A arte perdida da leitura – E por que Angola precisa recuperá-la – Sousa Jamba
A arte perdida da leitura - E por que Angola precisa recuperá-la – Sousa Jamba
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Todos os anos, em Angola, assistimos a um belo ritual de passagem. Os jovens envergam as suas becas de graduação. Há lágrimas de alegria por parte de familiares orgulhosos, desfiles intermináveis de fotografias no Facebook e no Instagram, um sentimento colectivo — ainda que fugaz — de que o país está a investir no seu futuro.

Vemos estas cenas e sentimos esperança. Ali, poderá estar um futuro ministro, um médico, um inovador, uma voz que talvez consiga, finalmente, romper o tecto do potencial nacional.

Mas por detrás da pompa, dou por mim muitas vezes inquieto.

É que eu escrevo ensaios — textos que rondam as 700 palavras. Não são propriamente longos. E, no entanto, recebo muitas queixas de leitores jovens que me dizem que os meus textos são demasiado longos. Não demasiado difíceis. Não demasiado obscuros.

Apenas longos. Dei aulas, em Angola, a jovens entusiastas que queriam seguir carreiras no jornalismo ou na comunicação estratégica. Muitos eram motivados. Curiosos.

Mas quando se deparavam com o volume de leitura exigido — de Habermas a Foucault, passando pela ética do discurso público — alguns ficavam visivelmente aterrados.

“Temos mesmo de ler tudo isto?”, perguntavam, com os olhos arregalados.

Costumo comparar isso com os meus tempos de estudante na Inglaterra. Em Westminster e, mais tarde, em Seton Hall, vivíamos praticamente na biblioteca.

Fui aluno de mentes formidáveis como David Cardiff e Paddy Scannell — este último co-autor da monumental História da Radiodifusão na Grã-Bretanha, e ainda hoje activo, agora na Universidade de Michigan.

Colin Sparks, comunista britânico e teórico consagrado da comunicação, também foi meu professor. Não nos limitávamos a ler os seus livros — debatíamo-los, dissecávamos as notas de rodapé, questionávamos os enquadramentos teóricos.

Os meus colegas dessa época são prova de um sistema que valorizava o rigor intelectual. Michelle Olley, uma delas, escreve hoje de forma incisiva sobre arte e sexualidade. Jane Owen, outra, publicou obras notáveis sobre mulheres na política.

Fomos formados não apenas para escrever ensaios, mas para ler vorazmente. O acto de ler — ler de forma lenta, deliberada, crítica — era, em si, uma disciplina.

De volta ao Huambo, o contraste é gritante. Ali, o ritual estudantil chama-se “ir à estufa” — memorizar o suficiente para passar no teste, despejar a informação no papel e esquecê-la até no semestre seguinte.

Não é um problema unicamente angolano. É um problema de concepção educativa, de acesso ao livro, de pobreza de tempo e de negligência infra-estrutural. Mas também é uma questão de atitude.

A certa altura, confundimos educação com certificados, em vez de pensamento. Deixámos de cultivar o processo paciente e desconfortável da análise crítica.

No ambiente hiper-digital e saturado de dopamina em que vivemos, até uns parágrafos parecem um fardo. TikTok, memes, “reels” — percorremos e percorremos, mas quase nada absorvemos. Temos factos, mas não temos quadros interpretativos. Sabemos o quê, mas não o porquê.

E isso importa — profundamente. Um país não pode construir democracia, inovação ou coragem cívica com base em leitura superficial. Precisamos recuperar a arte de ler — não apenas como exigência escolar, mas como norma cultural. E por leitura, não me refiro apenas a frases inspiradoras ou correntes de WhatsApp.

Falo de leitura sustentada, desafiante, por vezes até aborrecida. Daquela que nos obriga a confrontar a complexidade, a ambiguidade e os limites da nossa própria compreensão.

Não é elitista exigir mais leitura aos jovens angolanos. É, na verdade, uma das atitudes mais democráticas que podemos ter — insistir que todos os cidadãos, independentemente da sua classe ou geografia, tenham acesso a ideias que transformam.

O mundo não está à espera. A economia do conhecimento não se impressiona com fotografias de formatura. Ela recompensa quem pensa criticamente, argumenta com coerência e lê com profundidade.

Por isso, sim, continuarei a escrever ensaios de 700 palavras. Devo-o àqueles que me ensinaram. Às mentes brilhantes que estamos a perder para a mediocridade e a desinformação.

À memória de David Cardiff, às páginas de Colin Sparks, às gloriosas e difíceis horas passadas em bibliotecas universitárias. Escrevo na esperança de que, um dia, a estufa se transforme numa biblioteca.

Que o decorar dê lugar à curiosidade. Que ler, um dia, deixe de parecer castigo — e passe a significar liberdade.

*Jornalista e escritor

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