
“Não sentirei nunca saudade nem quero saber da minha mãe, por me ter abandonado na rua”. Essas palavras, expressas num momento de muita tristeza e emoção, foram da menina Ludmila Nzage, ao ser devolvida ao pai, um ano depois de ter sido deixada à sua sorte pela progenitora.
Agora com seis anos, a menor tinha sido largada a meio da rua, em Outubro de 2021, no bairro Marçal, pela própria mãe, Ana Hebo, 32 anos, que queria agradar o novo marido, foi encontrada no Distrito Urbano do Sambizanga. Bastante feliz pelo reencontro com o pai, Victor Nzage, a menor era cuidada por dona Lukénia Francisco, residente na rua 12 de Julho do Sambizanga. A localização da criança foi possível, graças à pronta colaboração de Lukénia Francisco, que após ter acompanhado a história na imprensa, inclusive no Jornal de Angola, entrou em contacto com o pai de Ludmila e avisou ao SIC-Luanda.
Visivelmente emocionada e aos prantos, dona Lukénia, mãe de sete filhos, disse ter encontrado Ludmila, em Outubro do ano passado, junto à Cidadela Desportiva, sozinha, desesperada e com um saco preto, em que continha peças de roupa.
“Quando fui à busca da bebé da minha patroa, pela manhã, encontrei a Ludmila na rua, e à tarde, voltei a vê-la, mas já no meio de muita gente. Foi aí que decidi trazê-la a casa”, contou.
A senhora explicou que a menor tinha informado que a mãe, quando a abandonou na rua, alegou que a esperasse ali, porque queria comprar algo numa cantina, mas nunca mais voltava.
Na hora da decisão, o coração de mãe falou mais alto. E dona Lukénia acolheu a criança, mas fez a participação à Esquadra de Polícia do Rangel, tendo deixado ali os contactos, na esperança de que a família da menor fosse aparecer.
“Além disso, fui, também, fazer a participação numa esquadra do Cazenga e cheguei a publicar fotos no Facebook, mas essas iniciativas não tiveram êxito”, desabafou. Ao levá-la para casa, realçou que a criança tinha sarna e apresentava um aspecto muito maltratado, mas cuidou dela como filha.
“Lembro-me que as pessoas me diziam que não podia acolher mais ninguém em casa, porque eu já vivia uma situação social crítica. Mas, nunca liguei e cuidei a miúda com muito amor”, disse a mulher.
Pedido difícil de aceitar
O clima continuou emocionado. E no meio choros, dona Lukénia pediu ao pai da menina para ficar com a criança, por causa da afinidade que criou com Ludmila, solicitação negada pelo progenitor, pois Victor Nzage prefere que a filha seja cuidada por familiares directos, mas prometeu que, nalgumas vezes, quando dona Lukénia sentir saudades terá a criança por perto.
Enquanto os adultos negociavam, Ludmila Nzage, já no colo do pai, não parava de chorar. Era um sentimento misto; alegria e tristeza. Para já, a criança afirmou não querer saber de Ana Hebo, por isso, vai viver com o pai e visitar sempre a segunda mãe: Lukénia Francisco.
Enquanto se despedia da menina, dona Lukénia deixou recomendações importantes a Victor Nzage. Pediu que cuide bem da filha, principalmente nas questões de saúde, ao deixar certas receitas para o caso de estar doente, inclusive!
No fim, Victor Nzage agradeceu o gesto de dona Lukénia, por ter cuidado da criança, durante quase um ano, e ao SIC, pelo trabalho que desenvolveu e em tão pouco tempo conseguiu a filha de volta.
Mãe em prisão preventiva
O porta-voz do SIC- Luanda, superintendente Fernando de Carvalho, que se mostrou chocado com a atitude da mãe, pediu maior responsabilidade dos pais no tratamento dos filhos.
“Não se percebe que uma mulher aguarde por nove meses de gestação e mais uns anos de vida da criança, para, depois, a deitar na rua”, desabafou, considerando triste que “a própria menor, agora, diz não querer ver a mãe”.
O oficial, visivelmente emocionado com o feliz desfecho do caso, apelou aos pais para evitarem situações que causem sofrimento às crianças.
Fernando de Carvalho anunciou que Ana Hebo, a mãe da criança, já foi ouvida pelo Ministério Público, tendo sido decretada a pena de prisão preventiva. O processo-crime vai continuar até chegar ao tribunal.
In JA