A verdade que nunca foi dita sobre o “Caso Cabinda” – José Sumbo
A verdade que nunca foi dita sobre o "Caso Cabinda" - José Sumbo
Jose Sumbo

Família, como é consabido, o processo tem componentes que interagem e partilham entre si o seu dia-a-dia. Neste exercício processual dinâmico, esses componentes ora se assumem como saída, ora como entrada. São saída quando dão, são entrada quando recebem.

São todos componentes do mesmo processo, no qual cada um faz a sua parte, pelo que, em um processo, nenhum componente é dispensável, sob o risco de deixá-lo de ser.

Com esta noção de processo, fazendo uma extrapolação ao “Caso Cabinda”, temos como componentes todos nós, cabindas, sem exceção e sem exclusão.

Este exercício requer de todos nós determinação, coragem, engajamento responsável, espírito de equipe e comunicação eficaz, e por conseguinte, nada de invenções malévolas, intrigas, choques, acusações “baratas”, precipitação e demais práticas que prejudicam o desenvolvimento deste nosso processo.

Por inobservância destes pressupostos, até hoje, temos, infelizmente, o “Caso Cabinda” que temos e, no “outro lado”, gozam de nós, fazendo de Cabinda e dos cabindas o que querem, como querem, quando querem, para a vergonha nossa e não só. Família, basta!

O que nos une é mais forte do que o que nos divide. Com efeito, vamos todos caminhar unidos na diversidade, rumo à solução do “Caso Cabinda”, que almejo pacífica, inclusiva, justa, credível, definitiva e duradoura, através de diálogo responsável entre dignos representantes do povo de Cabinda (pelo que urge que todos nós aderirmos, cada um como pode, ao movimento em curso de preparação para a realização da Inter-Cabindesa, condição necessária e indispensável para o efeito) e o MPLA/Governo Angolano.

Aproveito esta oportunidade para, do meu lado, como cabinda, lembrar que nasci, cresci e me tornei homem em Cabinda. Meus pais e meus avós nasceram, cresceram, viveram e morreram em Cabinda, e em Cabinda estão enterrados.

Na era colonial portuguesa, quando fui chamado para a incorporação militar no exército português, eu fugi (fui refratário do exército colonial português) para o Congo Brazzaville, onde integrei as fileiras do MPLA e das suas então forças guerrilheiras, em adesão à visão estratégica de luta desse MPLA, segundo a qual primeiro lutarmos todos juntos contra o inimigo comum (o exército colonial português) e depois da conquista da independência de Angola, tratarmos entre nós os nossos problemas internos, mormente o “Caso Cabinda”.

Quando a FLEC estava realizando autêntica guerrilha urbana, atacou e destruiu, entre outras infra-estruturas, o palácio da Cidade de Cabinda deixado pelos portugueses (o atual palácio foi construído de raiz pelo Governo Angolano).

Em 1992, eu escrevi e dirigi uma carta ao então Presidente da República, José Eduardo dos Santos, na qual, entre outras propostas, propus a realização em Cabinda de uma reunião alargada dos quadros cabindas no governo, nos partidos políticos, nas forças de defesa e segurança, na diáspora e da FLEC disponíveis, com o objectivo de analisar a situação de Cabinda e aprovar uma plataforma de entendimento que contribuísse para a solução do “Caso Cabinda”.

Essa plataforma deveria ser levada ao conhecimento do Governo Angolano e da FLEC por uma comissão criada na referida reunião.

O Presidente Eduardo dos Santos anuiu e despachou para a Dra. Mambo Café, na ocasião Comissária Provincial em exercício de Cabinda, para trabalhar comigo sobre as questões de ordem executiva das propostas que fiz.

Infelizmente, a Dra. Mambo Café boicotou. Reparem que fui o único quadro cabinda do MPLA que convenceu o Presidente José Eduardo dos Santos a seguir essa via de solução.

Quando o governo, em 2005, anunciou que partiria para negociação com a FLEC, eu percebi que seria um paliativo, então escrevi novamente ao Presidente José Eduardo dos Santos, pedindo uma audiência, com caráter de urgência, para lhe apresentar o caminho para uma solução pacífica, inclusiva, justa, credível, definitiva e duradoura.

O Presidente José Eduardo dos Santos despachou a minha carta nos termos seguintes: “pode transmitir as informações que possui ao camarada general Kopelipa, Chefe da Casa Militar da Presidência da República, que ao nível de Estado é o gestor do dossier Cabinda sob a minha orientação pessoal“. O general Kopelipa boicotou, evitando-me até deixar o poder.

Igualmente, o Presidente João Lourenço, a meu pedido, em 10 de Março de 2021, recebeu-me em audiência, no decorrer da qual falamos, entre outros assuntos, sobre o “Caso Cabinda”.

Convergimos sobre a necessidade da resolução do mesmo, e ele me prometeu que tornaria a chamar-me para mais uma audiência, pela qual estou me preparando.

Enquanto aguardo essa audiência, o general Furtado, ministro de Estado e Chefe da Casa Militar da República, e a Dra. Mara Quiosa, então governadora da província de Cabinda, a meu pedido, receberam-me em audiência, e falamos sobre o “Caso Cabinda”.

FAMÍLIA, não estou cansado!
O meu abraço fraterno.

Feito em Cabinda, aos 16 de Agosto de 2024.

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