
O regresso das guerras em larga escala em África tem vindo a intensificar-se, com vários países do continente sob fortes tensões militares. Entre os casos mais relevantes destacam-se a República Democrática do Congo, Moçambique, Sudão, Nigéria, Mali, Benin e Burkina Faso.
Estes conflitos resultam tanto de disputas internas pelo poder como da atuação de grupos extremistas, incluindo o autoproclamado Estado Islâmico.
Na região dos Grandes Lagos, a situação revela-se particularmente complexa. O conflito armado entre a República Democrática do Congo e o Movimento M23, apoiado pelo Ruanda, tornou-se um ponto de desequilíbrio estratégico para potências regionais como Angola, que procura evitar a continuidade da guerra através da mediação diplomática.
A intervenção diplomática angolana tem gerado desconforto em Kigali, devido às relações bilaterais entre Luanda e Kinshasa e ao contexto histórico que une os dois países. Do ponto de vista ruandês, Angola é percepcionada como parcial, o que coloca Luanda numa posição delicada no plano geopolítico.
Neste enquadramento, pode afirmar-se que Angola passou a enfrentar um inimigo estratégico desde que assumiu o papel de mediador. A disputa entre Kinshasa e Kigali prolonga-se há décadas.
Em determinados momentos, Kinshasa beneficiou de vantagens nas negociações, em grande medida devido ao peso de Angola enquanto potência regional dominante.
Contudo, o cenário atual é distinto: o Ruanda resiste aos apelos de Luanda, sustentando que se encontra numa posição mais favorável no campo militar.
Esta perceção traduz uma alteração significativa no equilíbrio de forças na região, demonstrando que a mediação angolana, outrora determinante, enfrenta hoje limitações perante a confiança estratégica que Kigali deposita na via armada.
As fronteiras angolanas encontram-se fragilizadas, consequência da ausência de investimento adequado nos setores da segurança e defesa.
Estas áreas continuam a ser violadas por elementos estrangeiros, incluindo agentes secretos do M23 e outros grupos armados que se fazem passar por garimpeiros nas regiões das Lundas e do Moxico.
A este cenário soma-se a crescente pressão migratória sobre a capital, onde muitos indivíduos entram como supostos investidores, dominando o mercado nacional através de pequenos e grandes negócios, mas perseguindo, em última instância, objetivos ocultos, onde podemos destacar a infiltração desses agentes nos serviços do Estado — como a Polícia Nacional, as Forças Armadas Angolanas e o Serviço de Inteligência e Segurança do Estado (SINSE) — representa uma ameaça de grande magnitude, com implicações sérias para a soberania e estabilidade nacional.
Principais formas de infiltração:
Angola encontra-se sob crescente pressão de forças externas que procuram impor regras e influências desde os níveis mais básicos até às estruturas superiores do Estado.
A presença de agentes de inteligência estrangeiros, que entram e saem do país retirando informações e recursos estratégicos, transformou Angola num objeto de estudo para diversas agências internacionais.
Face a este cenário, torna-se crucial a criação de um centro de investigação especializado, capaz de analisar e responder de forma eficaz às ameaças externas.
Paralelamente, é essencial investir de forma robusta e sistemática nas Forças Armadas Angolanas, reforçando a capacidade de defesa nacional e assegurando a soberania do país perante os desafios contemporâneos.
Não se pode descartar a presença de grupos terroristas em território nacional. Existem fortes indícios da sua atividade, por vezes protegida por cidadãos angolanos, com ou sem conhecimento da sua verdadeira natureza. A segurança nacional não pode ser confundida com a segurança local de um bairro.
Angola dispõe de oficiais experientes — alguns já na reforma e outros ainda no ativo — e de jovens dispostos a contribuir para a proteção do Estado. O desafio está em mobilizar e aproveitar este capital humano para enfrentar uma ameaça que se revela cada vez mais global e sofisticada.
“O futuro de Angola depende das decisões tomadas hoje. A Angola de amanhã será inevitavelmente moldada pelas escolhas e ações do presente”.
*Investigador em Segurança e Defesa