
As eleições em Angola têm preenchido uma parte importante dos nossos noticiários e o enredo criado à volta do funeral de José Eduardo dos Santos tem ajudado a concentrar a nossa atenção em Luanda.
Apesar de tantos anos terem passado desde a independência de Angola, é normal que os portugueses sintam uma certa atração pelos assuntos da sua antiga colónia, seja pela saudade dos que regressaram contrariados, seja pelos angolanos que vivem em Portugal, estes dois países têm demasiada história comum para ignorarmos o que se passa cá e lá.
Mas confesso que muitos dos comentários a que tenho assistido me fazem crer que há uma nova espécie de colonialismo intelectual de norte para sul onde um conjunto de personalidades tenta analisar um fenómeno político à luz da sua realidade ou da sua utopia. Aliás o que mais me espanta é a diferença de critério, entre meter a colher no que se passa em Angola, mas não ousar dizer o mesmo ou muito pior sobre a Rússia, Coreia do Norte, Cuba ou a China. Depois ainda temos aqueles exemplos, aqueles defeitos que se apontam a Angola, mas que são exatamente iguais aos portugueses, como é o caos dos mortos nos cadernos eleitorais.
A democracia angolana é fraca? Claro que é, mas é bem melhor do que a chinesa, a norte-coreana, a russa, a cubana ou a venezuelana e não vemos os mesmos indignados a rasgar camisolas e as vestes com esses países que tantas vezes os vemos a abraçar.
Há corrupção em Angola? Claro que há. Há classes protegidas? Claro que há. E em Portugal, não nos deveria fazer confusão certos negócios de privilégio feitos pelo Estado, pelo Governo, por empresas públicas com amigos, com ex-patrões, com familiares? Alguns desses moralistas sobre Angola ou outro país africano são os mesmos que comem à mesa de fulanos que fazem exatamente o mesmo em Portugal. É uma verdadeira hipocrisia e um novo colonialismo.
Depois ainda temos a outra hipocrisia que surge da oportunidade das eleições no Brasil, cá acusam políticos e empresários angolanos, provavelmente culpados, mas não condenados, e aparecem em posts, entrevistas e manifestações de apoio a Lula da Silva, que fez exatamente o mesmo, cuja família e correligionários enriqueceram, e onde ele e outros foram mesmo presos ou condenados.