Afrobasket 2025: Vitória em campo, derrota na imagem pública – Rui Kandove
Afrobasket 2025: Vitória em campo, derrota na imagem pública – Rui Kandove
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No dia 24 de agosto, Angola sagrou-se campeã africana de basquetebol. Foi a 12.ª conquista continental, um feito que reafirma a tradição do país como potência na modalidade.

O triunfo, no entanto, não teve o efeito simbólico esperado. No Pavilhão Multiúsos do Kilamba, em vez da comunhão nacional, assistiu-se a vaias e apupos — não contra os atletas, mas contra os representantes do poder político.

Esse episódio revela uma falha estrutural de leitura do ambiente social e político. O desfasamento entre o discurso oficial e a perceção popular tornou-se evidente, num palco onde se esperava celebração e unidade.

O DEPARTAMENTO DE MOBILIZAÇÃO COMO BODE EXPIATÓRIO

No espaço público circula a ideia de que a responsabilidade pela ausência de aclamação recai sobre o Departamento de Organização e Mobilização (DOM) do MPLA. Aponta-se Gonçalves Mwadumba como o elo fraco do processo, por não ter garantido a mobilização necessária.

Mas essa leitura é redutora. O sinal de distanciamento já estava presente desde o primeiro dia da competição, quando as bancadas não responderam ao protocolo político habitual. Ignorar esse aviso foi negligência estratégica, não apenas falha operacional.

O SECRETÁRIO-GERAL: ARTICULADOR OU ESPECTADOR?

Alguns textos tentam ilibar o Secretário-Geral do MPLA. Contudo, não basta invocar limites estatutários para justificar omissões. O cargo de SG não é apenas administrativo — é, acima de tudo, político. É ele quem deve sentir o pulso das bases, antecipar climas adversos e aconselhar a liderança.

A ausência dessa atuação pode ser lida como omissão deliberada ou como incapacidade. Em ambos os casos, mina a credibilidade interna.

A comparação com a nomeação de Capipinha na JMPLA não é descabida: decisões tomadas de cima para baixo, sem sintonia com a realidade social, acabam por gerar distanciamento e contestação silenciosa.

O PRESIDENTE E A URGÊNCIA DE MEXIDAS

O Presidente da República e líder do partido tem diante de si um desafio imediato: reconectar-se com o sentimento popular. Não se trata apenas de reorganizações administrativas ou mexidas pontuais, mas de uma mudança de postura política.

Rever o processo do congresso, abrir espaço para pré-candidaturas legítimas e sinalizar abertura ao diálogo podem ser passos determinantes para restaurar a confiança.

O Afrobasket deveria ter sido um palco de vitória nacional, mas tornou-se um espelho da fragilidade atual da legitimidade política. Portanto, não é decente a campanha contra Gonçalves Mwandumba.

*Jornalista

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