A maka ainda prevenível nas Lundas – Faustino Henrique
A maka ainda prevenível nas Lundas - Faustino Henrique
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Embora tenha passado, aparentemente, despercebido noutras regiões do país, no domingo, a cidade de Saurimo testemunhou um enfrentamento entre populares e a Polícia Nacional, alegadamente por causa de uma tentativa de manifestação, que culminou na detenção de mais de 100 pessoas.

Pelas redes sociais, “choveram” inúmeras versões e inclusive alguns vídeos em que eram audíveis vozes a fazer referência ao autoproclamado “Protectorado Lunda Cokwe”, uma organização que se quer como espécie de representante dos povos do Leste.

Não ficou claro, nem para a Polícia Nacional, a julgar pelo comunicado emitido em Saurimo, assinado pelo superintendente Florêncio Óscar de Almeida, quais foram as motivações do ajuntamento que acabou disperso e com detenção de mais de 100 pessoas.

Mas, partindo do princípio de que se tratam de manifestações com um cunho sociopolítico, espontâneo das populações em Saurimo, politicamente aproveitada pelos representantes do autoproclamado “Protectorado Lunda Cokwe” ou directamente promovidas por este último, ocorre fazer algumas considerações, tendo como exemplo outras realidades africanas.

Mas abro um parêntesis, para voltar ao autoproclamado “Protectorado Lunda Cokwe”, cujo nome está, de alguma maneira, associado a actos populares semelhantes aos de domingo.

É verdade que, quanto ao autoproclamado “Protectorado Lunda Cokwe” e os seus desígnios, vale lembrar que, no ano passado os representantes dos povos do Leste de Angola, reunidos na sala de reuniões da casa da Juventude do Governo Provincial do Moxico, tinham realizado o denominado de 1º Encontro Provincial Conjunto das Autoridades Tradicionais das três etnias “Mwene Civweka, Luvale, Lutchazes e Lunda-Ndembo” Kanongesha”, em que repudiavam o grupo.

No documento, lavrado na reunião, que se encontra disponível online, com a data de 21 de Julho, tinham desmistificado, claramente, as pretensões da organização liderada por Jota Filipe Malaquito, que se proclama como suposta representante de todos os povos do Leste.

No referido 1º encontro Provincial conjunto das autoridades tradicionais das três etnias “Mwene Civweka, Luvale, Lutchazes e Lunda-Ndembo” Kanongesha”, contrariamente aos pronunciamentos do “Protectorado Lunda Cokwe”, que se diz representar todo o Leste de Angola, ficou claro que as “suas reivindicações” e suposta “jurisdição” não se estendem além das duas províncias nortenhas, até ver.

De qualquer modo e voltando às considerações que se impõem, vale dizer que os vídeos que “choveram” sobre o que ocorreu em Saurimo, a faixa etária dos participantes, os dizeres, a abordagem policial e tudo o que isto implica, demonstram que precisamos, com muita urgência, de mudar o quadro de falta de diálogo, sensibilização e resolução dos principais problemas de natureza social e económica.

Dizer que os aproveitamentos que determinados segmentos podem retirar do actual estado de coisas, em que, inclusive manifestações populares, legítimo tubo de escape que deviam, dentro da legalidade e comunicação prévia às autoridades, ser devidamente geridas e acauteladas, não precisam de respostas que aumentem prejuízos e reduzem benefícios, acirrem mais os ódios e afugentem o campo do díalogo.

Mais do que “tentar abafar” as tentativas de populares que se queiram manifestar, inclusive para evitar aproveitamentos de natureza política, é preferível que haja espaço para que determinados segmentos marchem pacificamente, sempre em respeito às leis, às autoridades, bens públicos, ordem, segurança e tranquilidade públicas.

Mil vezes gerir um quadro em que os diferentes grupos se possam manifestar pacificamente, promovendo a pedagogia do exercício dos direitos, liberdades e garantias fundamentais, em detrimento do sufoco que estas iniciativas tendem a enfrentar e, não raras vezes, com a tendência para a evolução violenta das mesmas.

Sem qualquer analogia, mas obviamente sempre com a perspectiva de que “a história tende a repetir-se, pelo menos, duas vezes”, no seu todo ou em parte, temos de lembrar que numerosos movimentos violentos, que passaram a ser grupos armados, começaram com simples reclamações de cariz social e económica.

Em 2002, quando Mohammed Yousuf fundou a organização “Pessoas Comprometidas com a Propagação dos Ensinamentos da Jihad” que, mais tarde, passou a designar-se por Boko Haram, no Nordeste da Nigéria, as reivindicações tinham um cunho eminentemente social, a julgar pelas condições de probreza generalizada em que se encontra(va) aquela região do país.

Mais por cá, o país vizinho, por sinal fronteiriço com as Lunda-Norte e Sul, é fértil em “dar à luz” milícias armadas que começam, igualmente, como forças reivindicativas das condições locais dos povos, situação que acaba, sempre, por ser aproveitada por algum segmento.

A rebelião Kamuina Nsapu que, entre 2016 a 2019, “aqueceu” a região das províncias do Kasai, na RDC, embora envolvesse as autoridades tribais e as seculares, tinha, igualmente, uma ramificação social que evoluiu para violência extrema, com milhares de mortos, inclusive crianças e adolescentes que tinham sido arrolados para “combater”.

Precisamos de prestar muita atenção aos desenvolvimentos que ocorrem nas Lundas, sobretudo quando se tratam de tentativas de manifestação e abordagem policial nem sempre proporcional, razoável e excessos evitáveis, que tendem a se transformar em barril de pólvora, somente à espera da ignição que se pode traduzir na organização de milícias armadas.

Trata-se de uma maka ainda prevenível, a mistura entre as manifestações sem comunicação prévia e as abordagens policiais nas Lundas, que tendem a ser exploradas por grupos devidamente identificados, interessados e que podem evoluir para algo perigoso, com a instrumentalização das populações.

*Jornalista, in JA

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