
Esses dois militantes do MPLA, destacaram-se, nos últimos dias, por atitudes pouco usuais, entre a maioria esmagadora, nas hostes do mplianismo.
Um, o escritor Fragata, com declarações muito fortes contra o sistema e, especialmente, visando o actual presidente do partido e PR João Lourenço, responsabilizando-o pelo descalabro que o país vive hoje, particularmente no que diz respeito à fome e miséria das populações.
Que embaraços não deve ter provocado à talentosa Dina, do Sexto Sentido, na tão bem controlada TVZImbo?!
O outro, o professor Paulo de Carvalho, por uma chamada ao bom senso na Assembleia Nacional, em relação à composição da CNE, ao encontro das teses da principal oposição.
Pessoalmente, também lhe destaquei, a este último, uma chamada que fazia nas redes sociais, em relação à necessidade de refletirmos, nos festejos da nossa independência, sobre se nós (a elite governante, há 50 anos – minha especificação) o que “temos realmente feito” é “em prol do sofrido povo de Angola” ou apenas em “prol do nosso umbigo”.
Preocupa-me que logo se soltaram vozes, do lado mesmo dos que, aparentemente, almejam a mudança positiva, críticas no sentido de que aqueles dois deviam ficar calados, porque foram coniventes, durante anos, com tudo o que acontece de mal, hoje.
Devo dizer que é este o dilema com que me defrontei durante muitos anos, desde que há quase 30 anos passei a criticar, do modo construtivo, o sistema que foi sendo implantado no país, contra as normas aprovadas em 1991/92, depois de Bicesse.
Apareço, pois, para dizer que é essa uma das razões que faz muitas vozes úteis ficarem caladas. E para opinar que no longo caminho que temos para contribuir para a estabilização ética e moral, política, económica e social do nosso país, deveremos saudar (e não repelir) aqueles que se juntam à voz da razão.
Quantas vezes o não fizeram antes por circunstâncias que os superavam!?
É um pouco parecido com o que aconteceu durante a luta de libertação nacional, conduzidas por três movimentos angolanos. Muitos, confundindo a luta pela independência com um combate racial, achavam que brancos e até mestiços não deviam participar nela. Não tiverem razão.
Também, no meu tempo da juventude, quando os movimentos de libertação chegaram às cidades, alguns achavam que aqueles de nós que não participamos nos tiros, antes do 25 de Abril, devíamos ser preteridos na acção política. A história revelou que isso era um nonsense.
*Antigo secretário geral do MPLA e Primeiro-Ministro