
Quando Johannes Gutenberg inaugurou a (im)prensa pôs em acção uma das nobres profissões do mundo moderno. Naquela altura, o alemão podia prever como as ideias ganhariam amplitude e o mundo poderia saborear a informação com gosto, curiosidade e sensibilidade. Talvez, passava longe do seu imaginário o prognóstico de que atingiria a velocidade de cruzeiro.
O jornalismo cresceu num ambiente de rigor e responsabilidade. A informação viajou de forma técnica e metódica. O jornalismo tradicional sempre ofereceu rigor, validação e calma analítica. O repórter, como herói que sustenta a actualidade, assumiu o papel de guardião atento da verdade dos factos.
A rádio, a televisão e, mais tarde, a Internet expandiram o alcance da notícia. Hoje, a velocidade de conteúdos aumenta e o jornalismo ou segue o ritmo com criatividade, vontade, espírito de adaptação à inovação, dignificação, ética e deontologia profissional ou fica para trás.
A Internet acrescenta energia, imediatismo, uma dose de caos e, sobretudo, participação. Esta mistura cria um campo fértil para narrativas mais (in)completas e interactivas. Falsidade também.
Os “usuários” das redes sociais já deixaram de o ser. Agora, ganharam estatuto de “criadores de conteúdos”, confirmado e ostentado nos perfis recompensados pelas visualizações. Milhares de cidadãos partilham conteúdos, opiniões e testemunhos. O jornalista está lá também, neste meio febril do imediatismo.
No mesmo espaço, posiciona-se como mediador preparado, capaz de contextualizar os sinais de informação de interesse público.
A circulação massiva de conteúdos desafia o jornalista para trazer lucidez. Uma conferida ou uma verificação reforça a utilidade e o interesse público. Este profissional é o principal elemento que chamo de “literatura apressada”.
Por agora, importa salientar que comunicar deixou de ser exclusividade dos jornalistas. Talvez reste alguma particularidade no quesito produzir notícias rigorosas.
No mundo digital, a escrita e a narração dos factos através de textos, fotografia ou vídeos já não são apenas tarefas dos jornalistas. Quem ainda não percebeu isso está distraído. Hoje, qualquer um que tiver smarthphone nas mãos é um potencial “concorrente” a repórter.
Porque instituições públicas, privadas e pessoas singulares têm perfis em diferentes plataformas onde publicam. Todos disseminam informação nas suas próprias páginas, criam comunicados digitais, divulgam dados antes dos profissionais dos media convencionais.
Estamos na era digital, talvez seja de excesso de informação. Este movimento transforma o cenário actual em oportunidade e desafio.
Isto é bom ou ruim? Depende do ponto de vista. Porém, em muitos casos, esvaziam também o jornalismo, ou se preferir entender melhor, tampam o “furo” jornalístico, excepto se o repórter tiver um olhar mais profundo para os factos.
Ou seja, o jornalista responde com indagação, questiona, investiga, analisa e apura. Entende que uma publicação institucional ou do cidadão comum representa uma pista, um ponto de partida e uma oportunidade para aprofundar temáticas essenciais e de actualidade.
O jornalista sabe que nem tudo é notícia. Percebe que nem tudo que circula, por ali, tem as respostas necessárias para satisfazer a consciência crítica do público. Sabe também que nem tudo é para ignorar ou descartar. É ali onde está o pulo profissional. É na interpretação e no seguimento que o jornalista ganha batalho no terreno, literalmente digitalizado e consolida a sua relevância.
A formação e actualização contínuas sustentam a adaptação à evolução. Foi isso que ficou patente durante o ciclo de formações promovidas pelo Projecto de Apoio à Sociedade Civil e à Administração Local em Angola (PASCAL).
As formações que uma nata de profissionais de Luanda, Benguela, Huambo, Huíla e Malanje teve o privilégio de beneficiar durante cerca de dois anos, ajudaram a despertar o entendimento sobre a velocidade informativa e o uso de ferramentas tecnológicas para apoiar esta missão nobre de informar, educar e recrear.
As sessões valeram por estimular novas práticas, aprofundar conceitos e reforçar as técnicas dos contemplados para a melhoria da qualidade editorial, sobretudo para um jornalismo virado para a cidadania e desenvolvimento comunitário.
Pois, percebe-se que a digitalização muda o canal, mas não a essência da profissão. As formações deveriam ser regulares para contemplar mais profissionais.
Os prelectores nacionais, caboverdianos, moçambicanos e brasileiros deixaram patente que a dinâmica informativa segue com a preparação constante. Os jornalistas deveriam ter igualmente prazer em formações do género para refrescar conhecimentos.
Está claro. O jornalista de hoje integra tecnologias, aprende as ferramentas de IA, tanto para produzir conteúdo como para conferir, para desenvolver a arte de apurar e de contar histórias, assimilar a complexidade da multimédia e a análise de dados. Esta preparação fortalece a profissão e eleva as expectativas do público.
Cá entre nós quem dominar as novas tecnologias, entender o logaritmo, interpretar métricas, experimentar formatos, pensar, segmentar e dialogar com o público segue em vantagem. Tudo porque a audiência consome a informação em várias janelas simultâneas.
O profissional que unir actualização, rigor, criatividade e coragem de manter princípios destaca-se num oceano informativo. O jornalista do presente organiza o caos digital, oferece sentido, vai além do óbvio para informar com verdade e imparcialidade como critérios indispensáveis para a sobrevivência do jornalismo nesta era digital.