“A Batalha do Cuito Cuanavale mudou a geopolítica da região austral de África” – Remígio do Espírito Santo
"A Batalha do Cuito Cuanavale mudou a geopolítica da região austral de África" – Remígio do Espírito Santo
general Remígio

Comandante do Pelotão de Tanques no auge da Batalha do Cuito Cuanavale (BCC), com apenas 23 anos de idade, Remígio do Espírito Santo volta ao seu antigo teatro de operações militares, desta vez para partilhar memórias de glórias e conquistas.

Actuamente com 61 anos de idade, dos quais 36 vividos no cumprimento do dever da defesa incondicional do solo pátrio e do seu povo, o actual tenente-general das Forças Armadas Angolanas (FAA) é o comandante da Região Militar Sudeste.

Com a dupla experiência de ter sido comandante militar em tempo de guerra e voltar a sê-lo hoje, em tempo de paz, o oficial valoriza todo o esforço aplicado por si e pelos seus companheiros de trincheira na vitória da BCC, destacando a união, a determinação e a coragem que nortearam as forças naquela altura.

A Batalha do Cuito Cuanavale, travada entre 15 de Novembro de 1987 e 23 de Março de 1988, reúne o consenso de especialistas de que foi o maior confronto militar da guerra civil angolana e o mais prolongado do continente africano, desde a II Guerra Mundial.

Entrevistado pela Angop no quadro dos 36 anos da vitória da Batalha do Cuito Cuanavale, conquistada a 23 de Março de 1988, tenente-general Remígio do Espírito Santo afirma que comemorar a vitória em tempo de paz “simboliza o regresso ao passado, mas com um sabor diferente e a sensação de que valeu a pena todo o sacrifício consentido”.

Homem que esteve sempre no comando das operações, o oficial general faz menção à sua entrada no xadrez da política militar angolana, relata parte dos meandros da guerra e aconselha os jovens militares a investigar mais sobre a Batalha, apostar na formação e ser mais patriotas.

Diz peremptoriamente que, se o Exército sul-africano tivesse saído vitorioso, no Cuito Cuanavale, abriria caminho para a implantação do regime do apartheid noutras regiões de Angola e do continente.

Eis a íntegra da entrevista:

Como entra para o xadrez da política militar?
Depois de terminar o curso de oficial na Escola Gomes Spencer, no Huambo, em 1983, sou colocado, na província do Cuando Cubango, concretamente no município do Cuito Cuanavale, desempenhando a função de comandante do Pelotão de Tanques D55.
Durante esse período, houve uma série de operações e campanhas, primeiro contra as forças militares da UNITA, nos anos 85, 86 e 87 e, finalmente, a Batalha do Cuito Cuanavale, em que apareço como comandante das tropas blindadas.

Foi a primeira experiência militar em termos práticos?
Exactamente.

Já conhecia naquela altura o potencial bélico do Exército sul-africano?
Sabia sim, não na sua profundidade, mas, ao longo dos meus diferentes cursos, estudei aquilo que se chama Exército Inimigo e tive a oportunidade de aprender lições sobre o Exército sul-africano.

Com todo o peso que o Exército sul-africano representava não só para África, mas para o mundo, de forma geral, ainda assim acreditava que Angola tinha oportunidade para vergar o oponente?
Claro que sim. Na guerra, uma das coisas mais importantes para alcançar a vitória é, sobretudo, o moral do pessoal. Não basta ter armas potentes, modernas. Se o pessoal não tiver a convicção da moral de vencer o inimigo nunca irá vencê-lo. Logo, apesar de a África do Sul ter uma superioridade técnica e tecnológica na altura, o nosso moral determinou a vitória no combate.

Comandante, que idade tinha quando entrou na Batalha e de onde conseguiu tanta coragem?
Na altura tinha apenas os meus 23 anos, mas tinha força sim, porque fui preparado ao longo do curso e, antes de entrar para as Forças Armadas, tinha preparação psicológica e moral para enfrentar o inimigo, com certeza.

Fica claro que o amor à pátria e todo o trabalho de educação patriótica exerceram um papel muito importante…
Jogaram sim e continuarão a jogar um papel mais importante ainda. Sabe-se que, naquele tempo, o Dr. António Agostinho Neto (primeiro Presidente de Angola) dizia que: “ao inimigo nenhum palmo da nossa terra” e esse slogan inspirou os angolanos a vencer a guerra.

Do vosso lado estavam combatentes de todas as regiões do país, de todas as províncias?
Tínhamos companheiros de guerra ao nosso lado provenientes de todas as regiões e províncias do país.

Perdeu muitos companheiros?
Na verdade, sim. Principalmente ao longo de todo o percurso de guerra, ao longo das mais variadas operações antes da batalha final, mas, no dia 23 de Março de 1988, data que marcou o culminar do conflito, não tivemos muitas baixas.

No dia 23 em concreto e no advento desse dia, como estavam as condições climatéricas? Será que o terreno em si também facilitou as manobras das forças angolanas?
Como sabe, o terreno da província do Cuando Cubango de forma geral, e do município do Cuito Cuanavale, em particular, é irregular e tem características próprias, com areia e matas fechadas.
Isso, por um lado favoreceu as Forças Armadas de Libertação de Angola (FAPLA), porquanto o Exército opositor tinha dificuldade em alcançar as nossas linhas por causa das características do terreno que era muito arenoso, permitindo que as nossas unidades se organizassem, o que dificultou a aproximação organizada do Exército inimigo.

Para a juventude de forma geral e as tropas da nova geração, qual é o legado que fica?
O apelo é que se dediquem, estudem mais para perceber melhor a maneira como as FAPLA e a juventude daquele tempo venceram o inimigo e que, por outras vias, mormente através das escolas se passe mais informação. Na verdade, a juventude ultimamente prima mais pelo imediatismo. Alguns não vão pelo carácter do amor à pátria, buscam fundamentalmente pelos bens materiais. Mas, a verdade é que, como angolanos que somos, devemos sempre primar pelo amor à pátria.

Olhando para a geopolítica de Angola, caso o Exército sul-africano tivesse tomado o Cuito Cuanavale, qual seria o desfecho?
Caso contrário, ou seja, se o Exército sul-africano tivesse vencido a Batalha e tomado o território do Cuito Cuanavale, usariam o aeroporto local, com a sua aviação de ponta para atingir todas as demais regiões do território nacional, e principalmente a capital, Luanda.
Assim, teriam maior facilidade de continuar a implantar, por meio da força, o seu regime de segregação racial, o apartheid, que já era uma realidade na África do Sul. O alvo seria não só Angola, mas também outras regiões do continente africano.

Vencida a Batalha, é hoje comemorado o Dia da Libertação da África Austral, foi esse o objectivo da luta? Foi cumprido o presságio segundo o qual “Na África do sul, na Namíbia e no Zimbabwe, está a continuação da nossa luta”?
Sim. A Batalha do Cuito Cuanavale mudou a geopolítica da região austral do continente Africano, já que, com o resultado, conseguiu-se, nos anos subsequentes a independência da Namíbia, a libertação de Nelson Mandela e, consequentemente, a extinção do regime do apartheid, para além da independência do Zimbabwe, prova de que o slogan “Na África do Sul, na Namíbia e no Zimbabwe está a continuação da nossa luta” foi materializado.

Voltar ao Cuito Cuanavale num período de paz é como um regresso ao passado com outro sabor?
Exactamente. Basta sair de Menongue (capital do Cuando Cubango) para o Cuito Cuanavale e vice-versa, olhando para a estrada, concluímos logo que, na verdade, foi bom termos alcançado a vitória e também a paz.
O percurso de 189 quilómetros era realizado em 30 dias a meio a muitos perigos, desde o risco de accionar minas, sofrer ataques e emboscadas inimigas, entre outros perigos típicos dos tempos de guerra. Actualmente, com a estrada asfaltada, o percurso é feito em apenas duas horas.

Perfil

O tenente-general Remígio do Espírito Santo é o actual comandante da Região Militar Sudeste das FAA. Tem 61 anos de idade, casado e pai de oito filhos. É estudante do curso Superior de Psicologia.

Fez o curso de cadetes na Escola de Oficiais Gomes Spencer, localizada no bairro Santo António, província do Huambo. Fez formação de nível tático-operativo, em Cuba; o curso de estratégia, na Escola Superior de Guerra, em Luanda; o curso de Comando Estados-Maiores e formação superior na Academia da Federação Russa.

Já exerceu as funções de comandante da VI Região de Infantaria Motorizada, da Região Militar Nordeste, entre outras.

in Angop

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