A amante francesa de C4 Pedro – António Quino
A amante francesa de C4 Pedro – António Quino
C4 pedro

Numa curta passagem por Paris, em Novembro de 2024, tive a grata sorte de ser transportado num táxi conduzido por uma linda parisiense. Simpática e sorridente, da curta conversa que mantivemos, acho que ela se chama Roissy. Levou-me a um centro comercial não muito distante do aeroporto local.

Pelo caminho, fomos conversando sobre Paris e seu coração aberto, até que subitamente ela me tratou por cidadão angolano. Achei estranho e curioso. Como foi que ela descobriu a minha nacionalidade? Terá sido pelo meu francês aportuguesado?

  • J’ai transporté beaucoup d’Angolais et je connais votre sympathie!” (Já transportei muitos angolanos e conheço a vossa simpatia!)

Sossegou-me ela com um largo sorriso ao perceber como tinha posto a minha confiança em debandada. Mas não sosseguei. Por vezes, essa taxista deve ser de algum serviço de inteligência francesa e fica a rondar o aeroporto com o ficheiro dos passageiros recém-chegados.

Pensei, mas logo desconstruí essa anedótica ideia: com tanta gente a chegar e a sair de Paris não haveria serviços (secretos) de táxis suficientes para acudir suspeitos como eu.

Falámos então das características dos angolanos, que ela não detalhou, mas lembrou que somos diferentes particularmente dos senegaleses, moçambicanos (“há poucos por cá”), congoleses e malianos.

Confesso que fiquei muito mais sossegado e agradado quando a Roissy (?) disse que conhece a música angolana e que até sabe dançar kizomba. Pronto, fiquei desarmado.

Na curiosidade, perguntei que músico angolano ela acompanha. Na resposta, não só me falou do C4 Pedro, como cantou um pouco da música “Filho do mato”, imitando o cantar do galo num timbre de voz que o Pedro Henrique Lisboa Santos poderia considerar a hipótese de fazer uma versão com aquele coq feminino.

  • Moi ser amante de C4 Pedro!

Os dois soltamos intensa gargalhada. Talvez ela não tenha percebido o porquê da minha risada. Desconfio que ela pretendia dizer admiradora. Acho que a confusão entre “admiradora” e “amante” terá ocorrido devido a nuances linguísticas e culturais.

Em francês, “admiratrice” significa alguém que admira, enquanto “amante” é “maîtresse” ou “amante”. No entanto, em contextos informais, “amante” pode ser também usado para descrever alguém que tem uma paixão intensa por algo ou alguém, similar a “admiradora”. Então pensei: já tenho o título para o meu próximo texto.

Não é necessário acrescentar aqui toda a minha vaidade quando desci daquele táxi, por ter sido reconhecido como angolano e por aquela bela jovem parisiense, que não fala português e nunca esteve em África, ter afirmado conhecer músicos e música angolana, dançar kizomba e cantar toda atrapalhada da vida dela excertos da música do C4 Pedro. Adorei!

O reconhecimento e a admiração pelo músico angolano C4 Pedro por parte da francesa teve um valor simbólico muito significativo para mim. Senti-me um pequeno rei porque elogiaram um outro angolano.

Está certo que o mau gosto clubístico do C4 Pedro me põe na retranca em relação pessoa dele. Mas não deixo de reconhecer a sua qualidade artística e as suas contribuições à kizomba e à house music, num estilo muito dele.

Não sei se o ter começado a carreira musical na Bélgica, onde viveu por anos terá afectado positivamente os gostos da francesa. Não sei mesmo.

Do C4 Pedro guardo, além do ritmo, a qualidade das suas composições, que frequentemente utilizam metáforas, referências históricas e bíblicas, e uma narrativa rica em emoções para expressar sentimentos profundos e complexos.

Por exemplo, na música “Último Poeta”, C4 Pedro constrói uma narrativa poética que destaca os esforços e sacrifícios feitos em nome do amor, utilizando imagens grandiosas como “fui buscar óleo no Egipto” e “aprendi a ser Moisés”.

Gosto das histórias que ele conta, como na música “Filho do mato”. Até parece adepto rubro-negro quando evoca emoções e reflexões profundas, características típicas de um poeta. Quem estuda arte sabe que os verdadeiros artistas não pintam quadros tricolores. Provoquei.

Amor por Angola ecoa

No curto diálogo, a taxista francesa confirmou-me o reconhecimento internacional da riqueza e da qualidade da cultura musical angolana. C4 Pedro foi o bom exemplo dado.

A música tem um poder único de transcender barreiras linguísticas e culturais, tornando-se uma ferramenta poderosa de diplomacia cultural.

Quando artistas de diferentes países colaboram ou quando músicas de uma cultura específica ganham popularidade internacional, isso promove o conhecimento e o reconhecimento de um povo.

A música pode transmitir histórias, valores e emoções de uma maneira que poucas outras formas de arte conseguem.

Quando artistas angolanos são apreciados em outros países, como França que possui uma salada cultural das mais diversas no seu mercado musical, isso fortalece o orgulho nacional e a identidade cultural, mostrando que a música angolana tem um impacto global.

Se exagerei é da emoção pelo 8 de Janeiro, Dia da Cultura Nacional. Mas, saber que músicos como C4 Pedro são admirados em França é, certamente, um motivo de orgulho para os angolanos e um testemunho do talento e da criatividade presentes na cultura musical de Angola.

Eu exulto de alegria pelo reconhecimento de um angolano. A valorização cultural é fundamental para alimentar o orgulho nacional.

Quando uma nação reconhece e celebra as suas tradições, costumes e patrimónios culturais, fortalece a identidade colectiva e promove um senso de pertença entre os seus cidadãos.

Aproveitando esse embalo que me trouxe a admiradora de C4 Pedro em Paris, reafirmo que a valorização cultural é um pilar essencial para o desenvolvimento social e económico de um país, promovendo o orgulho nacional e fortalecendo a coesão social.

Essa insistência na relevância da cultura não é inocente. O primeiro passo na luta contra a colonização foi pelo resgate do nosso-eu. Ou seja, a resistência cultural foi uma forma de preservar a identidade e a dignidade do povo angolano frente à opressão colonial.

A valorização das tradições, línguas, e práticas culturais ajudou a fortalecer a coesão social e a identidade nacional, criando um senso de unidade e propósito entre os angolanos.

A cultura angolana, rica em diversidade e história, serviu como um alicerce para a resistência contra a colonização. Líderes culturais e figuras históricas são exemplos de como a identidade cultural foi utilizada como uma ferramenta de resistência e inspiração para a luta pela Independência.

Basta lembrarmos de Joaquim Cordeiro da Mata, o Movimento dos Novos Intelectuais de Angola com o seu “Vamos descobrir Angola”, o Ngola Ritmos, Os Kiezos, as turmas e grupos carnavalescos, etc..

É importante não esquecermos que a valorização da identidade cultural foi, sem dúvida, um dos pilares fundamentais na busca pela liberdade e Independência de Angola.

Uma nação em construção

A luta pela Independência de Angola foi, antes de mais, impulsionada pela necessidade de resgatar a identidade cultural e a dignidade do povo angolano, subjugados pelo domínio colonial português.

Este movimento de libertação foi marcado por uma resistência cultural e política (nessa ordem) que culminou na conquista da Independência Nacional, em 1975.

À medida que nos aproximamos da comemoração dos 50 anos de Independência, é essencial valorizar este evento através da educação e da celebração das nossas tradições culturais.

Promover a história dos heróis da Independência, realizar eventos culturais, incentivar o estudo e a preservação das línguas e costumes locais são formas de honrar este legado.

Além disso, é importante fomentar o orgulho nacional e a unidade entre os angolanos, reconhecendo a diversidade cultural como uma força que nos une e nos define como nação.

É verdade que a nação angolana se encontra em permanente construção. Podemos até mesmo considerar que as contribuições das várias nações que compõem Angola representam um processo sincrético na construção da nossa identidade cultural angolana, porque Angola é um país com uma rica diversidade étnica e cultural, e essa diversidade tem sido fundamental na formação da identidade nacional.

O sincretismo cultural em Angola é evidente na música, na dança, na culinária e em outras formas de expressão cultural. Por exemplo, a música angolana é uma fusão de ritmos e estilos de diferentes grupos étnicos, bem como influências externas.

Essa mistura cria uma identidade cultural única que é reconhecida e valorizada tanto dentro quanto fora do país. Que o diga a taxista parisiense.

Além disso, o sincretismo cultural promove a coesão social e o respeito mútuo entre as diferentes comunidades que compõem a nação angolana.

Ao valorizar e integrar as contribuições de todas as culturas presentes no país, Angola fortalece a sua identidade nacional e promove um senso de unidade e pertença entre os angolanos.

Se nesse ritmo seguirmos em prol da valorização do nosso-eu, não nos espantemos se outras amantes se declararem ao C4 Pedro através da minha pessoa.

*Jornalista e escritor

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