
Desde o início da transformação do mundo, vivemos várias eras: das cavernas, da electricidade, da aviação, da moda, entre outras. Actualmente, vivemos a era digital, marcada por uma nova ordem de coisas e pela sua indispensabilidade em diversos contextos.
A era digital proporciona, em teoria, desenvolvimento económico, financeiro e social sustentável. No entanto, em Angola, esta promessa ainda não foi concretizada.
No contexto digital, quase tudo o que fazemos é mediado por ferramentas divididas entre hardware (smartphones, tablets e computadores) e software (websites e aplicações), que operam de forma interdependente. É a combinação destes elementos que impulsiona a produção, distribuição e consumo no mundo digital.
Embora essas ferramentas tenham transformado dispositivos como smartphones em verdadeiras ferramentas de trabalho, Angola enfrenta desafios significativos no aproveitamento das oportunidades oferecidas pela era digital. A aglomeração de utilizadores em plataformas locais continua a ser um desafio ignorado por muitos.
Enquanto outros países adaptaram-se à era digital, Angola tem focado em aspectos menos desafiadores, ignorando que é na complexidade dos sistemas digitais que residem os maiores benefícios económicos e sociais.
A dependência de plataformas digitais sediadas fora do país resulta em prejuízos financeiros em divisas, exclusão digital e limitação das oportunidades de emprego e autoemprego.
A era digital teve início globalmente entre 1950 e 1970, mas Angola só começou a aceder à internet por volta de 1996. Apesar dos avanços tecnológicos e dos investimentos públicos e privados realizados nos últimos anos, não há, até hoje, uma plataforma digital angolana capaz de prestar serviços em grande escala e ser amplamente reconhecida pelos mais de 11 milhões de utilizadores de internet do país.
Em Angola, a prestação de serviços digitais continua quase exclusivamente dependente de plataformas estrangeiras como Facebook, Instagram, YouTube e TikTok. Isso implica que pagamentos sejam realizados em divisas, através de cartões Visa, excluindo aqueles que não têm acesso a esses meios de pagamento e limitando as oportunidades de utilização sustentável das ferramentas digitais disponíveis.
Ao contrário de outras partes do mundo, onde o sector digital impulsiona economias, gera emprego e representa um orgulho nacional, em Angola continua a ser encarado como um negócio de subsistência.
Esta situação é agravada pela falta de visão estratégica no sector. O progresso do país e das milhões de pessoas que dependem da era digital está frequentemente condicionado à visão limitada e às decisões de uma única figura, o Ministro responsável.
O ecossistema digital angolano é refém de interesses pessoais, impedindo avanços que poderiam transformar a era digital numa solução para os desafios económicos e sociais do país.
28 anos depois do acesso à internet, Angola permanece numa posição de dependência digital, incapaz de transformar o potencial da era digital numa realidade económica, financeira e social sustentável.
O digital, que deveria ser uma solução, continua a ser um problema económico, financeiro e de exclusão digital comercial.
*Empresário