
O país assinala hoje 23 anos de paz. Foi a 4 de Abril de 2002 que o Governo angolano e o que restou das forças militares da UNITA assinaram, no Luena, o Memorando de Entendimento para a Paz e reconciliação nacional.
Ainda ecoam na memória de muitos angolanos os acontecimentos que precederam essa data. Depois de encarniçados combates que ceifaram a vida de milhares de angolanos, a guerra atingia um ponto de viragem em Fevereiro de 2002 com a UNITA a perder, em combate, o seu líder, Jonas Malheiro Savimbi.
Na sequência e na qualidade de comandante em Chefe das Forças Armadas Angolanas (FAA), o, então, Presidente da República, José Eduardo dos Santos ordenara que “nem mais um tiro” fosse disparado, que se resgatasse os dirigentes da UNITA que se encontravam nas matas e se desse início ao processo de paz.
Para José Eduardo dos Santos, não havia vencidos e vencedores. A paz era o bem mais precioso para os angolanos e era preciso pôr termo ao derramamento de sangue entre angolanos.
Esse gesto de José Eduardo dos Santos levou os analistas a colocá-lo num pedestal diferente de muitos políticos, que conduziram guerras até às últimas consequências, com a aniquilação total dos seus inimigos ou adversários.
A sua grandeza como Estadista passou a ser destacada a nível internacional, e, entre nós, ganhou o título de “Arquitecto da Paz”.
A inclusão da UNITA na vida política normal, a promoção da sua participação para o engrandecimento da democracia angolana e a construção de umas Forças Armadas verdadeiramente republicanas foram dois eixos de actuação política que asseguraram uma transição com sucesso da guerra para o período de paz.
No ano em que o país assinala o Cinquentenário da Independência Nacional, celebra também 23 anos de paz. É conta fácil de fazer. Mais da metade dos anos de independência foram consumidos com o país em guerra: 27 anos!
Foram anos de muita destruição, em que manter o país minimamente funcional foi realmente um desafio que exigiu arte e engenho para não sucumbir.
E, de facto, não sucumbiu, apesar de as feridas da guerra ainda se fazerem sentir em praticamente todos os campos da vida política, social e económica do país.
O 4 de Abril de 2002 abriu caminho para o país se reencontrar, se reerguer, construir e reconstruir. Entre erros e acertos muita coisa foi feita e não se pode dizer que o país não tenha evoluído.
Em muitos aspectos estamos melhor do que há duas décadas. Mas há também a sensação de que precisamos de reforçar os fundamentos da paz.
E esses fundamentos são o reforço da unidade nacional, os princípios e valores da coesão da nação, os projectos de inclusão social e cultural, e até mesmo política.
Passam por trabalhar arduamente para encontrar o caminho da prosperidade para bem servir o público, criando e promovendo na sociedade atitudes e comportamentos que levem os cidadãos a valorizar a pátria, a valorizar o bem público.
Construção do dia-a-dia com actos concretos, a paz é muito mais do que o calar das armas. Angola tem consciência dessa realidade, da verdade que é a necessidade de trabalhar sempre para a sua manutenção e de estar preparada para defendê-la, a diferentes níveis.
A defesa da paz nem sempre é feita com armas. Ela é essencialmente assegurada pela vitalidade de instituições e organismos que têm por vocação absorver as vontades das populações e transformá-las em projectos funcionais que têm por missão corresponder aos anseios e expectativas das comunidades.
O apoio que o Estado reserva a essas instituições e organismos é de particular importância, tanto para a sua própria dinâmica como para a realização das pessoas envolvidas nos projectos.
As diferentes dimensões da paz – política, social, cultural e económica – contribuem para tornar os Estados cada vez mais fortes na projecção da sua identidade, enquanto entes nacionais e internacionais.
Angola assinala mais um aniversário do Dia da Paz e da Reconciliação Nacional com a convicção de que é imperioso continuar a trabalhar para reforçar os seus fundamentos.
São os pilares indispensáveis para criar o estado de espírito, o estado de alma colectiva que se traduz na percepção geral – por maioria de razão, portanto – de que a paz veio, efectivamente, desobstruir as vias para a prosperidade e o desenvolvimento.
É em tempo de paz que Angola deve aproveitar para se modernizar, para se desenvolver, para dar o salto que é preciso para criar uma economia diversificada, auto-sustentada, cada vez menos dependente das exportações petrolíferas.
Dizer que “é em tempo de paz” que isso deve ser feito é uma expressão que tem em conta o facto de que – por aquilo que nos é dado a ver em matéria de geopolítica -, a paz pode não ser um bem que perdure quando interesses políticos antagónicos se extremam e tendem a arrastar para a contenda países com menos peso.
*Jornalista