A paz das almas: Libertar os vivos do peso dos mortos – Jaime Azulay
A paz das almas: Libertar os vivos do peso dos mortos - Jaime Azulay
Jaime Azulay

O anúncio do Presidente João Lourenço de homenagear Agostinho Neto, Holden Roberto e Jonas Savimbi, por ocasião dos 50 anos da proclamação da Independência nacional, marca um ponto de viragem na longa travessia da nossa memória colectiva.

O cerne do discurso do Presidente, proferido hoje sobre o estado da Nação, projecta para além do gesto político comum. Fomos testemunhos de um acto de verdadeira reconciliação moral, o mais difícil, contudo, o mais profícuo e necessário para o futuro da nação.

Durante demasiado tempo, Angola continuou a travar uma guerra nefasta e silenciosa consigo própria, infeliz prisioneira das culpas e dos silêncios.

O trabalho do CIVICOP, a amnistia geral decretada e agora o anúncio da homenagem aos pais da independência, formam um mesmo fio, o da pacificação interior de todos e de cada um. Não pode haver futuro risonho, enquanto as almas permanecerem inquietas e aprisionadas nas suas próprias grilhetas.

Entre os angolanos, infelizmente ainda existe quem discorde dessa decisão histórica, provavelmente movido por dores antigas ou mesmo rancores herdados. Não tardará e os seus corações sofridos engrossarão o coro do perdão que a maioria canta.

Perdoar não significa esquecer. Perdoar é libertar-nos de nós mesmos. É reconhecer que todos, com virtudes e falhas, contribuíram para o nascimento de Angola.

O tempo das trincheiras passou, agora é o tempo das pontes, que unem as margens afastadas e permitem que os afastados se unam e se abracem. Sem dúvidas, os que lutaram nas trincheiras saúdam o gesto do Presidente.

A homenagem aos signatários do Acordo de Paz de Alvor, certamente não vai apagar os registos da história, porque a História não se apaga.

A homenagem anunciada, chega apenas para encerrar um capítulo dramático do nosso viver, outorgando-lhe a dignidade merecida.

É o resultado da nossa história em carne viva e não pudemos ignora-la por mais tempo por injustificada insensatez. As futuras gerações jamais perdoariam.

É o singelo gesto de um país que aprendeu que a paz verdadeira não é a das armas caladas, mas sim a das consciências verdadeiramente reconciliadas.

A homenagem aos pais da Independência de Angola, foi oportuna, para que os vivos se libertem definitivamente do peso dos mortos nas suas consciências.

O reconhecimento vai permitir que os nossos mortos possam descansar em Paz na eternidade, porque vão entender o porquê que morreram, afinal, como cantou Teta Landu. Só então, Angola poderá erguer-se inteira, reconciliada consigo e com a sua História.

*Jornalista e Advogado

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