Analistas e especialistas de tudo – Carlos Calongo
Analistas e especialistas de tudo - Carlos Calongo
Carlos Calongo

Tal como a “febre” dos influencier, emerge, em Angola, uma classe de Analistas, Especialistas de tudo. Em grande parte dos casos, deles não se conhecem estudos realizados, contendo propostas de correcção disto, daquilo ou daquiloutro, visando prestar tributo à sociedade angolana.

Potencializados pela media emergente que tem as diversas plataformas de comunicação digital, incluindo o facebook, como os palcos de excelência para a disseminação das suas teses, os pseudo analistas, especialistas e activista, em boa verdade, revelam-se mais como “entrevistados” e, não poucas vezes, transmissores de recados empacotados em defesa de causas e propósitos, que eles melhor que ninguém conhecem.

Uma verdade sublime é que, muitas vezes, a actuação dos adjectivados analistas e comentaristas quando não se resumem em lugares comuns, reflectem afirmações não comprovadas com os mínimos de dados exigidos para que as teses deles sejam aceites sem quaisquer margens de suspeições.

Compreendemos ser justo assumir a existência de excepção à regra. Mas, a citada excepção, para o caso desta reflexão, representa muito pouco perante ao que vem se constituindo como norma e aceite com toda a leviandade estarrecedora, capaz de criar o sentimento de estarmos a construir uma Nação em que toda a narrativa, sobretudo crítica em relação a determinado factor, é verdade absoluta. Uma espécie de aceitarmos tudo que seja contra o outro.

Classificamos a oportunidade deste artigo pela constatação de que, tais especialistas e analistas quase nunca contribuem com insights detalhados e técnicos, vital para o desenvolvimento e inovação do que abordam.

Com este tipo de comportamento, os mesmos demonstram não deterem as características básicas essenciais de um verdadeiro analista, cuja missão fundamental prende-se com a capacidade de influenciar o processo de tomada de decisões estratégicas.

Em concreto, os especialistas devem revelar capacidade de desconstruir os enigmas encerrados nos discursos que promovem as suas aparições públicas.

Mais do que tudo, devem ser convincentes, equilibrados e distanciados de inclinações políticas, por via das quais, muitas vezes prestam-se a destilar todo o fel das frustações sociais que os assoma, sem o mínimo de consideração pelo o que a sociedade precisa de ouvir, de facto, sobretudo em relação aos assuntos pelos quais são considerados especialistas.

Outro ponto de inquietação prende-se com a área de actuação dos mesmos. Paira no ar a tendência de existir uma espécie de um para tudo, ou seja, a mesma pessoa se apresenta ou é apresentada como especialistas em todos os assuntos que ocorrem na sociedade, desde religião, cultura, desporto, política e, enfim… São uns tudólogos. E, sabe-se que isto não funciona deste jeito. Nem todas as áreas comportam, conceitualmente, um especialista.

Não nos alistamos ao exército dos que entendem um profissional de actuação generalista como sendo a de um especialista, pelo simples facto dele “navegar” pelos vários processos da área de actuação. Isto não faz dele um especialista.

Em boa razão, os verdadeiros especialistas que, diga-se de passagem, Angola possui, sobretudo nas áreas técnicas, mais do que ofuscados ou bloqueados, estão a ver banalizados os seus saberes, realidade que condenamos veementemente.

Com as devidas aspas, a aparição de analistas, especialistas, qual cogumelos em lavra de ninguém, se parece com a febre dos “Coach”, e “conselheiras” que se transformaram em ofícios de todos, desrespeitando-se os verdadeiros actores que investiram na área e dela sabem o suficiente para doarem-se em abordagens com propriedade.

O especialistas que (não) temos deveriam ser capazes de ler e interpretar cenários e necessidades da sociedade, propor o alinhamento entre as acções e estratégias de vida e outras, como reflexos de possuírem domínio sobre determinadas matérias e alto grau de especialização e visão sistémica.

Os nossos analistas e especialistas, na maior parte dos casos, não passam de cidadãos detentores de determinado grau académico, sem trabalho de pesquisas dignas de realce e que servem de referência para a percepção de certos fenómenos que ocorrem na sociedade angolana e sobre os quais apresentam soluções viáveis.

Para além de um diploma de Ensino Superior em uma área relevante, para ser analista ou especialista se exige, preferencialmente, certificações adicionais, que os leva a ser bem-sucedido nessa tarefa, amplificada pela visibilidade mediática. Ao contrário disso, o normal devia ser tratá-los por formados em alguma coisa.

Das leituras, quer avulsas como sistemáticas que temos estado a fazer desde que nos interessamos por este tema, concluímos que um analista é alguém que avalia, projecta e comunica soluções para várias questões e partes interessadas. Geralmente, isso envolve a realização de pesquisas e análises sobre as questões, usando métodos quantitativos e qualitativos.

Além disso, desenvolvem e avaliam opções, políticas e recomendações com base em evidências, melhores práticas e contribuições das partes interessadas. Eles preparam e apresentam relatórios de políticas, resumos, memorandos ou propostas com linguagem e visuais claros e persuasivos.

É fundamental ter e conhecer profundamente o funcionamento da máquina pública, incluindo as nuances dos relacionamentos entre os incumbidos da missão de tomar as decisões.

Entre nós, muitas vezes, os ditos especialista ou analistas enfrentam incertezas e ambiguidades visíveis ao lidar com questões complexas, dinâmicas e contestadas. Ainda assim, ousam elevar a falta de humildade para declarar incompetência para abordar determinado tema. Basta ver os nossos comentadores residentes nas rádios e canais de televisão.

Sobre os activistas, bem queria que o espaço permitisse, mas como não, reservo para próximas ocasiões, a minha interpretação sobre a acção deles.

*Jornalista

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