“A diplomacia angolana está a fazer um verdadeiro jogo de cintura” – Osvaldo Mboco
"A diplomacia angolana está a fazer um verdadeiro jogo de cintura" - Osvaldo Mboco
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O professor de Relações Internacionais Osvaldo Mboco disse que a diplomacia angolana está a fazer um verdadeiro “jogo de cintura” para salvar o acordo de cessar-fogo, e isto é visível pela deslocação do Presidente Cyril Ramaphosa a Angola, a ligação telefónica entre o Chefe de Estado angolano e o secretário de Estado norte- americano, Antony Blinken.

De igual modo, o docente exemplificou a visita de trabalho que o Presidente João Lourenço realizou, na segunda-feira, a Kinshasa, para consultas e articulação política dos passos que devem ser dados para o êxito do cessar-fogo.

O também analista de Política Internacional refere que a visita de João Lourenço a Kigali não se traduziu simplesmente num acto simbólico de testemunhar a investidura do homólogo Paul Kagame.

“Foi, também, um momento de diálogo político ao mais alto nível entre os Chefes de Estado, no sentido de abordar os esforços que devem ser feitos no terreno para materializar o cessar-fogo, atendendo que o Rwanda é um actor importante nesta equação”, sublinhou.

Quanto ao facto de o M23 enaltecer a iniciativa de cessar-fogo e ao mesmo tempo exigir diálogo directo, Osvaldo Mboco afirmou que a situação pode ser interpretada de duas formas: por um lado, a exigência de um diálogo directo pode ser vista como uma abertura para negociações, sugerindo que o M23 está disposto a encontrar uma solução pacífica se as suas exigências forem atendidas.

O também mestre em Gestão e Governação Pública, na especialidade de Políticas Públicas, entende que “esse gesto” pode também ser “uma manobra para ganhar tempo e permitir que os rebeldes consolidem as suas posições territoriais, enquanto exploram outras oportunidades estratégicas”.

Silêncio do Rwanda

Para Osvaldo Mboco, “o silêncio do Rwanda pode ser, também, interpretado como uma estratégia deliberada para evitar assumir responsabilidade directa pelas acções do M23”.

O analista de Política Internacional considerou que “a recusa do Presidente Félix Tshisekedi em dialogar com o M23 pode ser vista como uma tentativa de manter uma posição de força e não de legitimar os rebeldes como interlocutores políticos”.

Essa postura, segundo Mboco “pode ser arriscada, especialmente se a situação militar no terreno for desfavorável ao Governo congolês”.

“Negar o diálogo pode limitar as opções diplomáticas disponíveis e prolongar o conflito. Por outro lado, Félix Tshisekedi pode estar a tentar fortalecer a sua posição negociadora para forçar o M23 a aceitar condições mais favoráveis ao Governo”, disse.

Fim do conflito

Para o fim do conflito no Leste da RDC, segundo Osvaldo Mboco, é necessária uma combinação de medidas políticas, diplomáticas e de segurança. Primeiro, indicou, é essencial que todas as partes envolvidas no conflito, incluindo grupos rebeldes e Estados vizinhos como o Rwanda, sejam incluídas num processo de paz abrangente e que deve privilegiar a estratégia de defesa colectiva.

Para reforçar a possibilidade de cumprimento das medidas, segundo o analista de Política Internacional, urge a criação de mecanismos de monitoramento para garantir o cumprimento dos acordos, tal como se pretende fazer agora com a chamada Comissão Ad Hoc de Verificação Reforçada, ao lado de maior comprometimento da comunidade internacional em termos de apoio logístico e inteligência, no sentido da troca de informações privilegiadas e financiamento para fortalecer o processo.

Mediação de Angola

Relativamente aos esforços de mediação de Angola, Osvaldo Mboco entende que a mesma “enfrenta várias dificuldades, desde a complexidade do conflito, interferência externa, fragilidade institucional na RDC, desconfiança entre as partes, recursos limitados por parte do Estado angolano e as trocas de acusações entre o Rwanda e a RDC, que minam ou comprometem os esforços da mediação angolana”.

in JA

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