração? Mas sim: Onde é que cada dólar investido pela Sonangol cria maior valor para a empresa, para o Estado e para a economia angolana?
Essa é uma pergunta de gestão estratégica, e não ideológica.
A mineração precisa de empresários, capital e especialização
Angola possui empresários, geólogos, engenheiros, investidores e empresas que precisam de oportunidades para crescer. Se a Sonangol entrar directamente em demasiadas áreas da mineração, existe o risco de, involuntariamente, ocupar espaço que poderia ser desenvolvido pelo sector empresarial privado nacional.
Uma política económica madura deveria procurar justamente o contrário: utilizar as grandes empresas estratégicas do Estado para abrir espaço, mobilizar capital e criar condições para que centenas de empresas nacionais possam crescer.
Imagine-se, por exemplo, uma estrutura em que a Sonangol identifique um projecto mineiro com potencial, ajude a estruturá-lo, atraia um parceiro tecnológico internacional, facilite o financiamento e permita que empresários angolanos participem no capital.
Nesse modelo, um projecto poderia gerar não apenas minério. Poderia gerar: empresas angolanas + empregos + conhecimento + impostos + tecnologia + financiamento + cadeia de fornecedores + capacidade exportadora.
Esse talvez seja um dos maiores multiplicadores económicos que uma empresa estratégica do Estado pode produzir.
A Sonangol pode ser investidora sem ser necessariamente operadora
Também é importante reconhecer uma nuance. Defender que a Sonangol deve evitar transformar-se numa grande operadora mineira não significa defender que deva ficar completamente afastada do sector.
Existem modelos intermédios. A Sonangol poderia, por exemplo, assumir uma participação minoritária em determinados projectos considerados de interesse estratégico, enquanto a operação ficaria nas mãos de empresas especializadas.
Aliás, a própria orientação recentemente comunicada pela administração da Sonangol aponta para a possibilidade de trabalhar com entidades especializadas na exploração dos minerais.
A diferença está na filosofia. Uma coisa é ter presença estratégica; outra é construir uma segunda Sonangol dentro da mineração.
A primeira pode ser uma ferramenta de diversificação, e a segunda pode criar dispersão de capital, competências e atenção administrativa.
O verdadeiro activo da Sonangol é a sua capacidade de mobilização
A Sonangol possui algo que muitas empresas mineiras emergentes não possuem: escala, reputação institucional, experiência internacional, capacidade de negociação e acesso a grandes parceiros.
Esse poder pode ser utilizado para abrir portas. E abrir portas pode ser economicamente mais importante do que ocupar todas as salas.
A Sonangol poderia assumir uma posição de “âncora de investimento”, aproximando capital internacional, tecnologia e empresas angolanas.
Poderia ser uma espécie de ponte entre: capital internacional → Estado → empresários angolanos → tecnologia → recursos minerais → mercados internacionais.
Neste modelo, a Sonangol continuaria a desempenhar um papel estratégico sem necessariamente carregar sozinha o risco operacional, geológico, financeiro e comercial inerente à mineração.
Angola precisa de várias grandes empresas, não de uma única empresa em todos os sectores
Talvez este seja o ponto mais importante desta reflexão. O objectivo da diversificação económica deveria ser criar múltiplos campeões nacionais, e não concentrar todos os sectores estratégicos em poucas empresas públicas.
Precisamos de grandes empresas petrolíferas, mineiras, industriais, tecnológicas e logística. Precisamos de empresas angolanas capazes de competir regional e internacionalmente.
A Sonangol não precisa necessariamente de ser todas elas. Pode ajudar a criá-las. E talvez essa seja uma das formas mais inteligentes de exercer o seu papel histórico na economia nacional.
Uma Sonangol forte precisa de foco
Quanto maior é uma empresa, maior deve ser a disciplina estratégica. Diversificação sem disciplina pode transformar-se em dispersão. Dispersão pode transformar-se em perda de foco. E perda de foco, numa empresa de importância sistémica para o Estado, pode ter consequências que ultrapassam a própria empresa.
Por isso, defender o foco da Sonangol não significa defender uma empresa fechada ao futuro. Significa exactamente o contrário. Significa querer uma Sonangol suficientemente forte, eficiente e concentrada no seu núcleo de excelência para poder continuar a financiar, promover e catalisar a transformação económica de Angola.
Uma proposta para reflexão
Talvez Angola pudesse adoptar uma arquitectura em três níveis:
Primeiro: a Sonangol concentra-se prioritariamente no seu núcleo energético — petróleo, gás, refinação, petroquímica, logística e áreas directamente relacionadas.
Segundo: a Sonangol actua como catalisadora e promotora de investimentos em sectores estratégicos emergentes, incluindo minerais críticos.
Terceiro: empresários angolanos, empresas especializadas e investidores internacionais assumem progressivamente a execução e operação dos projectos mineiros, com a Sonangol podendo participar selectivamente quando houver uma justificação estratégica clara.
Este modelo permitiria ao Estado manter influência estratégica sem necessariamente assumir todo o risco empresarial.
Conclusão
A discussão sobre a entrada da Sonangol na mineração não deveria ser conduzida como uma disputa entre “diversificação” e “não diversificação”.
A verdadeira discussão é muito mais sofisticada. Angola deve diversificar. A questão é saber como diversificar melhor.
A Sonangol pode ter um papel extraordinariamente importante na mineração sem necessariamente se transformar numa empresa mineira. Pode mobilizar capital, estruturar projectos, atrair tecnologia, criar parcerias, abrir mercados e aproximar investidores.
Pode ajudar empresários angolanos a transformar recursos minerais em empresas competitivas.
E pode fazer tudo isso preservando aquilo que talvez seja o seu maior património estratégico: a concentração de competências e capital no sector energético em que construiu a sua experiência e importância nacional.
No final, talvez a pergunta mais inteligente não seja: Por que razão a Sonangol não deve investir na mineração? Mas, como pode a Sonangol fazer com que Angola invista muito mais na mineração sem ter necessariamente de assumir sozinha esse investimento?
Essa mudança de perspectiva transforma a Sonangol de simples participante num verdadeiro arquitecto da diversificação económica nacional.
E talvez seja precisamente aí que esteja a oportunidade: não fazer com que a Sonangol seja dona de todas as oportunidades de Angola, mas fazer com que seja uma das instituições que mais oportunidades cria para os angolanos.
*Economista e antigo quadro da Sonangol