
Não perde a oportunidade de criticar o partido dos “maninhos” que “matou” a sua família. Eduardo Jonatão Chingunji (Dinho Chingunji) lamenta a má escolha feita pelos progenitores ao aderirem ao projecto Muangai que lhes custou a vida. “Nunca mais me revi. Acho que a UNITA foi a pior coisa que aconteceu nas nossas vidas”, dispara o homem que acaba de lançar uma obra sobre esse percurso negro.
Com o lançamento do livro ‘A família real e o senhor da guerra’ já encontra alguma paz de espírito?
Deixe-me lhe explicar que o pensa mento do livro é antigo; vem desde os anos 60. O meu falecido pai Samuel Jonatão Chingunji (Kapesi Fundanga) achou a determinada altura que o lega do da família tinha de ser registado em papel. Um livro que teria um percurso evangélico do nosso avô que colaborou com os missionários nos processos de luta pela descolonização.
Portanto, há um histórico de luta na família?
Exactamente! Só que depois começa a guerrilha e o meu pai envia o manuscrito para o seu irmão Estevão Calei Chingunji, que se encontrava a estudar nos Estados Unidos da América. Mas o Calei acabou por falecer e perdeu os manuscritos iniciais. Os rascunhos que o pai tinha na Jamba, também foram destruídos.
E depois?
Em 1985, quando terminei os estudos secundários achei que devia continuar a obra do mais velho, introduzindo a parte política, como a origem da família Samuimbila. Mas quando chego à Jamba me deparo com todo um cenário de conspiração. E havia um complô interno. Ai a minha vida então complicou e não se sabia se iria ou não sair da Jamba, embora o Tito Chingunji estivesse lá fora.
Mas conseguiu sair?
Saí com vários factos da Jamba e continuei a escrever. Até 1991/92 já devia publicar o livro, mas achava que não convinha por acreditar que os meus familiares ainda estariam vivos.
Acabaria por ser contrariado?
Um único indivíduo cumpriu com o seu programa de que no reinado devia ficar apenas um rei.
Refere-se a Jonas Savimbi?
É isso. Não parei! Continuei a falar com testemunhas do assassinato da minha família, registando tudo, ao mesmo tempo que estudava. Em 2011 decidi publicar o livro e hoje está aí a obra e, portanto, sinto-me com a missão cumprida.
Como olha para o país político e económico?
Do ponto de vista político, tivemos eleições e continuamos com o sistema democrático.
E do ponto de vista económico e social?
O quadro, desde 2015, continua gravíssimo. Digo isso porque sou uma pessoa que viaja muito pelo país e deparo-me com muita miséria, portanto, com muitos problemas.
Que soluções aponta?
Acredito na mudança na liderança do país. É mais um passo, porque entramos na cultura de renovação, o que é muito bom para o desenvolvimento.
Disse que há muita miséria?
O essencial é resolver o problema da fome e da pobreza. O desemprego é visível. Todos os dias as pessoas batem-nos à porta a pedir emprego. É muita gente. Isso é doloroso.
Continua a não se rever na UNITA?
Nunca mais me revi. Acho que a UNITA foi a pior coisa que aconteceu nas nossas vidas. Foi uma má opção da nossa família ir para a UNITA. Se fossemos para o MPLA ou a FNLA talvez não fosse esse o fim tão trágico de ceifar praticamente todos os membros de um clã.
Mas a UNITA tem hoje outra liderança. Isso nada lhe diz?
Não estou lá e não gostaria de falar sobre isso. Mas o facto de estar a dirigir o partido uma figura que não podia lá estar naquele tempo, quando o extremismo estava muito acentuado já é positivo.
Criou o Partido Nacional para a Justiça em Angola (P-NJANGO), que perdeu nas eleições de 2022, acabando mesmo por ser extinto. O que tem feito a partir daí?
Não parei como empresário. Continuo a contribuir de alguma forma para o desenvolvimento de Angola. Também, enquanto funcionário público, não posso virar as costas a todo o processo que tem que ver com o bem-estar do cidadão.
Portanto, ainda sente-se com energias para prosseguir em todas as frentes?
Tenho quase 60 anos e ainda continuo com força e princípios para ajudar o país, sobretudo, fazer com que os agentes privados cresçam, prosperem e criando cada vez mais postos de trabalho. Seja quem estiver no poder estarei aqui para introduzir os meus pontos de vista. É político, mas também empresário.
Nada lhe atrapalha?
Sou uma pessoa que não acredita fazer política sem estar financeiramente realizado. Não quero abraçar um projecto político e pensar que deste modo vou ficar rico, mas sim servir o povo. Não quero política de antagonismo. Sou daqueles que acham que pessoas de ideias diferentes devem conviver.
Se revê na liderança do Presidente João Lourenço?
Como cidadão acho que muita gente foi surpreendida. Ninguém esperava que depois que assumiu o poder, em 2017 haveria mudanças tão significativas. Lembro-me de muita gente no MPLA que dizia que JLo só estaria ai de fachada e que seria apenas uma marionete dos eduardistas.
Aguentou-se bem, é isso?
Aguentou-se muito bem e hoje o poder pode mudar de um cidadão para outro. Penso que doravante será assim para sempre daqui a 50 anos.
Mas, concretamente, o que lhe impressiona em JLo?
Acredito que a vinda do Presidente João Lourenço tem ajudado significativamente a mudar a imagem de Angola no exterior. Estamos lembrados que hoje aqueles que mandavam, tudo podiam, grupos que dominavam empresas e eram verdadeiras forças de bloqueio, desapareceram.
Já não há entraves?
Era tudo bem aprovado, mas os projectos de seguida eram bloqueados. Hoje já não é preciso trabalhar com quem monopolizava a economia. O país agora apenas está a precisar de boas pessoas, ou seja, de capacidades para alavancar todos os sectores da vida nacional.
Depois do desaire nas eleições de 2022, ainda pensa em concorrer em 2027?
Vamos voltar a concorrer. Constatei e continuo a observar que nas províncias, há esperança por novos líderes. As pessoas me encorajam a prosseguir a luta. Portanto, o primeiro golpe de 2022 não nos deve fazer desistir da próxima corrida eleitoral. Não conseguimos estar no Parlamento, mas por aquilo que aconteceu, não há razões nenhumas de não voltarmos ao pleito.
Acredita num bom resultado, desta vez?
Provavelmente avançaremos com outra sigla partidária. Ainda não está bem definido, mas estamos a trabalhar, não paramos. De resto, digo-lhe sem rodeios que temos muitas opções.
Está muito confiante?
Em 2022 cerca de 51% dos eleitores não votou. Isso é negativo. Queremos arrastar para a nossa causa o eleitor que não votou, ou levá-lo a acreditar nos processos eleitorais e nas mudanças geracionais. Aliás, o Presidente João Lourenço vai terminar o mandato e vêm ai uma nova geração de políticos e governantes com desafios diferentes. Vamos acreditar.
Chegou a ser ministro da Hotelaria e Turismo em resultado do Governo de Unidade e Reconciliação Nacional (GURN). Como se sentiu quando abandonou a pasta?
Tranquilo, porque não tive, durante o meu mandato, problemas de relacionamento no Ministério da Hotelaria e Turismo. O convívio era salutar, tanto com novos, como com os quadros antigos que lá encontrei.
Como ministro da UNITA as suas ideias eram validadas?
As minhas ideias eram sempre tidas e achadas no Conselho de Ministros e a interação com os meus subordinados era saudável.
Ficaram saudades?
Sim, por causa da camaradagem das pessoas. Ríamos muito e incentivava os quadros a trabalharem com mais eficiência. Portanto, nunca desanimei e saí de cabeça erguida.
in Jornal Pungo a Ndongo