
As Forças Armadas Angolanas encontram-se hoje profundamente afastadas daquilo que deveria ser a sua missão essencial: servir a pátria com lealdade e integridade. O nível de corrupção que se instalou na instituição tornou-se tão vasto e tão enraizado que já não parece haver horizonte claro para o seu fim.
Durante anos, multiplicaram-se relatos que expõem práticas que desafiam não apenas a hierarquia militar, mas o próprio Estado que as forças armadas deveriam proteger.
A origem deste problema remonta à guerra civil. Foi nesse período que vários oficiais começaram a envolver-se em esquemas de enriquecimento pessoal, muitas vezes à custa da vida de soldados que dependiam das suas decisões.
Centenas de militares foram colocados em risco por interesses privados, e muitos nunca regressaram. O que começou como oportunismo em tempos de conflito transformou-se numa cultura de impunidade que atravessou gerações e se mantém até hoje.
Criou-se uma verdadeira cortina de ferro dentro da instituição: um núcleo privilegiado que saqueia recursos públicos sob o silêncio de quem deveria impor disciplina e restaurar a legalidade.
Esta corrosão alastrou a todos os níveis da estrutura militar, afetando processos de promoção, atribuição de bolsas de estudo, subsídios destinados às famílias de militares falecidos e até a distribuição de bens alimentares.
Em alguns regimentos, chegaram a surgir esquemas envolvendo comandantes e soldados na venda clandestina de sucata de veículos militares, transacionada a preços irrisórios como se o património do Estado fosse propriedade privada.
O impacto desta realidade não se limita ao interior das fileiras. Ele fragiliza a confiança pública, compromete a segurança nacional e perpetua um ciclo de desigualdade e injustiça. Quando a corrupção se normaliza, a meritocracia desaparece, a disciplina degrada-se e a própria ideia de serviço à nação perde significado.
Perante este cenário, a pergunta impõe-se com urgência e gravidade: onde estão os órgãos que deveriam, de forma firme e definitiva, pôr termo a estas práticas? E até quando continuará a persistir um sistema que mina a credibilidade das forças armadas e o futuro do país?
Em 2025, várias fontes internacionais noticiaram um conjunto de purgas no interior das forças armadas chinesas, justificadas pelas autoridades como uma tentativa de preservar a “pureza” e a “honra” do Estado.
De acordo com informações divulgadas pela RTP, altos responsáveis militares e civis foram afastados, incluindo o general He Weidong, até então vice-presidente da Comissão Militar Central — o órgão máximo de comando das forças armadas — e o almirante Miao Hua, antigo chefe do trabalho político do Exército.
Ambos, entre outros oficiais, foram acusados de aceitar subornos de grande escala e aguardam julgamento, enfrentando possíveis penas severas previstas na legislação chinesa.
Quando o Estado permite que oficiais militares acumulem funções empresariais, cria-se um terreno fértil para conflitos de interesse e para a erosão da integridade institucional. Quando essa fronteira se esbate, é porque a própria estrutura estatal já se encontra permeável à corrupção.
Em Angola, multiplicam-se relatos inquietantes sobre militares que, em vez de se dedicarem exclusivamente à defesa da nação, se lançaram no mundo empresarial, muitas vezes através de sociedades criadas com parceiros estrangeiros. Esta aproximação entre farda e negócio não só levanta suspeitas, como coloca em risco a própria segurança do país.
Entre esses parceiros externos, podem esconder-se agentes infiltrados, indivíduos com interesses obscuros que encontram, na cumplicidade de certos oficiais, uma porta aberta para influenciar ou fragilizar estruturas estratégicas.
A situação torna-se ainda mais grave quando surgem denúncias de que direitos fundamentais de soldados foram alegadamente violados sob a proteção da influência das chefias militares.
Em alguns casos, militares subalternos foram pressionados a prestar serviços de segurança privada nos estabelecimentos comerciais dos seus superiores, como se a hierarquia castrense pudesse ser usada para fins particulares.
Assim, a autoridade das forças armadas — que deveria ser um símbolo de disciplina, honra e serviço público — mistura-se perigosamente com interesses privados, criando um ambiente onde a fronteira entre dever nacional e ambição pessoal se torna cada vez mais ténue.
Este cenário levanta questões profundas sobre integridade institucional, controlo interno e vulnerabilidade estratégica. Quando a farda se transforma em instrumento de negócio, quem protege verdadeiramente o país?
Esta sobreposição de papéis — militar, político e empresarial — levanta questões profundas sobre transparência, responsabilidade e separação de poderes. Quando estruturas armadas passam a atuar como agentes económicos, o risco de abuso de autoridade aumenta, e a confiança pública nas instituições tende a deteriorar-se.