
O Estado russo está a ampliar o controlo sobre empresas e fortunas de grandes empresários, numa tendência que ganhou força desde o início da invasão da Ucrânia e que, em 2026, passou a atingir alguns dos nomes mais conhecidos do sector privado russo.
Os casos de Vadim Moshkovich, Konstantin Strukov e Ilya Traber ilustram, embora de formas diferentes, a crescente vulnerabilidade dos grandes empresários perante o Estado e a justiça russa.
A situação ocorre num momento de maior pressão sobre as finanças públicas. O Governo russo reviu para 3,2% do PIB a previsão do défice federal de 2026, equivalente a cerca de 7,3 biliões de rublos (87 mil milhões de dólares). Ao mesmo tempo, as despesas militares e de segurança deverão representar cerca de 38% da despesa pública.
Moshkovich perde o controlo da Rusagro
O caso mais expressivo é o de Vadim Moshkovich, fundador da Rusagro, um dos maiores grupos agrícolas da Rússia.
Moshkovich foi detido em Março de 2025, juntamente com o antigo director da empresa, Maxim Basov, num processo que envolve acusações de fraude, abuso de poder e suborno, que os acusados contestam.
Em Maio deste ano, um tribunal de Moscovo determinou a transferência para o Estado de uma participação de cerca de 68% na Rusagro, avaliada em aproximadamente 67 mil milhões de rublos.
A decisão não se limitou às acções da empresa. Outros activos de Moshkovich, incluindo participações empresariais, imóveis e dinheiro depositado em contas bancárias, também foram atingidos.
Segundo o Ministério do Interior russo, os activos abrangidos pelo processo chegaram a ser avaliados em mais de 550 mil milhões de rublos.
A Rusagro é um dos maiores produtores agrícolas russos, com negócios nos sectores do açúcar, carne de porco, produção agrícola e outros segmentos da indústria alimentar.
Strukov perdeu o império mineiro
Outro caso emblemático é o de Konstantin Strukov, antigo proprietário e presidente da Yuzhuralzoloto (UGC), uma das maiores produtoras de ouro da Rússia.
Em 2025, um tribunal russo determinou a transferência para o Estado das participações de Strukov na empresa e de outros activos.
A decisão abrangia activos avaliados em cerca de 220 mil milhões de rublos. Em Março de 2026, um tribunal de cassação manteve a decisão, encerrando mais uma tentativa de contestação por parte do empresário.
A antiga empresa de Strukov está agora sob controlo do Estado através da Rosimushchestvo e os activos foram colocados no processo de preparação para venda.
Strukov construiu a sua fortuna no sector mineiro e chegou a integrar as listas dos empresários mais ricos da Rússia.
A Procuradoria acusou-o de ter obtido o controlo de várias empresas através de estruturas consideradas ilegais. Essas alegações foram utilizadas como fundamento para a transferência dos activos para o Estado.
O caso Traber é diferente
Ilya Traber, empresário de São Petersburgo ligado durante décadas ao sector portuário e energético, foi detido em Junho de 2026, numa investigação sobre o assassinato do empresário e político Alexander Petrov, ocorrido em 2020.
Um tribunal de Moscovo determinou a sua prisão preventiva. Traber é acusado de envolvimento num homicídio organizado e de tráfico de armas, acusações que nega.
Aos 75 anos, Traber possui ou possuía participações em várias empresas ligadas à infraestrutura portuária do noroeste da Rússia.
Entre os seus principais interesses estão projectos em Primorsk e Ust-Luga, além de empresas relacionadas com logística e energia.
Pouco depois da sua detenção, Traber deixou de figurar como accionista de uma empresa de tecnologia, transferindo a sua participação de 25% para outro sócio.
Interesses do Estado
A transferência de activos privados não é apresentada pelas autoridades russas simplesmente como uma política de financiamento da guerra.
Nos processos de Moshkovich e Strukov, o Estado justificou as medidas com acusações de corrupção, violações legais ou apropriação indevida de activos. Ainda assim, analistas identificam uma tendência mais ampla.
Desde 2022, dezenas de empresas privadas russas e estrangeiras passaram para controlo estatal. Uma análise recente do Carnegie Endowment sustenta que a redistribuição de propriedade se tornou parte importante da nova relação entre o Kremlin e as elites económicas: a propriedade privada de activos estratégicos depende cada vez mais da proximidade e da confiança das autoridades.
A própria necessidade financeira do Estado ajuda a explicar o contexto. Em 2026, os empresários mais ricos da Rússia deverão contribuir com cerca de 471 mil milhões de rublos, ou 5,6 mil milhões de dólares, em contribuições classificadas oficialmente como voluntárias.
O Governo prevê ainda obter cerca de 385 mil milhões de rublos através da venda de activos privados apreendidos.
Pacto entre Putin e os oligarcas mudou
Durante os primeiros anos de Vladimir Putin no poder, consolidou-se um entendimento informal. Os grandes empresários poderiam manter as suas fortunas desde que não desafiassem politicamente o Kremlin. Esse modelo começou a mudar depois da invasão da Ucrânia.
Para os empresários russos, a propriedade deixou de estar protegida apenas por contratos e estruturas empresariais. A lealdade política, a relação com o Estado e a capacidade de permanecer dentro das regras definidas pelo Kremlin ganharam peso crescente.
O Carnegie Endowment descreve a actual elite russa como um grupo cada vez mais dependente do poder central, com reduzida capacidade de actuar autonomamente.
A redistribuição de activos, tanto de empresas estrangeiras como de empresários russos, tornou-se parte dessa dinâmica.
Ao mesmo tempo, a pressão sobre os empresários não se limita às empresas já confiscadas. Em Março, os homens mais ricos da Rússia foram chamados a contribuir financeiramente para o Estado, num momento em que o défice público se agravou e os gastos militares continuam elevados.
Receitas imediatas
A venda ou transferência de activos privados pode proporcionar receitas extraordinárias ao Estado e colocar sectores estratégicos sob controlo público. Mas a política também aumenta a incerteza entre investidores e empresários.
A questão central para a economia russa é saber até que ponto a segurança da propriedade privada continuará a depender da relação de cada empresário com o poder político.
O fenómeno ultrapassa, entretanto, os empresários russos. Nas últimas semanas, Moscovo também colocou sob administração temporária os negócios russos de grandes multinacionais ocidentais, incluindo Nestlé, Auchan e Metro, numa nova escalada das medidas contra empresas de países considerados “hostis” pelo Kremlin.
Assim, a redistribuição de activos tornou-se uma das características mais visíveis da economia russa em tempo de guerra.