A arte de apontar culpados – Guimarães Silva
A arte de apontar culpados - Guimarães Silva
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Um pouco pelo país, inúmeras vezes temos o mau hábito de apontar culpados por situações menos conseguidas ou insucessos em que temos a impressão digital para atingir metas. Este comportamento, que não é novo, é um chamariz de que nós, os actores, temos lacunas por conta de insuficiências.

Ao afastar a culpa sobre nós, apontando terceiros, há quem o faça directamente de peito aberto. Outros preferem o cortinado à busca da solidariedade e calor de próximos, ganhando coragem para fazer valer argumentos, afastando o popular “quem cala, consente.”

O interessante é que está sempre coberto de razão, dentro da nossa falsidade. As debilidades de berço ou adquiridas, têm ligação ao dedo em riste, que acusa o próximo de culpado. Fatalidades como a morte, para muitos de nós, têm sempre um porquê, com suposições que rondam o ridículo, daí que os forenses especializaram-se em desvendar as razões, com técnicas que incluem, entre outros, a autópsia.

Coisas que acontecem com carga negativa são associadas a itens menos bons, o azar, o diabo, o feiticeiro, até ao simples aparecimento da coruja ao entardecer. A ausência de chuvas deve-se ao ngapa de serviço. Se por azar apanharmos uma tala, o malfeitor é sempre aquele tio de olhar frio, o curandeiro fulano ou a mamã que serve funge sem gindungo.

Quando por entre tantos e distantes a mboa está farta do nosso amor, atribui-se a falta de cumbú; ao mau feitio da sogra, nunca ao nosso mau álcool ou comportamento. Daí que não espanta ao comum dos mortais que a culpa nunca morra solteira. Há sempre a quem atribuir razões dos negativos.

No capítulo desportivo, os adeptos são os melhores treinadores de bancada. Em situação de derrota, lá estão eles contra o mister, jogadores, árbitros e, alguns inclusive apontam o aproveitamento indevido da equipa adversária. Quem construiu em zonas de risco na hora do transtorno procura sempre um bombo da festa como desculpa.

Sem ilusões, a arte de atirar as falhas para o lado oposto também tem morada em grandes esferas da vida, onde há competidores para a visibilidade política (aqui residem os fantasmas da fraude e da intolerância), religiosa, oportunidades de negócios, riqueza e outras posses, acusando-se mutuamente de corrupção, favoritismos e compadrios.

Não há como fugir desta maleita. Aliás, quem nunca apontou a culpa de certos fracassos ao imaginário? Ao que parece, só o Ngana Nzambi sai incólume. Num solo como o de Luanda onde diariamente competimos e somos constantemente torturados pelo stress; as nossas falhas que encontramos culpados como bode expiatório podem ser da pressa e da pressão do salo por resultados.

Já a família tem olhar crítico por conquistas, posses, influências e facilidades “Abre o olho! O vizinho já conseguiu.” A pressa, como é sabido, é inimiga da perfeição, ao passo que a pressão, por vezes insuportável, é fiel companheira de erros, incumprimento de prazos. Os dois (pressa e pressão) reunidos mostram debilidades, algo comum aos seres humanos que não são perfeitos.

Numa análise cuidada, medir os prós e contras pode nos dar indicativos onde foi que não estivemos bem ou, na melhor das hipóteses, que barreiras impedem o alcance de sorrisos. Ainda assim, há que ter humildade para reconhecer que não dominados todas as artes.

Adiante, o “aprender, aprender sempre”, que acarreta tempo, dedicação e persistência, tem que fazer parte da cartilha. Nem tudo é mau nisto do dedo virado intencionalmente a alguém. Há aí algo de pedagógico, que devemos aproveitar, se olharmos para dentro e dermos conta que há dois pesos e duas medidas (acto injusto e desonesto de nossa parte).

Entretanto, há alguma valorização a quem apontamos como culpado, porque está assente algum ciúme e inveja nossa, da posição daquele como interveniente ou determinante no destino final da nossa acção. Há alguma irritação porque mexeu connosco em algum sentido.

Por outro lado, sentimos que aquele está mais talhado para contornar ou colocar obstáculos que nos enfraquecem. Já que “quem tem desculpa para tudo, não faz mais nada”, vale sim o esforço para ultrapassar as nossas fragilidades em direcção a uma voz igual com o outro lado.

Para quê apontar culpados quando partimos para a empreitada desmotivados, sem preparação cuidada, impacientes e na gula dos louros? Astor Piazzolla, argentino, criador do estilo de dança nuevo tango e exímio pescador, aconselhava que, “quando você tiver gosto, paciência e resistência, o resto é fácil.”

in JA

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