A narrativa do “bom colonialismo” – Ismael Mateus
A narrativa do "bom colonialismo" - Ismael Mateus
Ismael 2

Assinalou-se esta semana os cinquenta anos do 25 de Abril e também do início do processo de descolonização das chamadas colónias portuguesas em África. Passados cinquenta anos, dificilmente poderíamos imaginar que chegássemos ao nível de glorificação do Colonialismo e elogio da civilização colonial português a que se assiste no espaço público angolano.

Ao contrário da opressão colonial, as independências africanas e a de Angola, em particular, assegura a todos os cidadãos o direito à opinião e, isso também inclui, naturalmente, aqueles que têm o direito de ver o Colonialismo como a grande referenciadas suas vidas. É o silêncio dos que não pensam assim que preocupa e permite que se transmita a ilusão de que todos partilhamos dessa visão.

Com tantos combatentes pela independência e com tantos angolanos que sofreram directamente as agruras do Colonialismo, o silêncio perante a ampla campanha de glorificação do “bom colonialismo”, acaba por contribuir também para a omissão e escamoteamento das circunstâncias e condições em que ocorreram as tais performances da Época Colonial, que muita gente gosta de gabar.

Seja como for, não parece existir em dúvidas de que está a ocorrer na construção da nossa memória colectiva um processo simultâneo de tentativa de desagravo e branqueamento da má história do Colonialismo e de crítica às independências.

Nos casos mais incisivos, algumas vozes não se contentam apenas como apagamento do Colonialismo como procuram “amaldiçoar” o facto dos povos africanos terem proclamado as suas independências e terem assumido total reponsabilidade, nas boas e más decisões, sobre o seu destino.

No espaço público angolano, diferentes intervenientes têm vindo propagar uma narrativa do “bom colonialismo”. Discretamente uma vezes e, outras dizendo literalmente, apresentam a Época Colonial como a sociedade ideal que a nossa governação deveria procurar atingir.

Textos de opinião, programas de rádio, análises académicas, em todo o espaço público somos manipulados e instrumentalizados por uma narrativa saudosista de glorificação da Época Colonial, por causa dos grandes recordes de produção nacional atingidos.

“Vendem” o Sistema Educação Colonial, o serviço de saúde ou a capacidade produtiva da época colonial como uma espécie de “paraíso social” ao qual deveríamos supostamente aspirar.

Um dos propósitos dos glorificadores tem sido evidenciar os resultados da Sociedade Colonial, por um lado, como referências de capacidade de produção e, por outro lado, omitindo se completamente as condições e factores de produção que ditaram os tais resultados extraordinários do Colonialismo, com o trabalho contratado, os maus-tratos, as torturas, a discriminação racial dos negros, a subjugação dos angolanos na sua própria terra ou a subalternização cultural dos grupos etnolinguísticos angolanos.

Não deveria ser possível abordarem-se os resultados do Colonialismo sem, honestamente, reconhecer que tais resultados foram obtidos sob um ambiente de métodos de trabalho e procedimentos do Colonialismo como a captura e comércio de pessoas utilizadas na produção, no transporte e nos serviços coloniais, regime de exploração da mão-de-obra como trabalho forçado, discriminação racial que determinava os lugares de residência, tipo de escola, dos empregos, estatuto de cidadania, elevado grau de analfabetismo e grandes restrições à livre circulação no território.

No entanto, a narrativa do “bom colonialismo ”procura fazer apenas um contra ponto comparativo com os processos de libertação nacional, como se procurasse cimentar, na nossa memória colectiva, a ideia de um arrependimento quanto à opção pelas Independências Nacionais. Só isso explica a cúmplice omissão da repressão e dominação coloniais em larga escala e de outros crimes mundialmente condenados.

Através destes espaços e intervenções públicas, incluindo na imprensa pública, verifica-se uma grande campanha de evocação do Passado Colonial, sendo que muitos desses defensores do Colonialismo sequer são capazes de reconhecer que, a ter continua do o Colonialismo, eles, os seus familiares e os seus filhos jamais teriam acesso aos microfones e intervenção pública que, agora, usam ou às universidades em que se formam, a menos, claro, que pertencessem ao grupo de privilegiados, membros de uma elite colonial que teve a oportunidade de ir à escola, de se sentar entre os escolhido se serem vistos como “civilizados”.

A narrativa do “bom colonialismo” decorre, naturalmente, de um com apreensível clima saudosista de certas classes da sociedade, mas também da desilusão pelo facto das novas gerações formadas, já de pois das independências, estarem a assumir um protagonismo que outrora foi desses quadros, técnicos e operários que, tendo uma experiência de trabalho colonial, foram determinantes na manutenção do Estado nos primeiros anos da Independência.

Outros sentem saudades de um estatuto que tiveram na Época Colonial, mas, também, de um estatuto de imprescindíveis que ganharam quando os colonos portugueses abandonaram o país e, sem quadros, o país dependia unicamente de quem tinha tido o privilégio de estudar no Tempo Colonial.

Resultado dessa campanha é já grande o número de vezes que, no espaço público, os repórteres da nova geração provocam debates sobre se terá ou não valido a pena a Independência ou fazem perguntas mal intencionadas aos antigos combatentes em busca de um arrependimento, mágoa e desilusão como processo feito com a proclamação da Independência.

Certamente, existirão outras motivações, mas tomemos a saudade colonial e a preocupação em projectar uma boa memória do Colonialismo como as mais “inocentes”. Agarram-se à melancolia do passado, à saudade do Tempo Colonial para desvalorizar a governação actual.

Por mais que se faça algo agora, buscam-se em comparação os números, como se todas as condições e ambiente produtivo em que se produzir a messes resultados fossem de menos importância.

Sob o olhar silencioso dos combatentes pela liberdade e da grande generalidade dos “opinion makers”, há, cada vez mais, jovens (e menos jovens também) a reproduzir apercepção enganadora de que como Colonialismo a nossa vida teria sido melhor, que é, no fundo, o que nos querem vender quando se gabam dos números e das alegadas excelentes perfomances da Era Colonial.

A campanha de glorificação do Colonialismo é, em si, insultuosa e desrespeitosa para com os milhares de angolanos que se sacrificaram, de diversas formas, no combate ao Colonialismo.

É obvio que o percurso dos países africanos e de Angola em particular não isenta os Governos e os actores políticos de críticas e erros, mas nada justifica o branqueamento a que se assiste, só comparável ao realizado na imprensa portuguesa por causa do ressabiamento dos antigos colonos que tiveram de deixar as colónias.

A apologia ao “bom colonialismo” tornou-se um perigos o modismo, sobretudo, nas redes sociais onde encontramos inúmeras páginas a porém causa a oportunidade das independências e a capacidade dos africanos de gerirem os seus próprios destinos.

Para muitos desses defensores do Colonialismo, caberia ao Estado colonial descolonizar bem, ou seja, ensinarem os “incapazes africanos ”a gerirem os seus próprios destinos, como se os políticos e governantes africanos fossem “inimputáveis” pelos erros cometidos no percurso.

É exactamente a isso que se chama soberania e autodeterminação: o direito de determinar os seus destinos, sem que ninguém tenha o direito de se imiscuir, violar os seus hábitos e costumes ou de menosprezar as suas línguas nacionais.

É por todas estas razões que é chegada a hora de se começar a responder pela mesma moeda, com a mesma acutilância e determinação aos que nos querem impingira narrativa do “bom colonialismo”.

*Jornalista e escritor

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