
Dizem que há casais que se amam profundamente, mas não se entendem. Vivem entre juras e desentendimentos, entre promessas e silêncios prolongados. Brigam, afastam-se por instantes, mas acabam sempre sentados à mesma mesa. No fundo, sabem que dependem um do outro para manter a casa de pé.
Nesta metáfora imperfeita, o homem é o Estado. A mulher, paciente e resiliente, é o Sindicato dos Jornalistas Angolanos. E como diz o povo, “vocês são adultos”, já sabem como um homem se comporta quando não é fiel à palavra.
Quem conhece mulher sabe. Ela atura muito. Tolera atrasos, promessas adiadas, justificações repetidas. Faz contas, reorganiza a despensa, segura a família e mantém a dignidade. Mas há um momento em que a tolerância se transforma em limite. E quando a mulher diz basta, não é ensaio, é decisão. O casamento pode sobreviver a discussões, mas dificilmente resiste à quebra de confiança.
Talvez seja exactamente essa a fase que atravessam. Porque quando o homem não cumpre as suas obrigações, a mulher começa a rever o contrato afectivo. O marido fica sem compreender a frieza, o desprezo, roupa mal passada, comida sem gosto, o bom dia frio, as dores de cabeça nocturnas e muitas vezes tem o “negócio fechado”.
O amor pode até permanecer, mas o respeito fica ferido. E sem respeito, qualquer relação se torna frágil. O Estado (homem) comprometeu-se com números claros, prazos definidos e assinatura formal. A mulher (SJA )acreditou, confiou e aguardou. Agora olha para o calendário e pergunta; até quando?
Há momentos na vida de uma nação em que o silêncio pesa mais do que o ruído. E há instantes em que a palavra, quando contida, se transforma em inquietação. A comunicação social pública angolana vive hoje um desses momentos sensíveis.
Entre promessas firmadas e compromissos por cumprir, instala-se a dúvida legítima. Não apenas sobre salários, mas sobre respeito institucional e confiança. Não apenas sobre números inscritos em actas, mas sobre dignidade profissional. E a dignidade nunca é matéria menor numa democracia que se quer sólida.
Em Setembro de 2025, parecia que o casal tinha renovado votos. Ficou acordado um aumento salarial de 58 por cento para os profissionais da comunicação social pública. Trinta e um por cento seriam pagos em Outubro. Os restantes 27 por cento, em Janeiro de 2026.
Havia testemunhas, havia acta, havia compromisso. O acordo soou como reconciliação madura. Mas hoje, parece aquele marido agarrado que finge nunca ter dinheiro, porque a mulher está sempre em dia, com boa imagem, boa dicção e escreve bem os versos que lhe envia.
Mas reconciliação sem cumprimento transforma-se em frustração. Passados dois meses do prazo final, a segunda tranche não foi integralmente cumprida. É aqui que a mulher começa a trazer as conversas antigas e começa a polémica.
E é aqui que a metáfora deixa de ser leve e se torna séria. Porque o que está em causa não é apenas dinheiro. É a palavra do Estado diante de uma classe que vive da credibilidade. É a coerência institucional num sector estratégico. É a confiança mútua que sustenta qualquer parceria duradoura.
A reunião de hoje, sexta-feira, não é um jantar de reconciliação entre duas partes. É um encontro interno da mulher com a sua consciência colectiva. É nesta “sexta-feira do homem” que a mulher está diante do espelho a se desfazer do encanto, e se dando o devido valor.
Hoje, o Sindicato reúne-se com os jornalistas para decidir o rumo. É momento de avaliação, de escuta e de deliberação. Não estarão frente a frente com o Estado, “o tala marido”, mas frente ao espelho da própria dignidade. E essa conversa costuma ser a mais exigente.
Importa lembrar que estão abrangidos profissionais da Rádio Nacional de Angola, do Jornal de Angola, da Televisão Pública de Angola, da Angop, do Jornal dos Desportos e da TV Zimbo, a Média Nova, entre outros órgãos.
São rostos que entram diariamente nos lares angolanos. São vozes que narram a vida do país. São profissionais que carregam responsabilidade pública. Não se trata, portanto, de capricho conjugal. Trata-se de estabilidade institucional.
“Esse é o problema que tamo cuele”, diria o cidadão comum. A frase popular traduz a perplexidade colectiva. Todas mães já sabem, os sobas tambem. Está duro. Este homem já lhe reuniram muitas vezes, a mulher dele ficou sem vocabulário.
Ninguém mais quer se meter, porque ela também foi teimosa. Teve oportunidade de sair, preferiu confiar mais uma vez na mudança do marido. E agora! Como resolver um impasse em que o amor institucional existe, mas a confiança está abalada? Como restaurar a harmonia sem fingir que nada aconteceu?
A resposta não está na retórica inflamável. Está na execução concreta do que foi assinado.
A comunicação social pública é pilar da vida democrática. Informa, contextualiza, educa e preserva memória. Em momentos de crise, é fonte de estabilidade. Em períodos eleitorais, é instrumento de equilíbrio. Enfraquecê-la por incumprimento contratual é erro estratégico.
Nenhum Estado moderno pode subestimar o valor do jornalismo público. Uma eventual greve seria sinal de ruptura séria. Não é cenário desejável, mas é possibilidade real. A paralisação teria impacto nacional e simbólico. Criaria vazio informativo e tensão institucional. E o vazio raramente permanece neutro. Por isso, a decisão que poderá sair da assembleia é tão delicada.
O Governo tem responsabilidade acrescida nesta narrativa. Foi parte signatária do acordo. Assumiu compromisso público e calendarizado. Cumprir integralmente o que foi firmado é questão de honra institucional.
A credibilidade do Estado mede-se nestes detalhes. E detalhes constroem ou corroem reputações. Por outro lado, o Sindicato carrega a responsabilidade de conduzir o processo com maturidade. A firmeza é legítima. A defesa dos direitos é dever.
Mas a estratégia deve ser ponderada. A decisão de fechar o negócio não pode ser emocional, deve ser racional e colectiva. Não se pode ignorar o contexto económico difícil. O custo de vida pesa sobre todas as famílias. Apesar, de que, o jornalista também faz contas, paga escola, sustenta casa. Salário digno não é luxo, é necessidade. É condição para independência editorial. É base para serenidade profissional.
Quando o Estado falha no cumprimento, a mensagem ultrapassa o sector. A sociedade observa. Pergunta-se sobre a solidez dos compromissos públicos. Questiona a coerência entre discurso e prática. E num tempo em que a confiança institucional é bem escasso, qualquer fissura ganha dimensão ampliada.
A assembleia poderá marcar viragem. Não é ainda o divórcio. É a conversa franca antes da decisão final. É o momento em que a mulher avalia se continua a esperar ou se redefine os termos da relação. É reflexão colectiva sobre dignidade e futuro.
Há, contudo, um elemento silencioso que pesa nesta equação. O tempo. O tempo que passa sem resposta concreta desgasta mais do que a própria negativa. O tempo corrói a paciência, alimenta rumores e amplia ressentimentos.
Cada dia de atraso transforma-se em argumento a favor da ruptura. E quanto mais se prolonga a indefinição, mais difícil se torna restaurar a confiança inicial. Relações institucionais também vivem de prazos cumpridos.
No fundo, a solução é simples, ainda que politicamente complexa. Cumprir o acordo firmado. Regularizar o que está pendente. Restaurar a confiança pela via dos factos. Porque palavras já foram ditas, assinaturas já foram apostas. Falta a execução integral.
Se houver vontade política, o casamento institucional pode ser salvo. Se persistir o adiamento, a ruptura torna-se mais provável. Nenhuma relação resiste indefinidamente à sensação de deslealdade. E nenhuma classe profissional mantém indefinidamente a paciência.
Uma greve não deve ser romantizada nem banalizada. Ela traz custos institucionais e sociais evidentes. Afecta trabalhadores, gestores e cidadãos. Interrompe rotinas e cria tensão no espaço público. Deve, por isso, ser sempre último recurso. Mas quando se chega a essa encruzilhada, é sinal de falhas acumuladas. E falhas acumuladas exigem correção célere.
Angola precisa de instituições fortes e previsíveis. Precisa de um jornalismo público robusto e respeitado. Precisa de um governo que honre compromissos assumidos. E precisa de sindicatos responsáveis e estratégicos. A maturidade democrática revela-se em momentos de tensão. Não apenas no discurso, mas na prática concreta. A prática é o verdadeiro teste da credibilidade.
Os jornalistas angolanos conhecem bem o peso da história. Foram voz activa em tempos de conflito e de reconstrução. Narraram processos de paz e reformas estruturais. Acompanharam crises económicas e transformações políticas. Estiveram presentes quando o país precisou de informação rigorosa. Serviram o interesse público com profissionalismo e coragem. É justo que também vejam os seus direitos respeitados.
Os jornalistas angolanos não pedem favores nem concessões extraordinárias. Pedem respeito por um compromisso formalmente estabelecido. Pedem condições adequadas para continuar a servir o país. Servir com ética, rigor e independência editorial. Servir com a verdade como norte permanente. Essa é a sua missão histórica. E missão não se cumpre com dignidade fragilizada.
A questão é simples e profunda. A palavra dada tem valor institucional ou é mero acto protocolar? Se tem valor, deve ser cumprida integralmente e sem hesitação. Se houve constrangimentos, devem ser explicados com transparência. A credibilidade constrói-se no detalhe e na coerência. E perde-se rapidamente quando o compromisso falha. Que Angola escolha preservar a sua.
No final, mais do que metáforas, o que está em causa é a seriedade do Estado e a dignidade dos jornalistas. É a maturidade das instituições angolanas. É a capacidade de resolver conflitos sem aprofundar fracturas. Porque, em democracia, divergências são naturais. Incumprimentos prolongados é que são perigosos. Dêem a classe o devido valor.
Quem de Direito é o padrinho da relação. É importante entrar em acção, aconselhar e fazer com que o homem cumpra o que prometeu no altar. Ser fiel e honrar o compromisso matrimonial. Não há problema de maior. Mulher quando lhe dão dinheiro, varre até o quintal da rival. Não custa o Estado honrar.
Como diria o meu pai Kynta, “a causa está entendida”…
*Jornalista