África do Sul e o silêncio que custa caro à África – Manuel Marques Carlos
África do Sul e o silêncio que custa caro à África - Manuel Marques Carlos
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Apesar dos seus enormes dilemas internos, a hegemonia regional permite que a África do Sul preserve, confortavelmente, o seu status de epicentro industrial, tecnológico e financeiro de África — o destino incontornável para quem procura padrões de vida ocidentais sem abandonar o solo africano.

Esta excepcionalidade, contudo, revela um problema: a dificuldade do país em afirmar-se como um modelo de sucesso replicável. Não se trata, porém, de Pretória aspirar tornar-se uma potência imperial, nem de encarar o resto do continente como o seu quintal. Trata-se, sim, de projectar o seu soft power como uma nação que funciona.

Em certo sentido, a África do Sul já é esse modelo. É assim que milhões de migrantes que cá vivem a percebem: como referência que gostariam de ver reproduzida nas suas terras de origem. O que falta, porém, é a capacidade — e sobretudo a vontade política — de exercer influência de forma institucional.

É inegável que, como a voz africana mais audível no exterior, a África do Sul tem promovido a agenda continental em fóruns globais, além de consolidar-se como porta de entrada para investimento estrangeiro e principal interlocutora entre a África e as potências emergentes. Todavia, este protagonismo internacional não compensa a sua sistemática omissão nas crises internas do continente.

A África do Sul pode — e deve — ser mais do que o porta-voz africano em palcos internacionais ou um crítico de injustiças globais, enquanto se silencia perante crises vizinhas. Como nação que compreende profundamente a opressão, seria a aliada mais confiável com que os povos fustigados do continente poderiam contar para denunciar a tirania e a miséria.

Pretória deve aproveitar o alcance dos seus holofotes para condenar violações de direitos humanos, exigir eleições transparentes e exercer a pressão diplomática necessária sobre regimes que sufocam as suas próprias populações.

Há pouco mais de um ano, Moçambique mergulhou numa crise pós-eleitoral sangrenta que deixou um rasto de centenas de mortos e milhares de presos políticos. O cenário repetiu-se na Tanzânia, após o escrutínio de 29 de Outubro passado, onde estimativas de diversas instituições apontam para um balanço trágico entre 1.000 a 2.000 vítimas mortais.

Ainda em 2025, em julho, foi a vez de Angola, onde dezenas de civis foram brutalmente executados pelas forças de segurança durante protestos contra o aumento das tarifas do transporte público.

Mais recentemente, assistimos à asfixia da oposição no Uganda — um país fustigado pela miséria e refém de um autocrata que, há quatro décadas, insiste em ignorar as aspirações de milhões de ugandeses, se apresentando como o único intérprete do destino nacional.

O silêncio da África do Sul diante desses e de outros casos enfraquece seu peso político e moral e abre espaço para que organizações internacionais e potências externas preencham o vácuo — algumas delas com agendas de natureza claramente neocolonial.

Talvez seja necessário lembrar que a África do Sul, além de ser o melhor exemplo de Estado de Direito no continente, é um dos raríssimos Estados africanos cujos processos eleitorais não precisam de validação ocidental para que seus próprios atores políticos os considerem livres, justos e transparentes.

Em grande parte dos Estados africanos, a proclamação oficial dos resultados eleitorais raramente encerra o processo político. O vencedor — muitas vezes o partido no poder desde a independência — aguarda a validação de Washington e de Bruxelas para se sentir plenamente legitimado. O derrotado, por sua vez, aguarda declarações críticas dos Estados Unidos e da União Europeia para reforçar suas acusações de fraude.

Ao afirmar a autossuficiência de sua democracia, mesmo nos momentos mais intensos de sua competição interna, a África do Sul se posiciona como um farol de liberdade no continente — um papel comparável ao desempenhado pela Europa Ocidental no espaço europeu.

Talvez a elite sul-africana acredite que, para liderar pelo exemplo, precise primeiro resolver suas fraturas internas. Talvez a África do Sul simplesmente queira ser um país “normal”, sem pretensões morais em relação aos seus vizinhos. O problema é que uma ilha relativamente próspera, cercada por um mar de extremo sofrimento, não pode se dar ao luxo de não liderar.

Com todo o seu peso político e moral, ser “normal” é um direito que a África do Sul não pode exercer, pelo menos enquanto a desigualdade regional persistir. A África do Sul precisa mostrar o caminho, ou pelo menos explicar aos outros sua fórmula para o sucesso.

Assumir-se como um modelo, no entanto, exige mais do que uma democracia consolidada. Impõe desafios estratégicos, tecnológicos e políticos.

No plano estratégico, o país urge em repensar a sua indústria de defesa, fragilizada por anos de má gestão e corrupção sistémica – cenário que não só provocou um brain drain de engenheiros de elite para fabricantes globais de armas, como forçou a migração do protagonismo do setor da esfera estatal para a privada.

Hoje, grande parte da capacidade produtiva e da propriedade intelectual sul-africana opera sob o controlo ou financiamento de entidades estrangeiras, submetendo a autonomia estratégica nacional à lógica do capital externo.

A curto prazo, este enfraquecimento do Estado na indústria de defesa pode não representar um problema a autonomia do país. A longo prazo, porém, não existem garantias, especialmente porque o capital não tem pátria nem lealdade a governos ou a segurança nacional.

As mãos que controlam o capital fazem o que as mãos que controlam o capital sempre fizeram: jurar lealdade apenas aquém promove a maximização do lucro, a redução de impostos e a diminuição da burocracia estatal.

Outro desafio fundamental prende-se com a base tecnológica do país. Uma das grandes decepções de quem visita a África do Sul é não encontrar, nas suas estradas, marcas de automóveis de produção puramente nacional — concebidas e desenvolvidas genuinamente pelas mentes brilhantes do país. Existem fabricantes globais a produzir localmente, mas faltam marcas indígenas de grande escala.

Existe no país uma engenharia de nicho — carros de corrida, veículos militares e réplicas para coleccionadores que, no entanto, precisa ser resignificada e potenciada para responder às necessidades de mobilidade de segmentos mais amplos da população, que não podem pagar pelo luxo e pela extravagância.

Repensar o património automóvel sul-africano implica apoiar, financiar e proteger empresas de baixo volume como a Harper Sports Cars, Bailey Cars, Hi-Tech Automotive, Birkin, entre outras, com o objectivo de fortalecer as capacidades locais e tornar o país um actor competitivo na indústria automotiva global.

O mesmo se aplica ao restante sector tecnológico. Apesar de ser o mais sofisticado do continente — particularmente nas áreas de fintech e infraestrutura digital — desafios urgentes persistem, especialmente na produção de hardware e software avançados.

Isso não invalida o mérito de certos esforços, como o ensino de robótica e programação em escolas públicas ou a criação do Instituto Sul-Africano de Inteligência Artificial. Mesmo assim, é possível fazer mais e de forma mais consistente para que o país possa se estabelecer como um verdadeiro centro regional de inovação.

E agora que a tecnologia é cada vez mais um instrumento de poder nacional, que visa o fortalecimento da soberania, segurança e competitividade, promover a base
tecnológica do país não é fundamentalmente um desafio do empresariado ou da elite económica.

Em um mundo onde a força dos países não reside mais exclusivamente em premissas tradicionais — território, poder militar e recursos naturais, mas extensivamente em sua dominância em semicondutores, inteligência artificial, tecnologia 5G, biotecnologia, cibersegurança, dados e computação quântica, o tecnonacionalismo passa a ser um imperativo estratégico que precisa ser liderado pelo governo e deve envolver todos os cidadãos.

‘‘E como isso pode ser feito?’’

Basta recordar como a China e o Paquistão desenvolveram os seus primeiros programas nucleares. Em nome da pátria, esses Estados mobilizaram as suas melhores mentes espalhadas pelo mundo, fazendo um apelo patriótico às suas diásporas — um apelo que, em contextos geopolíticos dominados pela incerteza, é quase irresistível.

Assim sendo, para além das competências internas, a diáspora académica e profissional constitui um activo precioso que a África do Sul pode, deve e precisa mobilizar. O défice remanescente terá de ser colmatado enviando os melhores estudantes para as principais universidades do mundo, bem como atraindo quadros estrangeiros.

O vazio persistente que não poder ser preenchido através de parcerias internacionais, deverá ser coberto com recurso a engenharia reversa e espionagem industrial. Não há outra via acessível para a aquisição de tecnologia crítica que o país ainda não domina. A compra directa, quando possível, faz-se a preços premium — o que devido a limitações orçamentárias, nem sempre é viável.

Dito isto, surge o desafio político — talvez o mais decisivo. Compreender a relação entre os partidos dominantes em África é central para decifrar não apenas a hesitação da diplomacia sul-africana, mas a dinâmica política de todo o continente. A chamada ‘solidariedade entre movimentos de libertação’ transcende o simbolismo; é o pilar de uma diplomacia de complacência, onde governos regionais operam sob um pacto de proteção mútua.

Esta rede informal de protecção entre elites, que prioriza lealdades históricas em detrimento das demandas democráticas contemporâneas, contrariando o espírito de coesão pan-africana, explica episódios como o de 13 de Março de 2025, quando o governo angolano impediu a entrada no país de figuras como Venâncio Mondlane e Bobi Wine, líderes da oposição de Moçambique e Uganda, respectivamente, bem como senadores ligados à oposição na Tanzânia e no Quênia e o ex-presidente do Botsuana, Ian Khama, para participar de uma conferência organizada pelo principal partido da oposição de Angola, a UNITA.

Este tipo de relação pessoal, histórica e ideológica que funciona como um “cartel” político destinado asfixiar a oposição em toda a região, também explica a resistência de certos países em reatar laços com os governos actuais do Burkina Faso, Mali e Níger.

Por outras palavras, o distanciamento de nações como a própria África do Sul, Namíbia e Cabo Verde em relação ao Sahel não é uma pressão sincera pela normalidade constitucional, nem um temor de precedentes de golpes de Estado.

Embora esses países afirmem defender o bem-estar do “homem africano”, para partidos como o ANC, a SWAPO e o PAICV, a lealdade às elites históricas se sobrepõe a qualquer solidariedade pan-africana transformadora.

Contudo, esta cumplicidade entre as elites, que valida eleições altamente contestadas, está paradoxalmente a alimentar a instabilidade que pretende evitar, à medida que a legitimidade histórica dos movimentos de libertação é cada vez mais pressionada pela mudança geracional que exige legitimidade democrática.

Ainda que Pretória esteja relutante em reconhecer, a onda de golpes militares que tem varrido a África nos últimos cinco anos deixa claro que proteger regimes insanos atrasa reformas e torna as crises futuras ainda mais explosivas.

Para as elites de Windhoek ou Praia, a complacência em relação a regimes autoritários, em detrimento da vontade popular, ainda pode parecer sustentável. Mas para Pretória, o custo é direto: é a sua elite que precisa explicar ao eleitorado que a sua diplomacia branda alimenta, em última instância, os fluxos migratórios desordenados que pressionam os serviços públicos e o mercado de trabalho nacional.

Neste ponto de inflexão, a velha guarda sul-africana enfrenta um grande dilema: manter a condescendência e continuar a pagar o preço nas fronteiras, ou revisitar os princípios do pan-africanismo e reconhecer que nenhuma aliança partidária deve sobrepor-se ao compromisso com os povos africanos.

E enquanto essas reformas não ocorrerem, os cidadãos do continente — especialmente os jovens — continuarão a esperar mais de Washington ou das antigas metrópoles do que de Pretória, questionando, com razão, a relevância da maior potência do continente.

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