A política das marionetas – Sousa Jamba
A política das marionetas - Sousa Jamba
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Há algo de involuntariamente cómico em quem funda um partido em Angola, anuncia que disputará as próximas eleições e, chegada a hora de explicar ao país a que veio tão ilustre criatura, apresenta como missão histórica uma tarefa de simplicidade comovente: combater a UNITA.

É uma proeza de economia intelectual. Um partido existe, ao menos em teoria, para disputar o poder e moldar o modo como esse poder se exerce. Esperar-se-ia, pois, que uma organização nascente começasse por dizer aos cidadãos o que pretende fazer dele: que empregos criará, que escola pública defenderá, que hospitais financiará, que agricultura promoverá, que Estado imagina. Mas não. Tudo isso pode esperar. Primeiro derrota-se a UNITA; depois, logo se vê.

Ninguém exige que a oposição seja uma família feliz, reunida à mesa para concordar em tudo. A democracia vive da contestação, da representação e da possibilidade de alternativa, e um partido deve poder criticar o outro, disputar-lhe os eleitores e provar que traz melhores soluções. O defeito não está em combater a UNITA; está em existir só para a combater.

É aí que a democracia se degrada em parque temático: partidos de cartão, estadistas instantâneos, dirigentes que descobriram a vocação política algures entre o pequeno-almoço e o almoço.

A receita é conhecida. Escolhe-se uma sigla, patriótica o bastante para parecer já ter passado por três conferências internacionais; nomeiam-se um presidente, um secretário-geral, dois coordenadores, quatro assessores e um responsável pela juventude, ainda que ninguém saiba de que juventude se trata nem para onde deverá ser conduzida. Aluga-se uma sala, estica-se uma mesa, pendura-se uma bandeira, distribuem-se bonés.

Nasceu uma força política. O programa fica para a semana. A ciência política é menos complacente: exige observação onde se oferece afirmação, verificação onde se oferece fé, e lembra, para desgosto dos amigos do slogan, que o presente é ininteligível sem o passado.

Para quem cresceu mergulhado na propaganda, a UNITA é o fruto mais baixo da árvore política angolana: nem é preciso subir, basta estender a mão. UNITA? Guerra. UNITA? Savimbi. UNITA? Problema. Pronto: está concluída a licenciatura em Ciência Política. A dificuldade surge quando alguém comete a imprudência de abrir um livro.

Uma organização com décadas de existência, que atravessou a guerra, as derrotas militares, a morte do fundador, a conversão à competição eleitoral, as dissensões internas e as sucessivas lideranças, não cabe em meia dúzia de palavras herdadas.

Ninguém é obrigado a admirá-la, a apoiá-la ou a absolver-lhe os episódios sombrios; é-se apenas obrigado a algo bem menos emocionante: estudá-la. Pensar dá trabalho; o slogan tem a vantagem de já vir pensado.

Talvez seja esse o mais empobrecedor dos efeitos da propaganda prolongada: o espírito treinado para caçar monstros perde a faculdade de reconhecer complexidades.

Em vez de analisar o adversário, fabrica-lhe a caricatura; em vez de a confrontar com os factos, reduz-a até caber numa frase; e, em vez de duvidar, contempla o resultado com a satisfação de quem resolveu um problema nacional. Não exige pesquisa, nem comparação, nem memória histórica, nem sequer curiosidade. Exige apenas um inimigo.

Surge assim o político moderno: gerado pela televisão, aperfeiçoado pelo soundbite, doutorado pela conferência de imprensa. Percebeu a grande verdade da época: pensar quarenta minutos cansa, e falar quarenta segundos dá exactamente a mesma fotografia.

Tem facto, microfone, sigla, presidente, secretário-geral e um coordenador nacional para uma coisa cuja natureza será esclarecida a seu tempo. Falta-lhe apenas o pormenor burocrático a que se chama ideia.

Fundar um partido não é construir uma organização política. Copia-se a cerimónia, com o congresso, o hino, a mesa de toalha, os jovens de boné e o comunicado final que declara invariavelmente que o encontro decorreu num ambiente de franca camaradagem.

O que não se manda imprimir é aquilo que as organizações antigas acumulam: lealdades e rupturas, vitórias e derrotas, sacrifícios e erros, redes locais, memórias, ressentimentos. Umas heranças merecem defesa, outras censura severa; todas existem. E, em política, o que existe socialmente não se dissolve porque alguém o considera inconveniente.

Nada disto nasce porque vinte pessoas alugaram uma sala, alinharam cadeiras de plástico e proclamaram: «A partir de hoje somos uma força incontornável.» Por vezes, a força continua perfeitamente contornável. Basta sair pela porta lateral.

Por isso, perante qualquer partido que faça da derrota de outro a sua razão de ser, a pergunta interessante não é se o conseguirá. É bem mais simples: derrotá-lo para fazer quê? Com que economia, com que Estado, com que empregos, com que escola, com que saúde, com que relação entre Luanda e as províncias?

Derrotar alguém não é programa de governo; é, quando muito, o desfecho possível de uma disputa.

Angola precisa de partidos capazes de explicar o país que querem construir antes de acabarem de explicar quem querem combater. A democracia comporta os grandes e os pequenos, os antigos e os novos, os previsíveis e os excêntricos; o que a depaupera é a política feita de recipientes sem conteúdo, organizações com toda a anatomia exterior de um partido e quase nenhuma vida intelectual lá dentro.

O vazio tem, de resto, uma propriedade notável: quanto menos contém, mais espaço deixa para discursos.

*Jornalista e escritor

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