A hora e a vez das Staffs – Kumuenho da Rosa
A hora e a vez das Staffs - Kumuenho da Rosa
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A palavra staff é um termo em língua inglesa que significa “pessoal”, recursos humanos ou grupo de pessoas afecto a uma mesma organização. Mas essa palavra que, por sinal, não tem equivalente na língua portuguesa, ganha outro significado nos dias que correm, especialmente na periferia de Luanda.

O exército de mulheres que pulula pelas artérias da nossa cidade capital, vendendo loiça, peças de roupa, chinelos, enfim, é, na verdade, parte de um grupo numeroso de senhoras, na sua maioria donas de casa, viúvas, mães solteiras ou até estudantes, organizadas nas chamadas “placas”, em função da localização do ponto do seu ganha-pão ou da dimensão do desafio que elas enfrentam no dia-a-dia, enquanto comunidade.

A Staff é accionada tanto para repor o produto da venda perdido nas refregas diárias com os fiscais, como para acudir “as manas” numa situação de catástrofe, como os recentes incêndios que reduziram a cinzas os produtos das vendedoras do mercado da Asa Branca ou da “Praça da mulher”, no Cazenga.

A staff funciona como espécie de organização mutualista, mobilizando recursos para ajudar quem esteja a passar por um momento difícil. Os cânticos, as danças, os jargões novos em jeito de sátira e crítica social, são a parte visível de um grupo que actua de forma marginal, no bom sentido, claro, mas que demonstra uma capacidade de resposta só comparada a grandes organizações.

Em sociologia, explica-se pela forma espontânea como um grupo social formado por mulheres vendedoras, decide enfrentar, em conjunto, um grande desafio ou um conjunto deles, em função da sua importância e grau de complexidade.

A staff é accionada se um membro perde um parente, reunindo bens e valores monetários para ajudar no óbito, ou quando um membro precisa de retomar a actividade após paragem por doença ou gestação.

É incrível o espírito de camaradagem e de irmandade que impera nestes pequenos núcleos que proliferam pela periferia de Luanda, e que ganham cada vez mais expressão, na medida em que cresce o número de pessoas em situação de carência.

Os estudiosos destes fenómenos têm aí uma boa matéria para ajudar-nos a compreender o que realmente se passa, para que as instituições possam exercer o seu papel.

Podemos considerar minimamente expectável que organizações nacionais com histórico nestas lides do apoio social, conhecidas como tradicionais parceiras do Governo, na materialização da acção social do Estado, estejam mais atentas a esses fenómenos, pois tocam-nos a todos.

Não se pode falar de uma desoneração generalizada de responsabilidades, porque vemos, apesar dos apertos de ordem financeira, que existem associações e empresas sem mãos a medir quando o assunto é responsabilidade social.

Mas, ainda assim, seja como empresa, do sector público ou privado, seja como organizações sociais do tipo associativo, estamos ainda longe do mínimo exigível em termos de capacidade de resposta na missão que a todos incumbe de participar na materialização do bem-estar social.

Quanto às Staffs, as muitas que proliferam pela periferia de Luanda, surgem como uma forma de organização social, assente em valores como irmandade, justiça, humanismo e solidariedade. Timidamente, elas vão tendo influência no comportamento social das instituições do Estado, às vezes condicionando-as, outras vezes anulando-as, simplesmente.

As Staffs podem ser analisadas numa outra perspectiva. A do seu papel provedor para os membros em situação de carência ou de necessidade, num exercício mutualista, que leva a questionar a capacidade de se reinventar das instituições ditas tradicionais deste ramo da actividade financeira.

O surgimento das Staffs atesta a capacidade resiliente da mulher angolana, mas também vem demonstrar que a independência feminina e o cada vez maior número de famílias sustentadas por mulheres são já realidades insofismáveis em Angola.

*Jornalista

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