A nação do discurso – Alexandra Simeão
A nação do discurso - Alexandra Simeão
Alexandra Simeao

O discurso da Nação já não suscita qualquer curiosidade porque não é capaz de ser inspirador, fortalecer o sentimento de pertença, nem de garantir a construção de uma Nova Nação que permita o resgate do Estado Democrático e de Direito, que respeite e garanta os Direitos Humanos, que construa um novo patamar para a cidadania e que não use a paz como chantagem quando a popularidade governamental está na mó de baixo.

Por outro lado, a Nação do discurso prova, a cada ano, que não há lições aprendidas por causa da indiferença continuada, da ausência de espaço crítico na elaboração das políticas públicas, na necessidade de amordaçar qualquer debate sobre a ineficácia da Agenda Nacional no que diz respeito ao desenvolvimento, à justiça social e à felicidade colectiva e à transparência eleitoral.

A Nação do discurso já não pode continuar a ter o Covid-19 como escudo para as insuficiências governativas por mais fácil que pareça culpar o chão de estar torto, quando, afinal, é a bailarina que dança mal.

Refere-se aos estragos que causou à economia sem nunca ter criado nenhum programa que fosse capaz de mitigar os danos causados a determinados agentes económicos que ficaram com o seu negócio fechado durante muito tempo (alguns mais de um ano), a exemplo das creches, restauração, entre outros.

Aliás, o Governo nem sequer foi ao fundo da questão do Covid-19, tentando fazer uma leitura da flexibilidade burocrática e da autonomia de alguns serviços que, de forma criativa, desenharam soluções eficazes.

A Nação do discurso nunca se auto-avalia, não pede desculpa, não mede o tom bizarro da sua dissonância cognitiva quando fala de uma realidade que não é conhecida pela maioria da população que vive à margem da administração e que se alimenta de migalhas.

A tendência inflacionista deve ser explícita com clareza e honestidade, para que todos os eleitores saibam o que está a acontecer, por quanto tempo e quais serão os efeitos futuros dessa tendência e o impacto nos seus pratos.

A Nação do discurso olha para os problemas estruturantes em termos de promessa. Quando diz que “temos de aumentar a produção nacional” e não mostra nem o caminho, nem a visão, nem a generosidade orçamental para que tal aconteça, ficamos com a certeza de que a Inacção e a Não Decisão são as únicas políticas públicas culpadas para que ainda hoje o povo não conheça o caminho da diversificação da economia nem outra realidade que não seja a dependência externa, em todos os sentidos, incluindo para garantir que alguns interruptores sejam ligados e desligados.

Na Nação do discurso, podemos identificar o crescimento em algumas áreas, porque ele é numérico. Mas nunca conseguimos confirmar o desenvolvimento, porque ele exige que a felicidade do povo seja visível, e isso é contrariado pelos Índices de Desenvolvimento Humano que medem as conquistas de desenvolvimento humano, sem as quais mais nenhum tipo de desenvolvimento floresce de forma sustentável.

A Nação do discurso tem impostos do primeiro mundo num País que ainda não tem sequer esgotos. Mais uma vez, estamos perante um problema que está a ser desvalorizado pela liderança, mas que é um entrave ao crescimento e surgimento de novas empresas no mercado formal.

Os dados oficiais são escassos e guardados como se fossem um privilégio governativo, impedindo que a academia, a comunicação social, os sindicatos e as ordens possam fazer avaliações correctas da realidade a cada ano. E a transparência das contas públicas é ainda muito mais uma promessa do que uma realidade.

A Nação dos discursos nos países dos outros olha para dentro, não utiliza os acontecimentos exteriores para maquiar o Estado de Arte daquelas nações. É preciso sair do discurso folclórico, irrealista, eleitoralista, acusatório e construir uma VISÃO: onde é que este Governo quer que Angola esteja em 2070 e começar hoje a fazer as fundações deste edifício.

Quando olhamos para os programas de desenvolvimento, sejam relativos à mulher rural, à criança, à mãe, à qualidade da educação ou da saúde percebemos que não passam de intenções e, por isso, não temos novos problemas, mas arrastamo-nos mergulhados nos velhos e desgastados problemas que a cada ano surgem num novo plano que terá a mesma morte anunciada dos seus antecessores.

A Nação do discurso continua a definir prioridades que não são as prioridades dos eleitores. A quantidade de fundos que existem e já existiram para a materialização de uma agricultura nacional robusta e realista, aliados aos numerosos programas e balcões únicos que foram apresentados com pompa com o mesmo objectivo, provam que não foram consequentes, seja por defeito do desenho do projecto, seja porque os interesses de pessoas no ou com acesso ao poder, olham para a importação na generalidade como uma forma de acumulação primitiva (primitiva em todos os sentidos) de riqueza e não estão interessados em matar a galinha dos ovos de ouro.

A Nação do discurso tornou-se enfadonha devido à ausência da Visão da Liderança. 154 páginas que mostraram o abandono pela proximidade, pelo micro, pelas pessoas.

Tal como os 1.650 quilómetros de costa marítima, que não se transformaram em benefício colectivo para garantir a paz no prato, mas, sim, para a exportação, também o povo está perdido na imensidão da sua precariedade e na ausência de sonhos para sonhar.

A avaliação da governação feita de forma ética já teria resolvido muitos problemas. Mas, infelizmente, é visível a aversão a esta prática e, por isso, nem pessoas, programas, planos, políticas, resultados eleitorais ou o simples funcionamento da administração, no seu todo, são avaliados.

A Nação do discurso vê a sua indústria nacional avançar a passo de caracol num século de transformação de paradigmas, de nascimento de novas realidades, aliados a uma alteração geo político-económica mundial a acontecer em tempo real e tudo quando sabemos sobre os dados reais nacionais “é que aos poucos a indústria está a renascer e a consolidar-se”.

No sector das bebidas onde estão as fábricas de sumos naturais ou as de diferentes tipos de leite?

Numa Nação com fome e com tanta desigualdade faz sentido olhar para a qualidade da comida que as pessoas consomem, pois pela boca construímos saúde ou doença e não temos médicos nem hospitais para todos.

A Nação do discurso deve olhar para as críticas como um factor de crescimento e não como uma voz inimiga que pretende subverter a ordem constitucional.

A apresentação deve ser pragmática, capaz de garantir que os ouvintes não adormeçam porque o que está a dizer é demasiado importante, galvanizador, promotor da abundância para as futuras gerações contrariando esta pobreza injusta e indigna que se abateu sobre o povo angolano.

A estabilidade de um país assenta na forma como educamos e protegemos as nossas crianças, na garantia de que ninguém fica para trás e de que cada um é parte importante da solução. Sem esta visão concretizada, o futuro estará sempre adiado.

in Novo Jornal

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