
O romance Rainha Ginga, do escritor angolano José Eduardo Agualusa, não tem o pulsar do Ndongo. A obra é um olhar de fora para dentro, o título um equívoco. Njinga Mbandi tem uma presença lateral, de coadjuvante.
A narrativa é conduzida por um padre brasileiro, personagem central, que trai a corte portuguesa e o clero para servir ao Dongo (assim grafado por Agualusa). Kiluanji, provavelmente o maior dos Ngola, surge como “Quiluanje”. E Njinga foi transmutada para “Ginga”.
São opções estilísticas, compreendo, mas que a mim causam ruídos na leitura. Há ali uma espécie de quebra ou corte com um certo imaginário linguístico e cultural.
Quando comparado com o romance de Manuel Pedro Pacavira (Nzinga Mbandi, a rainha guerreira), este último não possui a elegância estética do primeiro, mas ganha pela densidade simbólica e cultural.
O texto de Pacavira emerge do interior, do imaginário do Ndongo, e isso faz toda a diferença, como se lê numa passagem: “Ela não era só rainha de espadas e lanças. Era a árvore-mãe do seu povo. Os anciãos falavam nela como quem fala com os espíritos.”
Em “O Planalto e a Estepe“, de Pepetela, por exemplo, a História de Angola é contada com ironia e crítica, mas as personagens angolanas são sujeitos do seu destino. Como diz a personagem Kiambote: “não se faz independência com bandeira na mão e alma na mão dos outros.”
Tal também é verificável, entre outros tantos textos, no épico “Os Sobreviventes da Noite“, de Boaventura Cardoso. Os traumas da escravatura e da luta pela liberdade “são contados em clave simbólica angolana, a mitologia bantu dialoga com a história”, segundo apreciação de um estudioso do tema.
São obras que reconstroem “a memória histórica a partir do chão cultural africano, e não de uma lente externa”, como se vislumbra em Agualusa. Essa diferença de posicionamento revela algo maior: a disputa de narrativas sobre a história de África.
Em Rainha Ginga, de José Eduardo Agualusa, o mérito de Njinga Mbandi claramente depende de um brasileiro. Contudo, no imaginário angolano e no da diáspora africana, a soberana do Ndongo e da Matamba é símbolo de resistência, pensamento soberano e astúcia diplomática.
No Brasil, Njinga é frequentemente evocada como símbolo de ancestralidade e resistência nos espaços de afirmação da identidade negra. Escritoras brasileiras como Conceição Evaristo e Jarid Arraes colocam-na entre as figuras centrais do panteão feminino negro.
A escritora Jarid Arraes, no livro “Heroínas Negras do Brasil“, apresenta-a como “rainha feroz que enfrentou o Império português com altivez” e que serve como exemplo para as jovens negras na luta contra o racismo estrutural no seu país.
Nos terreiros de Candomblé, espaços de culto brasileiro de matriz africana, ela é associada à Iansã e à Obá, deusas guerreiras que regem os ventos e as batalhas.
Nos Estados Unidos da América, estudiosas como Alexis Pauline Gumbs e Saidiya Hartman destacam Njinga como um arquétipo de liderança insurgente negra, alinhando-a às estratégias de sobrevivência e reinvenção forjadas pelas mulheres negras ao longo da história.
O imaginário Njinga atravessa o Atlântico, símbolo de dignidade, astúcia e poder feminino negro. E por isso a sua bravura e liderança deve ser contada com o pulsar do seu povo, o Ndongo, a terra dos ambundo, nação heróica e resistente.
Contudo, sempre vale a leitura de Rainha Ginga, de José Eduardo Agualusa, nem que seja para se pensar nas formas como nos escrevem ou nos reescrevem.
*Jornalista