A era da intoxicação digital – José Otchinhelo
A era da intoxicação digital – José Otchinhelo
telemovel

Da máquina de Gutemberg à Inteligência Artificial, as tecnologias – com realce para as digitais – provocaram inúmeras transformações positivas no ambiente social, laboral e até familiar, em momentos de graça ou de grandes apuros da humanidade, como guerras, pandemias (recentemente, a da Covid-19) e outras mazelas sociais.

A resiliência humana, a capacidade de se adaptar aos novos contextos (novo normal), permitiu a criação de meios e técnicas – incluindo – de comunicação, mais eficazes.

Acelerou a digitalização de praticamente tudo e, no caso da Covid-19, a distância deixou de ser um problema com a formalização do teletrabalho e as famílias, que não podiam estar juntas, tinham, agora, as redes sociais e outras ferramentas para a sua interacção.

No entanto, a par da melhoria das técnicas e processos laborais, da capacidade de se comunicar por voz, vídeo e texto, da melhoria do funcionamento de aparelhos já existentes ou criados no espírito da inovação e criatividade digitais, essas transformações afectaram, directamente, a forma de ser e estar das pessoas, principalmente, crianças e adolescentes. Para ser mais preciso, invadiram o eu pessoal e, usadas sem moderação, alteram o comportamento dos indivíduos.

Por isso, nos últimos tempos, não são poucos os especialistas de várias áreas do saber que alertam sobre os perigos das telas (sejam de televisores, telemóveis ou tablets), já que os estudos mostram que até bebés, não só são expostos ao áudio visual, como se viciam neles.

Não é sem razão que, em alguns países, essas ferramentas que foram muito elogiadas num passado recente – quase endeusadas –, com os Governos a promoverem cursos gratuitos sobre as TIC para os seus funcionários e não só, estejam, agora, a ser consideradas como inimigas da saúde mental.

Esses avisos de especialistas ligados à Neurociência, à Medicina, à Educação, à Comunicação e outras especialidades que lidam com o comportamento humano, devem-se aos efeitos colaterais da dependência desses equipamentos de interacção social, bem como do excesso de informação produzidos nessas plataformas digitais.

Entre as consequências, podemos alistar a irritabilidade, a síndrome de abstinência (na ausência do aparelho), depressão, perda de sono, alteração do humor, vazio existencial, problemas visuais, auditivos e comportamentais na família, na escola e na sociedade em geral. A lista dos riscos associados ao uso compulsivo das telas é extensa.

Devido a esses e outros riscos, há escolas e países que ponderam ou já proibiram mesmo a utilização de telemóveis por alunos do Ensino Primário e Secundário no recinto escolar, sinalizando, assim, que as desvantagens do uso descontinuado dos telemóveis começam a pesar mais do que as vantagens na vida dos cidadãos, independentemente da idade, por estar a alterar as dinâmicas sociais e pessoais, por disseminar de forma vertiginosa a fofoca, a desinformação e as fake news; por alegadamente estar a baixar o QI das novas gerações, por tornar muitos cidadãos em dependentes digitais.

Deste modo, podemos dizer que o uso desregrado do digital, independentemente do tipo de efeito que venha a causar no utilizador, tem um denominador comum: intoxicação digital.

O excesso de informação e as suas consequências está a levar que Governos criem políticas públicas de racionalização do uso das telas. Os cidadãos precisam de aprender a usar esses meios – tão úteis para a vida – de forma equilibrada.

Mais do que as famílias, que muitas delas, dentro de casa, estão ilhadas nas redes sociais – pai, mãe e filhos – cada um no seu ambiente virtual, demonstrando que também precisam, inequivocamente, do apoio social para voltarem ao antigo normal, os Governos, por meio das políticas públicas voltadas para essa causa, podem ajudá-las.

Sem saúde mental, dificilmente temos a verdadeira realização enquanto pessoas e nação. Por isso, apostar na educação para uma cidadania responsável e saudável nas redes sociais é um investimento para o bem-comum que não deve ser ignorado.

A rádio e a televisão jogam um papel crucial nessa equação, desde que os programas ou micro-programas sejam dirigidos por profissionais que não só são jornalistas, mas que dominam os meandros da comunicação de políticas públicas e de estudos dos media, para que as mensagens cheguem aos destinatários sem estar enviusada ou com insuficiências.

Embora os Governos tenham responsabilidades acrescidas, nesse caso concreto, as escolas também devem introduzir nos temas transversais, o mal que a dependência digital provoca na mente humana. A maioria dos alunos (crianças e adolescentes), são nativos digitais. Logo, é importante que a escola debata esse problema, que é, muitas vezes, mal abordado em casa.

O ideal é serem especialistas a abordar essa temática, que parece fácil, mas que é tão complexa, já que envolve as emoções, o apego, a liberdade e o sentimento de pertença a um determinado grupo. Mas, não havendo na escola, pode vir de fora, e se, mesmo assim, não for possível, nada impede que os professores abordem essa temática.

A dependência digital é tão nociva como são as drogas e deixar crianças, adolescentes e adultos simplesmente mergulharem no ambiente virtual, sem saberem que podem se tornar dependentes é não lhes dar a oportunidade de decidirem com cidadania o tempo que passam nas redes sociais.

Tal como a privacidade física, a mente precisa de privacidade, numa altura em que as redes sociais e as demais tecnologias digitais estão sempre a bombardear as mentes dos usuários com milhares de informações que sufocam a própria mente. E isso, deve preocupar a todos.

*Consutor de Comunicação e de Educação

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