
Meury foi a primeira. Arranjou um namorado que lhe dava tudo o que precisava: um carro novo, uma casa mobilada e ainda depositava, todos os meses, 200 mil kwanzas como mesada. Para quem vinha de um bairro pobre como o Avô Kumbi, parecia que o gueto finalmente tinha vencido na vida.
As amigas, Judith e Mônica, que também enfrentavam dificuldades, começaram a reparar na mudança. Já não era a mesma Meury: sempre bem-vestida, perfumes caros, cabelos tratados nos melhores salões de beleza da cidade de Luanda. Um dia, não resistiram e perguntaram:
— Mana Meury, afinal, quem é esse teu namorado que te dá tudo sem falta?
Ela, depois de hesitar, abriu o jogo:
— É um cidadão nigeriano, comerciante de peças de automóveis num dos mercados do país.
Ao ouvir isso, Judith e Mônica decidiram também procurar um nigeriano para lhes mudar a vida. Dirigiram-se ao mercado dos Correios, no município do Kilamba Kiaxi, em Luanda, um dos pontos onde muitos deles negociam.
Identificaram dois homens que pareciam ter posses, criaram amizade com eles e, em pouco tempo, já estavam em visitas frequentes, ligações telefónicas constantes e presenças inesperadas. O passo seguinte foi inevitável: tornaram-se namoradas.
Tal como Meury, também elas viram a vida dar uma volta de cento e oitenta graus. Conseguiram casas, carros e recebiam, todos os meses, envelopes recheados.
No bairro do Avô Kumbi, somente elas brilhavam: roupas novas, maquilhagem de marca, viagens à praia e festas com música alta. Mesmo depois de terem saído dali, continuavam a aparecer no bairro, exibindo luxo.
Mas o encanto não durou. Sem qualquer motivo aparente, os nigerianos começaram a afastar-se. Primeiro, deixaram de ligar. Depois, disseram simplesmente que o namoro tinha acabado.
As moças, no início, não ligaram. Afinal, já tinham vida feita: casas, carros, roupas e algum dinheiro guardado. Porém, em menos de três meses, tudo começou a desmoronar.
As três ficaram doentes de forma estranha, com sintomas que os médicos não conseguiam explicar claramente. Usaram todo o dinheiro que tinham guardado em tratamentos.
Quando já não tinham mais, começaram a vender os carros. Mais tarde, as casas. Mesmo assim, a saúde e a beleza deterioravam-se. Magras, desfiguradas, sem brilho no olhar, já não eram reconhecidas.
Desesperadas, abriram-se com uma tia de Mônica, mulher mais velha e respeitada no bairro. Contaram-lhe tudo: desde como conheceram os nigerianos até ao estado em que se encontravam.
A tia, depois de escutar atentamente, abanou a cabeça e disse:
— Minhas filhas, na vida não se pode correr mais do que os pés. Vocês quiseram resolver a vida num estalar de dedos, sem esforço, sem sacrifício, sem trabalho. Esses homens não vos deram nada de graça. Eles trabalharam com a vossa sorte. Há técnicas antigas que muitos deles usam: ficam com roupas íntimas, cabelos, unhas, saliva… tudo para vos amarrar espiritualmente e usar a vossa energia nos negócios deles. Enquanto estavam com eles, brilhavam porque a vossa força vital estava a ser explorada. Quando vos largaram, deixaram-vos secas. Já vi muitos casos iguais. Algumas moças até perderam a vida. Vocês, pelo menos, ainda estão aqui.
Mônica, chorando, interrompeu:
— Tia, eles ficaram com as nossas roupas íntimas. Mas nunca nos disseram para quê.
A tia respondeu firmemente:
— Não te preocupes, isso pode ser cancelado. Vou levar-vos a pessoas que sabem desfazer essas coisas. Mas aprendam de uma vez: todo homem ou mulher que entra num relacionamento apenas pelo interesse de ter vida boa, sem amor e sem dignidade, mais cedo ou mais tarde acaba mal. O mundo espiritual não se brinca. Esses estrangeiros, muitos deles, fazem rituais com as namoradas: sacrificam a vossa beleza, a vossa saúde e até a vossa fertilidade em troca de riqueza rápida.
Fez uma pausa, olhou bem para as três e concluiu:
— Se querem vida de luxo, estudem, trabalhem, batalhem. Quem vive de imitar os outros, quem corre atrás da ilusão, acaba sempre enganado. Agora, é preciso paciência, fé e humildade para que voltem a recuperar a saúde, a estrutura física e até a beleza. E lembrem-se sempre: mais vale dormir tranquila numa esteira do que viver num palácio construído com sofrimento interno.
Foram muitas semanas de tratamentos, banhos e rezas até que as três conseguiram recuperar a saúde. Aos poucos, voltaram a ter força, aparência e bem-estar.
Actualmente, elas contam esta história aos mais novos: quem procura riqueza rápida e sem esforço acaba, mais cedo ou mais tarde, por pagar um preço elevado.
Que esta história sirva de lição para todos nós.
Att.: Imagem meramente ilustrativa.
*Pintor de letras