
O médico militar angolano Domingos Rafael Fragoso, coronel reformado das Forças Armadas Angolanas (FAA), escritor e investigador cultural, morreu no dia 5 de Outubro, em Lisboa, vítima de complicações renais, soube o Imparcial Press junto de fontes familiares.
Conhecido no meio literário pelo pseudónimo Dartanhã Fragoso, o clínico enfrentava problemas de saúde relacionados com a diabetes e a doença renal crónica, tendo-lhe sido amputadas as duas pernas no decurso da doença.
Domingos Rafael Fragoso encontrava-se em Portugal desde 2019, sob acompanhamento da Junta Médica, à espera de um transplante renal e a realizar sessões regulares de hemodiálise.
Em Março de 2021, o médico lançou um apelo público por apoio, depois de ter sido informado de que deveria abandonar a pensão onde estava alojado em Lisboa, apesar de continuar a realizar tratamentos.
Na altura, Fragoso contestou a informação de que teria recebido alta médica, afirmando que o médico assistente não lhe comunicara qualquer decisão nesse sentido. Sem rendimentos e dependente dos cuidados de saúde, questionou onde iria viver caso tivesse de deixar o alojamento.
“Lutei pelo meu país nos momentos muito difíceis, pelo que mereço atenção e respeito”, afirmou então o oficial superior na reforma, manifestando indignação com o tratamento que dizia receber das autoridades angolanas da saúde em Lisboa.
Domingos Rafael Fragoso foi condecorado com a Medalha de Mérito Militar de 2.ª Classe, atribuída pelo Presidente da República a 23 de Março de 2019, em reconhecimento do seu percurso militar.
Percurso profissional
Sobrinho do nacionalista José Adão Fragoso, falecido em Maio de 2021, Domingos Rafael Fragoso construiu um percurso profissional que conciliou a medicina, a comunicação social e a literatura, tendo dedicado parte da sua carreira à prestação de cuidados médicos e à educação para a saúde.
Licenciado em Medicina pela Universidade Agostinho Neto, foi médico militar e chefe dos Serviços de Apoio Médico-Militar das FAPLA.
Em 1989, foi colocado no Cuito Cuanavale, então na província do Cuando Cubango, onde acompanhou operações militares durante o conflito armado.
Ao longo da carreira, exerceu igualmente funções em serviços médicos de várias empresas públicas, entre as quais a ENSA, o Porto de Luanda, a Angola Telecom, a ENANA e o Banco de Comércio e Indústria (BCI).
Foi também director clínico e subdirector dos serviços médicos da antiga Empresa Nacional de Electricidade, actualmente ENDE.
Na comunicação social, destacou-se pela colaboração, durante mais de 20 anos, na rubrica “Médico em Casa“, emitida no programa “Boa Noite Angola“, da Rádio Nacional de Angola.
Em conjunto com o médico Pedro da Rosa, prestava esclarecimentos sobre questões de saúde, respondia às dúvidas dos ouvintes e contribuía para a divulgação de informação médica.
Para além da medicina, Domingos Rafael Fragoso desenvolveu actividade literária como poeta, escritor e investigador cultural.
Entre as suas obras publicadas figuram “Paradigmas“, colectânea de poemas lançada em 1995, e “Agostinho Neto, o Libertador”, ensaio publicado em 2003.
Publicou ainda ensaios, crónicas e artigos em diferentes órgãos de comunicação social angolanos e participou na fundação da Sociedade Angolana de Escritores (SAE), organização que considerava importante para a promoção da democracia cultural e a abertura de espaços a novos autores.
Entre os seus projectos literários encontrava-se um ensaio sobre a Revolução do Algodão, ocorrida em Catete, em 1922, e o papel do advogado e escritor nativista António de Assis Júnior.
Manifestou igualmente a intenção de publicar poesia, crónicas, contos, um romance histórico e uma obra de apoio às pessoas que vivem com diabetes.

Defensor da saúde pública
Numa entrevista publicada pelo Jornal de Angola, em Abril de 2024, sob o título “A Saúde Pública é um problema de todos”, Dartanhã Fragoso defendeu que a saúde pública deve ser entendida como uma responsabilidade colectiva, e não apenas do Ministério da Saúde e dos profissionais do sector.
Na ocasião, chamou a atenção para a importância do saneamento básico, do acesso à água de qualidade e da educação para a saúde como factores determinantes para a melhoria das condições de vida da população.
O médico abordou também as dificuldades de acesso a medicamentos para doenças crónicas, considerando que os custos elevados podem agravar o estado clínico dos doentes e contribuir para complicações que poderiam ser evitadas com acompanhamento e tratamento adequados.
Apesar das limitações impostas pelos problemas de saúde, manifestou a intenção de continuar a contribuir para o sector em Angola, tendo referido o desejo de frequentar um mestrado em Saúde Pública, caso conseguisse apoio institucional.
Com a sua morte, Angola perde uma figura que conjugou a actividade médica e militar com a intervenção literária e a divulgação de temas de saúde pública, defendendo, ao longo do seu percurso, a prevenção das doenças, a educação para a saúde e o acesso da população aos cuidados médicos.