
A verdade é social. Antiga. Transversal. Ei-la: onde há proveito, há companhia. Enquanto há mel, há abelhas. Enquanto és útil, és próximo. Quando o interesse acaba, a atenção desaparece. Falando depressa e bem: As pessoas interessam-se por nós até deixarmos de servir os seus interesses.
Carolina Cerqueira entrou para a política pela mão da jornalista de Ilda Carreira, ainda nos seus verdes anos como jornalista da Rádio Nacional de Angola (RNA). Passou pela OMA. Entrou no partido no poder.
Durante o consulado de José Eduardo dos Santos, foi deputada e ministra. A influência de Dom Alexandre Cardeal do Nascimento foi determinante. Era sua sobrinha. Isso contou.
Em 2017, João Lourenço chegou ao Palácio da Cidade Alta. Nomeou Carolina Cerqueira ministra de Estado para os Assuntos Sociais. Teve voto na reabilitação política de Fernando Miala, então director-geral do SINSE, a par de Eugénio Laborinho.
Pouco depois, foi promovida a presidente da Assembleia Nacional, um dos órgãos centrais da soberania do Estado. No Parlamento, destacou-se pela defesa sistemática de João Lourenço. Fê-lo nos debates. Fê-lo sem ambiguidades. Repetia que o Presidente da República era chefe de todos, inclusive dos deputados.
A amizade entre Carolina Cerqueira e João Lourenço vem de longe. Dos anos oitenta. Dos convívios políticos em Luanda. Das festas organizadas por ela e pelas irmãs para quadros do partido e das FAPLA, num apartamento nos arredores do Alto das Cruzes.
Foi aí que se conheceram. A relação atravessou décadas. Tudo mudou quando Carolina Cerqueira ousou dizer não.
Disse não a um terceiro mandato de João Lourenço. Defendeu múltiplas candidaturas no próximo congresso do MPLA. Fê-lo enquanto presidente do Parlamento. Pagou o preço.
João Lourenço tratou do assunto dentro do partido. Com método. Com eficácia. Defenestrou-a da liderança da Assembleia Nacional. Sem explicações públicas. Sem memória política. Sem consideração pessoal.
Carolina Cerqueira arriscou a vida para levar “lanches” a João Lourenço, nos fins de semana, quando este era Comissário Provincial do Moxico, em 1983, em pleno período de guerra.
Fê-lo por amizade. Por lealdade. Uma lealdade que acabou em saco roto. Paga com desconsideração. Ingratidão pessoal e política. João Lourenço afastou-a sem respeito. Sem consideração. Sem gratidão. Sem olhar para trás.
Hoje, Carolina Cerqueira é símbolo de uma lealdade traída. O seu futuro político é incerto. Caiu por dizer não. Caiu por quebrar a unanimidade. Caiu por lembrar que o poder tem limites.
Na política angolana, a mensagem é clara: Quem pensa, paga. Quem discorda, cai. Quem deixa de ser útil, é descartável. Mecanismos do poder. A amizade não conta.
A história não pesa. A lealdade não protege. Resta a lição. Crua. Inevitável. No poder, não há memória. Há interesse. Carolina Cerqueira leva consigo uma verdade amarga da vida política: A lealdade também se abate
*Jornalista