“Acordos de Alvor serviram apenas para ganhar tempo”, afirma Mário Pinto de Andrade
"Acordos de Alvor serviram apenas para ganhar tempo", afirma Mário Pinto de Andrade
Mário Pinto de Andrade

O secretário do Bureau Político do MPLA para a Reforma do Estado, Administração Pública e Autarquias, Mário Pinto de Andrade, considera que os Acordos de Alvor, assinados em Janeiro de 1975 entre o Governo português e os principais movimentos de libertação nacional de Angola, não foram concebidos com boa-fé e serviram, essencialmente, como uma manobra táctica para “ganhar tempo” enquanto cada grupo se fortalecia militarmente.

“Ao assinarem os Acordos de Alvor, os três movimentos – MPLA, FNLA e UNITA – desconfiavam uns dos outros. Em vez de trabalharem para um exército único, cada um apostou em criar forças armadas paralelas. Quem estivesse mais forte militarmente proclamaria a independência. E o MPLA estava mais forte, por isso venceu”, afirmou.

Falando durante uma sessão do ciclo de palestras promovido pelo projecto académico Oficina do Conhecimento, o político e académico recordou que essa falta de confiança entre os líderes dos movimentos – Agostinho Neto (MPLA), Holden Roberto (FNLA) e Jonas Savimbi (UNITA) – foi a origem do primeiro grande impasse da construção do Estado angolano.

“Os três líderes não se conheciam pessoalmente e, em vez de unirem forças para um projecto nacional comum, cada um procurou garantir o poder pela via das armas”, sublinhou, acrescentando que essa postura inviabilizou o Governo de Transição e precipitou o conflito armado após a independência.

O contexto histórico e as consequências

Mário Pinto de Andrade destacou que a Revolução dos Cravos, ocorrida em Portugal em 25 de Abril de 1974, apanhou os movimentos de libertação de surpresa, forçando-os a negociar rapidamente os termos da independência. No entanto, as negociações em Alvor, Portugal, não produziram uma verdadeira unidade nacional.

“A independência de Angola, proclamada a 11 de Novembro de 1975, acabou por ser uma independência dividida. O país ficou fragmentado em zonas de influência: a FNLA controlava o Norte, a UNITA o Centro-Sul, e o MPLA ficou com a faixa do litoral”, disse.

Segundo o académico, após a independência, as alianças internacionais reforçaram essa divisão. A FNLA contou com apoio dos Estados Unidos, o MPLA alinhou-se com a então União Soviética, e mais tarde, os EUA passaram a apoiar a UNITA.

Legado e reflexão

Para Mário Pinto de Andrade, que aderiu ao MPLA em 1973 e foi o primeiro coordenador da juventude do partido (JMPLA), o legado da independência deve ser respeitado e consolidado com base na união e na verdade histórica.

“Temos de olhar para a génese do nosso nacionalismo para entender o presente. A independência foi um ganho histórico, mas marcado por exclusão e conflito. A lição maior é que precisamos de unidade e boa-fé para construir o futuro”, rematou.

Nascido no Cuanza Sul em 1957, Mário Pinto de Andrade apelou ainda à nova geração para que preserve os ganhos da paz e da soberania, sem perder de vista os erros do passado. “A independência deve ser um factor de coesão, desenvolvimento e inclusão, e não um ponto de partida para a fragmentação e desconfiança entre irmãos angolanos”, concluiu.

com/Pungo a Ndongo

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