Angola: Máfia na importação de alimentos conta com proteção de altas figuras do Governo
Angola: Máfia na importação de alimentos conta com proteção de altas figuras do Governo
porto Lua

A máfia que controla as importações de alimentos em Angola, especialmente produtos da cesta básica, conta com a proteção de figuras de alto escalão do governo do Presidente João Lourenço. O cartel, liderado por cidadãos estrangeiros (indianos, libaneses, eritreus, mauritanos), é protegido por membros da Presidência da República e do Ministério da Indústria e Comércio (MINDCOM).

Actualmente, Angola importa cerca de 600 mil toneladas de arroz, 200 mil toneladas métricas de óleo de palma e quase 300 mil toneladas de coxas de frango. Em relação à farinha de trigo, a importação atinge as 106 mil toneladas, enquanto a massa alimentar soma 14 mil toneladas, conforme dados fornecidos pelo director de Estatística do Banco Nacional de Angola, Joel Futi.

Recentemente, o ministro de Estado para a Coordenação Económica, José de Lima Massano, revelou na abertura da 3.ª edição do Angola Economic Outlook que o país gasta 200 milhões de dólares por mês na importação de bens alimentares como arroz, açúcar, carne de frango, trigo e óleo alimentar.

Na ocasião, Massano destacou a necessidade de Angola reduzir a dependência de fatores externos para alcançar a autossuficiência alimentar, sublinhando os efeitos dessa dependência sobre a estabilidade dos preços.

No entanto, é amplamente reconhecido que um cartel detém o monopólio da importação de alimentos mais consumidos pela população angolana, em um país com condições climáticas e de solo favoráveis para a produção interna suficiente para suprir o mercado e até exportar o excedente.

Os protetores da máfia

O ministro de Estado e diretor do Gabinete do Presidente da República, Edeltrudes Maurício Fernandes Gaspar da Costa, é a figura que teria orientado a seleção das nove empresas indicadas pelo Ministério da Indústria e Comércio para a importação de 270 mil toneladas de arroz, conforme apurou o Imparcial Press.

Na terça-feira, 28 de Maio, o Ministério da Indústria e Comércio divulgou os resultados de um concurso público, com o qual apurou nove empresas para, ao longo deste ano, importarem 270 mil toneladas de arroz em três fases.

As empresas selecionadas são: Noble Group S.A, Bsrat General Trading Lda, Beilul Comércio Geral Lda, Merhat Comércio e Indústria Lda, Anseba Lda, Angoalissar Comércio e Indústria Lda, Ros ‘Bien Lda, Gulkis e Hidmona General Lda.

Edeltrudes da Costa, conhecido como Nandinho entre os mais próximos, tem controlado, há mais 22 anos, o Ministério da Indústria e Comércio nos bastidores.

Pouco anos antes do fim do conflito armado, em Abril de 2002, no tempo do Governo de Unidade e Reconciliação Nacional (GURN), Edeltrudes Costa era director de gabinete do então ministro do Comércio, Victorino Domingos Hossi, indicado pela UNITA.

Seu braço direito, segundo informações obtidas pelo Imparcial Press, é o secretário de Estado do Comércio, Amadeu de Jesus Alves Leitão Nunes, em funções desde 2017.

Com um extenso currículo no sector do Comércio, Amadeu Leitão Nunes foi representante comercial de Angola em Portugal até 2016, quando foi exonerado pelo então ministro do Comércio, Fiel Domingos Constantino. Também desempenhou funções nos Estados Unidos da América e junto da Confederação Helvética (Suíça) e da Organização Mundial do Comércio, com sede em Genebra.

Desde a sua nomeação, Amadeu Leitão Nunes assistiu à passagem de dois ministros: Joffre Van-Dúnem Júnior e Victor Francisco dos Santos Fernandes. Actualmente, auxilia o ministro Rui Miguêns de Oliveira, oriundo do sector bancário.

Quem importa?

Os dados indicam a existência de cerca de 15 empresas do sector do comércio com o monopólio das importações em todo o país, num segmento que conta com 27.576 empresas licenciadas. Destas, cerca de 900 declararam falência em determinado momento, mas desde 2018 foram criadas 596 novas empresas.

Actualmente, o comércio representa cerca de 50% do tecido empresarial do país. Entre os principais importadores estão: Angoalissar, Atlas Group, Nobel Group, Angorayan, Alimenta Angola, Africana Discount, Newaco Group, Dimassaba, Selmata, Anseba, Rayan Investment, Ros Bien Comércio, AMT-Angola e Zara General Trading, entre outros.

Todas estas empresas são detidas por cidadãos libaneses, indianos ou provenientes do Norte de África, como mauritanos, eritreus, malianos, nigerianos e etíopes.

Um alto funcionário do MINDCOM confirmou recentemente ao jornal Pungo a Ndongo que “estes são os maiores grupos empresariais estrangeiros que dominam o comércio”, mas questionou por que “o Banco Nacional de Angola (BNA) continua a libertar divisas para que estes importadores façam pagamentos aos seus fornecedores no exterior”.

De acordo com um comunicado do MINDCOM, o arroz é um dos alimentos mais consumidos pela população angolana. Todavia, a produção nacional ainda é insuficiente para atender à demanda anual. Em 2023, Angola importou cerca de 339 mil toneladas de arroz, que custaram ao Estado 223,1 milhões de dólares.

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