
O fenómeno é conhecido em Angola como a “Febre da Micha”, um subproduto da economia informal e da ineficiência dos serviços públicos.
Ser “mixeiro” tornou-se uma estratégia de sobrevivência para milhares de cidadãos, especialmente jovens, que actuam como intermediários informais para agilizar processos ou vender bens de difícil acesso.
As “mixas” transformaram-se num movimento que domina o quotidiano de muitos angolanos. A opção pelas mixas não é, na maioria das vezes, uma escolha de carreira, mas uma resposta a falhas estruturais. Podemos analisar alguns dos factores que alimentam este fenómeno:
Excessiva burocracia e demora: quando o Governo não paga um serviço prestado por uma entidade privada ao Estado; quando um passaporte, uma carta de condução, uma licença de construção, o acesso ao ensino público, ao emprego público ou a emissão de um alvará demoram meses a sair pelos canais oficiais, o mixeiro surge como a “solução rápida”. Ele cobra um valor extra (a mixa) para “facilitar” o processo junto de quem decide.
Desemprego e informalidade: com cerca de 90% dos jovens inseridos no mercado informal, a falta de empregos que exijam produtividade real empurra as pessoas para a intermediação. É mais rápido ganhar uma comissão hoje do que esperar por um emprego formal que talvez nunca chegue.
Custo de vida e inflação: a perda do poder de compra do kwanza faz com que o salário mínimo seja insuficiente. Para muitos funcionários públicos, facilitar uma “mixa” torna-se uma forma de complementar o rendimento mensal.
A “cultura da gasosa”: existe uma normalização social do suborno e da gratificação. O mixeiro é visto, por vezes, não como um entrave, mas como um “desenrascador” necessário num sistema bloqueado.
O impacto na economia nacional
Embora resolva o problema imediato do indivíduo, o fenómeno é altamente prejudicial para o país.
Fuga de impostos: as transacções de “mixa” não geram receitas para o Estado investir em sectores essenciais como a saúde e a educação.
Baixa produtividade: em vez de produzir bens ou serviços (agricultura, indústria), a força de trabalho concentra-se em “vender facilidades”.
Corrupção institucional: alimenta uma rede onde o serviço público só funciona mediante pagamento extra, penalizando sobretudo o cidadão mais pobre.
Insegurança jurídica: afasta o investimento estrangeiro sério e até o nacional, que não quer operar num ambiente onde as regras dependem de intermediários e favores.
A transição deste modelo para uma economia de valor exige não apenas fiscalização, mas também a digitalização dos serviços públicos (para eliminar o intermediário humano) e a criação de incentivos reais à produção nacional.
Na entrevista que concedi ao Novo Jornal, a 11/10/2026, procurei alertar para a necessidade de elevar a consciência colectiva face ao crescimento exponencial dos mixeiros, inclusive no sector público.
Essa afirmação, na altura, apontava para um dos maiores problemas estruturais de Angola: a institucionalização da intermediação parasita.
Quando se diz que o sistema “fabrica mixeiros”, a crítica dirige-se a um modelo de governação e de mercado onde o lucro não resulta da inovação ou da produção, mas sim da proximidade ao poder político.
Como o fenómeno se enraizou
1. O Estado como único grande cliente:
Em Angola, o Estado é o maior — e por vezes o único — motor da economia, o que cria uma dependência perigosa:
2. Inversão de valores: rent-seeking versus produção:
O fenómeno descrito refere-se ao conceito económico de rent-seeking (procura de renda).
Em vez de criar valor — fabricar sapatos, móveis, vestuário, cultivar milho, mandioca, feijão, batata-doce, banana-pão, explorar os sectores da pesca e da transformação alimentar — o cidadão ou empresário concentra-se em capturar uma fatia do Orçamento Geral do Estado (OGE) através de contratos sobre-facturados ou comissões.
Resultado: o mixeiro de colarinho branco torna-se mais próspero do que o industrial, desincentivando o investimento em sectores produtivos reais.
3. A “micha” no sector público (a gasosa institucional):
No sector público, a micha deixou de ser uma gratificação informal para se tornar parte do modus operandi:
Consequências da “fábrica de mixeiros”
O círculo vicioso
Como afirmei, ao potenciarmos negócios estritamente dependentes do Estado, sem transparência, transmitimos à sociedade a mensagem de que “quem trabalha não tem, quem micha é que vive”.
Isso destrói o patriotismo económico e transforma a economia numa verdadeira selva de intermediários.