A morte da engenheira Mita Van-Duném – Reginaldo Silva
A morte da engenheira Mita Van-Duném - Reginaldo Silva
reginaldo silva

Desde a década de 90 do século passado, bem no seu início, habituei-me a escrever pelo menos uma vez por ano uma matéria ou uma coluna de opinião sobre o 27 de Maio de 1977.

Só mesmo nos anos mais recentes já deste século, a regularidade desta intervenção foi conhecendo algum abrandamento, particularmente ao nível da sua dimensão textual.

Foi, provavelmente, a consequência de algum cansaço que acabou por ser a estratégia usada por JES para evitar tocar no assunto, na esperança de que as pessoas mais vocais fossem efectivamente desistindo aos poucos por essa via o que não se veio a verificar.

Os órfãos das vítimas e seus amigos decidiram, entretanto, criar a sua associação, a M27, que está aí como a melhor garantia de que a memória de tanta gente desaparecida é para preservar e homenagear anualmente ou sempre que for necessário.

Pelos vistos a “herança estratégica de JES” ao lado de tantas outras, foi ostensivamente ignorada pelo seu sucessor e ainda bem que JLo [João Lourenço] assim decidiu, a pensar no país que é de todos e em relação a um tormentoso assunto cuja responsabilidade política era (e continua a ser) da exclusiva tutela do MPLA.

Com a morte de JES [José Eduardo dos Santos], finalmente o tema 27 de Maio deixou as prateleiras empoeiradas do esquecimento e foi assumido pelo Estado angolano como mais um dossier do passado de grandes violências/violações, para todos os gostos e feitios, que era preciso dar o melhor tratamento em nome da própria reconciliação nacional.

Um abrangente pedido formal de desculpas extensivo a todos os processos, foi feito por JLo em nome do Estado, mas ninguém que esteve envolvido directamente nas prisões, torturas e matanças que se seguiram ao 27 de Maio, algum dia tomou a iniciativa pessoal de agir minimamente em conformidade com o gesto do PR tornado público no dia 26 de Maio de 2021.

Pelo contrário, pois o que temos tido é notícias que nos dizem que as referidas pessoas acham que não fizeram nada de errado, tendo-se limitado a defender o Estado no contexto da época.

Na verdade e depois daquele pedido de desculpas ficou tudo quase na mesma, para além de umas ossadas que foram entregues aos familiares de algumas das vítimas, num processo cuja falta de transparência dos procedimentos adoptados pela CIVICOP acabou por ser o seu ponto mais forte.

Com uma perspectiva abertamente diferente e mesmo em choque com o discurso oficial, acredito, salvo melhor informação, que tenha sido o primeiro jornalista angolano baseado em Luanda a publicar na imprensa local e estrangeira algo sobre esta tragédia que aconteceu em Angola há 48 anos.

Na altura o país estava a dar os primeiros passos da abertura política e ainda não havia nenhum livro escrito e publicado sobre o 27 de Maio nem no estrangeiro e muito menos em Angola.

A narrativa oficial sobre o 27 de Maio teve por base ao longo de cerca 13 anos consecutivos a famosa declaração do Bureau Político do MPLA de Junho de 1977.

Hoje este documento é para nós apenas mais uma versão dos factos contada por uma das partes envolvida no conflito interno do MPLA que teve o trágico desfecho que se conhece, depois de tudo quanto aconteceu no dia 27 de Maio de triste memória.

Para quem viveu os acontecimentos como eu, hoje estou cada vez mais convencido que as duas tendências que se digladiaram politicamente no seio do MPLA entre 1976 e meados de 77 tinham legitimidade bastante para o fazer, antes de mais em nome do princípio da igualdade de tratamento, da própria liberdade de expressão e de pensamento que na época se chamava apenas crítica e auto-critica.

Em relação a tudo quanto já publiquei nas páginas da imprensa nacional e estrangeira sobre o 27 de Maio ao longo destes mais de 30 anos, se quisesse destacar aqui algum aspecto mais transversal ou dominante, não teria muitas dúvidas em referir que a minha maior preocupação esteve sempre concentrada nos milhares de angolanos que eram jovens na sua maioria e que desapareceram brutalmente do nosso mundo.

Foi a consequência da sangrenta repressão conduzida pelo Estado angolano que se prolongou por mais de um ano, tendo afectado profundamente todo o país numa verdadeira purga nacional de contornos verdadeiramente selvagens.

O seu impacto traumático até hoje se faz sentir sobre o conjunto da sociedade angolana, numa transmissão quase genética do medo/terror de pais para filhos e netos.

É nesta linha que neste 27 de Maio de 2025 vou tentar contar a história de um destes milhares de jovens que desapareceu nessa voragem.

No caso é de uma jovem que se trata e que em vida era mais conhecida por Mita Van-Duném, natural de Benguela, engenheira de profissão.

Na verdade é apenas a história de um ou dois dias que foi o tempo de vida que ela teve entre o dia que deixou Luanda e viajou para o Lwena e a hora em que foi atirada morta já crivada de balas para uma vala comum na capital do Moxico.

Ao falar da Mita, que não conheci pessoalmente, vou necessariamente falar de um dos massacres que teve lugar em Angola depois do 27 Maio e que tem a particularidade de ter pelo menos uma testemunha, no caso um cidadão estrangeiro de nacionalidade cubana e médico de profissão, que o presenciou e que muitos anos depois, aceitou falar a uma jornalista também estrangeira contando-lhe tudo o que tinha visto naquele funesto dia.

Estou a falar do livro da jornalista britânica Lara Pawson “Em nome do Povo – O Massacre que Angola silenciou” (2014) onde de facto há alguma informação credível sobre como foram assassinadas as pessoas no Lwena e quantas elas eram, num total de 17.

Até onde vai o meu conhecimento dos factos, nunca tinha tido acesso ao testemunho de alguém nessas circunstâncias, apesar de não ter qualquer dúvida que ainda são mais do que muitas as pessoas que vivem em Angola e que foram testemunhas activas ou não, de tais execuções.

O interesse pelo “massacre do Lwena” sempre esteve na minha agenda, mas até este ano tinha pouca ou quase nenhuma informação sobre o mesmo que me permitisse dizer mais alguma coisa para além do que já se sabia.

O interesse reacendeu-se, entretanto, por ocasião da homenagem prestada em Abril último pela sua família e amigos ao médico Elisiário dos Passos Vieira Lopes (Passinho), uma das vítimas da repressão que teve lugar no Lwena.

Foi no âmbito dessa homenagem que me chegaram ao conhecimento mais informações sobre a Mita que hoje me permitem aqui render-lhe a mais do que merecida homenagem.

Contarei assim em rápidas pinceladas a história dos seus últimos dois dias de vida, com base em fontes que me merecem a necessária confiança, sempre admitindo que a fragilidade das nossas memórias se vai agravando com o passar dos anos com todas as consequências menos positivas que tal evolução tem na qualidade da informação que me foi fornecida.

Comecei por saber quem foi a pessoa que levou a Mita no dia 26 para o aeroporto de Luanda onde viajou para o Lwena, o que quer dizer que ela chegou ao Moxico menos de 24 horas antes das movimentações do 27 de Maio terem tido início em Luanda.

Pelo que apurei a Mita, que na época era a única engenheira química que a cervejeira Cuca tinha nos seus quadros, viajou para o Lwena para passar uns dias a descansar, pois sentia-se exausta.

Acredito que tenha decidido ir para o Lwena porque tinha lá uma casa disponível que era a do seu primo Zé Van-Duném que durante algum tempo foi o Comissário Político das FAPLA na região leste depois de ter sido transferido para lá pelo então Ministro da Defesa e já no âmbito das tensões políticas que estavam em curso no seio do MPLA.

Também acredito que foi apenas por essa razão, por ter ficado na referida casa, que a Mita foi acusada, presa e fuzilada menos de 48 horas depois de ter chegado ao Lwena onde ninguém a conhecia de sítio nenhum.

A fazer fé no depoimento do médico cubano que testemunhou o fuzilamento o mesmo terá acontecido no próprio dia 27 de Maio ao fim da tarde. De acordo com o seu relato nesse dia foram fuziladas 17 pessoas.

Quando chegou ao local situado entre o aeroporto do Lwena e uma unidade militar cubana, já havia uma vala aberta estando as vítimas perfiladas ao longo do buraco para onde foram caindo depois de serem alvejadas.

A escavadora que abriu o buraco depois completou a sinistra operação tapando-o com as mesmas toneladas de areia que de lá tinham sido retiradas.

Tudo leva a crer, ressalvando sempre a existência de uma melhor informação, que foi assim que a Mita foi assassinada no Lwena ao lado de mais 16 pessoas, sendo uma delas o médico Elisiário Vieira Lopes mais a sua companheira a enfermeira Aninhas de Almeida que tinha sido presa uns dias antes por um motivo fútil, mas que já cheirava claramente à perseguição política.

O que é estarrecedor neste episódio do Lwena foi a rapidez extraordinária com que as autoridades locais decidiram fuzilar as 17 pessoas numa cidade longínqua da capital que não tinha conhecido qualquer tipo de movimentação que pudesse ser relacionada com os acontecimentos de Luanda.

E mesmo que tenha sido apenas no dia 28 de Maio, ou seja um dia depois dos confrontos em Luanda se terem registado, mantém-se intacta a nossa observação sobre a rapidez extraordinária com que foi tomada a decisão brutal no Lwena de fuzilar aquelas pessoas.

O que é mais perturbador é que em Setembro de 1980, já o Presidente Eduardo dos Santos estava no poder há um ano, foram passadas “certificados” aos familiares de algumas das vítimas do Lwena por um tal “Tribunal Militar Especial do Ministério da Defesa” segundo as quais as mesmas foram executadas por terem sido condenadas a pena capital.

*Jornalista

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