
Na sua nota pastoral, a propósito do 11 de Novembro, os bispos católicos pedem uma comunicação social que seja instrumento de paz e desenvolvimento.
Ao estabelecer as prioridades para o país, definem “a urgência de uma comunicação social credível que una os angolanos e se regule por critérios de serena objectividade, evite a propaganda e se livre dos métodos de informação que, violando a justiça e a verdade, ferem a dignidade e o bom nome dos cidadãos; finalmente que seja um instrumento de paz e de desenvolvimento”.
E não poderíamos estar mais de acordo com os bispos quanto à necessidade de uma comunicação social diferente, que se posicione mais como um instrumento de paz do que uma caixa de ressonância da polarização política e dos fanatismos políticos.
A avaliação negativa que hoje é feita do papel da comunicação social resulta de erros de pressupostos negativos quando, lá atrás, se acreditava que os problemas do Jornalismo angolano radicavam, essencialmente, na imprensa pública e que uma simples abertura para mais órgãos privados levaria a uma alteração do quadro.
“A prática é o critério da verdade”. Apesar de desde 2017 o número de órgãos privados ter triplicado, a sociedade não tem acesso a uma informação de melhor qualidade, seja em termos de qualidade técnica como em diversidade temática.
Apesar de se ter alargado o leque e a diversidade de proprietários de meios de comunicação social, nem por isso são registadas melhorias consideráveis na construção de um ambiente de irmandade entre os angolanos, na promoção da aceitação do outro e de um clima de paz.
Aliás, a tendência parece ser contrária. A velha dicotomia público versus privado vem se transformando em blocos antagónicos, nos quais os órgãos se alinham de acordo com os interesses de grupo e com a polarização política.
De um lado, os órgãos de comunicação social públicos ou privados que “tomam as dores” do Governo, e posicionam-se como caixas de ressonância das narrativas e do discurso oficial, criticando e silenciando quem não alinhe nelas.
No outro extremo (incluindo aqueles que são pertença da Igreja Católica, da oposição partidária ou dos grupos económicos, marimbondos), os órgãos que promovem um criticismo fanático contra o Governo, promovendo, também sem contraditório, todas as vozes anti-Governo, e colocando-se declaradamente como actores da estratégia de oposição ao partido no poder.
Há um desfasamento entre a postura da comunicação social e as expectativas da sociedade e necessidades do país. Comprovadamente, os problemas da comunicação social são generalizados por toda a classe e as soluções dependem mais de dentro do que de fora, como acções de formação e maior rigor na denúncia da violação dos princípios éticos da profissão.
Enquanto os líderes da classe insistem em apontar o dedo a terceiros, a prática demonstra que os problemas radicam cada vez mais no interior da classe, nomeadamente a impreparação técnica, a ausência de formação técnica e deontológica e a ineficácia de uma acção disciplinar da Comissão da Carteira e Ética.
Numa época do chamado “fundamentalismo corporativista das profissões”, em Angola não se sente, de todo, qualquer preocupação das lideranças com a reputação e dignidade da classe resultantes da má avaliação que a sociedade faz do seu desempenho.
Mais do que apontar o dedo a terceiros, seja Governo ou proprietários privados, a classe jornalística precisa de uma liderança mais concentrada na promoção da recuperação do prestígio dos jornalistas e na preparação do jornalista como agente da paz e como construtor positivo da Nação.
É um trabalho que passa pela realização de uma introspecção, profunda e frontal, sobre os seus próprios erros, falhas e omissões na formação ética e técnica dos jornalistas.
Sem isso, os profissionais não serão capazes de se transformarem em actores activos da construção de um ambiente de tolerância e entendimento mútuo entre os angolanos.
Sem a formação ética e sem a promoção da qualidade, não é de estranhar que as novas gerações de jornalistas acreditem piamente que ser jornalista é “barricar-se” num dos lados da vida política e ser um “jornalista bem-comportado”, que se preocupa mais em ser conveniente para o entrevistado ou em não ouvir o contraditório do que ser um profissional do interesse publico.
Da parte das associações da classe, faz falta a coragem para separar o trigo do joio e tomar posição pública de critica contra a “normalização” de um Jornalismo sem contraditório, de manipulação dos factos de acordo com os interesses partidários e de promoção de opinion makers que “vendam” pontos de vista convenientes com a posição política do órgão.
Os noticiários e acalorados “debates” são, na verdade, conteúdos inquinados e parciais, que seguem uma lógica da promoção das diferenças e, muitas vezes, até do insulto ou da diminuição do outro, prejudicando assim o sonho da construção de uma sociedade plural, baseada na tolerância e respeito pela opinião de todos.
Em vez de se tornarem em agentes da paz e da aceitação do outro, os órgãos de comunicação são hoje a linha avançada da polarização política e, a pretexto da liberdade de expressão, permitem, sobretudo nas rádios, que se cultive o ódio, a intolerância e a maledicência.
Em termos de diversidade temática, os resultados são os mesmos e o aumento do número de órgãos não conseguiu inverter a tendência para o excesso de temas políticos nos conteúdos e agendas noticiosas dos órgãos de comunicação social. Um país não se faz só de política e políticos.
A vida dos cidadãos, o dia a dia das populações, incluindo as coisas boas, positivas, inspiradoras de esperança deveriam ter mais espaço.
Como bem diz a Igreja Católica, faz falta uma comunicação de paz, virada para o desenvolvimento; que não tenha a preocupação de estar a favor ou contra este ou aquele, mas sobretudo que faça o seu trabalho com isenção, profissionalismo e ouvindo todas as partes.
*Jornalista e escritor