O Banco Atlântico e o “traseiro” do meu Suzuki – Raimundo Salvador
O Banco Atlântico e o "traseiro" do meu Suzuki - Raimundo Salvador
BMA

O meu velho Suzuki anda com o “traseiro” maltratado, há três semanas levou uma valente paulada de um taxista e ficou a pedir pintura. O popó continua a andar, firme na sua condição de automóvel jurássico, mas a aparência, convenhamos, já recomenda alguma intervenção.

Foi também por causa dele que decidi pedir um pequeno empréstimo, nada de extraordinário: dois ou três salários adiantados para tratar da pintura do Suzuki e resolver mais duas despesas “miúdas”.

Trata-se de algo, imaginei eu, que seria relativamente simples para quem recebe o salário regularmente no mesmo banco há mais de dez anos.

Com esta ingénua convicção, entrei na Agência da Comandante Gika do Banco Atlântico, munido de uma declaração da minha entidade empregadora, onde constavam a remuneração líquida e o compromisso de manutenção dos pagamentos até à liquidação do empréstimo. Tirei a ficha, sentei-me e, 70 minutos depois, chegou finalmente a minha vez.

“Boa tarde, senhor”, saudou-me o jovem bancário. Retribuí e expliquei ao que vinha. Leu atentamente a declaração e, quando pensei que passaríamos à fase seguinte, informou-me: “precisamos também dos três últimos recibos de salário”.

“Recibos dos três últimos salários?”, estranhei, e fundamentei: “sou vosso cliente há mais de dez anos. Os meus últimos três salários entraram aqui. Vocês têm essa informação”. O jovem, sempre polido, respondeu: “são as regras do banco. Sem os recibos nada posso fazer”.

E assim terminou a primeira tentativa de melhorar o “traseiro” do Suzuki. Dois dias depois, regressei com tudo. Outra funcionária analisou os papéis e descobriu novo problema: a minha conta estava desactualizada. Perguntou se ainda trabalhava numa instituição extinta há mais de dez anos.

“Conta desactualizada, como assim?” Questionei-me em silêncio. Depois de uns dez segundos, respirei fundo e expliquei à jovem que o meu salário actual entrava regularmente naquela conta.

Ainda no ano passado tratara no banco dos meus cartões Multicaixa e Visa. Como poderia o banco relacionar-se comigo durante tantos anos e manter no cadastro uma entidade empregadora desaparecida há uma década?

“É o que temos. A sua conta, senhor Salvador, está desactualizada”, respondeu, secamente, a funcionária do Banco Atlântico. A conta foi actualizada, mas surgiu outra regra: teria de esperar três dias para poder solicitar o empréstimo. Foi aí que desisti.

Saí do banco a pensar que talvez o problema não estivesse nos meus recibos, na conta desactualizada ou nos três dias. O episódio diz alguma coisa sobre a relação entre a banca angolana, as famílias e as empresas. Conceder crédito continua a ser uma actividade demasiado lateral no nosso sistema bancário.

Emprestar dinheiro, obviamente, implica risco e exige prudência, um banco não é uma instituição de caridade. Mas entre avaliar o risco e transformar um pequeno empréstimo num percurso de obstáculos burocráticos existe uma distância considerável.

E se, em vez do meu Suzuki, estivéssemos a falar de uma pequena empresa que precisa de dinheiro para comprar uma máquina, adquirir matéria-prima, aumentar a produção ou suportar a tesouraria? Quantos empresários chegam ao balcão, enfrentam as exigências e acabam também por dizer: deixa estar?

Durante muitos anos, os bancos angolanos encontraram negócios particularmente atractivos nas operações cambiais, nas comissões e nos títulos públicos.

São negócios legítimos, a questão é saber se essa relativa facilidade não contribuiu para colocar em segundo plano uma função essencial da banca: transformar depósitos e poupanças em crédito para famílias e empresas.

Não defendo crédito fácil ou irresponsável, defendo bancos capazes de avaliar melhor o risco, para que emprestar dinheiro à economia real deixe de parecer uma actividade periférica. O crédito deveria ocupar um lugar central na relação entre a banca, as famílias e as empresas.

O meu caso, obviamente, é insignificante, desisti do empréstimo e a vida continua. O Suzuki continuará com o “traseiro” pouco recomendável para exibição pública, não será desta que o popó recuperará a dignidade estética.

*Jornalista

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