
A Amnistia Internacional revelou que o jornalista e jurista angolano Teixeira Cândido foi alvo, em 2024, de um ataque com o spyware Predator, um programa altamente invasivo utilizado para vigilância secreta de telemóveis, marcando a primeira confirmação forense conhecida do uso desta tecnologia em Angola.
Segundo a organização de defesa dos direitos humanos, a infeção foi identificada após uma análise técnica ao iPhone do jornalista, que confirmou que o software malicioso esteve ativo no dispositivo a 4 de Maio de 2024, permitindo acesso total às comunicações, dados pessoais e funções do aparelho, incluindo microfone e localização.
Teixeira Cândido, antigo secretário-geral do Sindicato dos Jornalistas Angolanos, afirmou sentir-se profundamente afetado pela intrusão.
“Sinto-me nu ao saber que fui alvo desta invasão da minha privacidade. Não sei o que possuem sobre a minha vida”, declarou, acrescentando que passou a limitar drasticamente o uso dos seus dispositivos por receio de nova vigilância.
A investigação indica que o ataque ocorreu através de mensagens enviadas por WhatsApp a partir de um número angolano desconhecido, cujo autor se fez passar por estudante interessado em questões sociais e económicas.
Após semanas de contacto para ganhar confiança, foram enviados vários links maliciosos disfarçados de conteúdos noticiosos. Um desses links terá sido aberto pelo jornalista, permitindo a instalação do spyware.
O Predator é desenvolvido e comercializado pela empresa de vigilância digital Intellexa, já alvo de sanções e investigações internacionais. Apesar disso, a Amnistia Internacional alerta que o sistema continua operacional e a ser utilizado em diferentes países, embora não tenha atribuído o ataque em Angola a um cliente governamental específico.
De acordo com Carolina Rocha da Silva, responsável pelo Laboratório de Segurança da Amnistia Internacional, a análise forense confirmou “com elevado nível de confiança” que os domínios utilizados nos links maliciosos estão associados ao Predator e resultaram em pelo menos uma infeção bem-sucedida do telefone do jornalista.
A organização sublinha que o ataque representa uma grave violação dos direitos à privacidade e à liberdade de expressão, com impacto direto na capacidade dos jornalistas exercerem o seu trabalho de forma livre e segura.
O caso insere-se, segundo a Amnistia, num contexto mais amplo de vigilância e intimidação em Angola, onde o spyware Predator terá sido utilizado desde pelo menos o início de 2023.
Além da vigilância digital, Teixeira Cândido tem sido alvo de outros episódios de intimidação desde 2022, incluindo assaltos não esclarecidos ao seu escritório, o que reforça as preocupações sobre a segurança de profissionais da comunicação social no país.
A Amnistia Internacional enquadra o caso num ambiente de crescente repressão política e restrições às liberdades civis sob a administração do Presidente João Lourenço, defendendo a necessidade urgente de controlo rigoroso sobre a venda e o uso de tecnologias de vigilância, sob pena de continuarem a alimentar abusos de direitos humanos.